FOI BOM ENQUANTO DUROU

, mas tudo tem uma hora de acabar. Este blog (iniciado em 2008 – quase um senhor, se levarmos em conta que vivemos um tempo onde tudo é descartável, ainda mais no ambiente virtual) que, não é de hoje, tem seguido em câmera lenta e já não tem mais o mesmo fôlego faz tempo. Muita coisa mudou, o autor já não é mais o mesmo – não que tenha trocado de dono, não!, sou eu aqui escrevendo, Andrew, mas eu mudei. Já tive e ainda tenho muito orgulho desse cantinho aqui, afinal foram mais de 200 mil visitas, para um escritor completamente desconhecido escrevendo, na maioria das vezes, de próprio punho, coração e coragem…

(CONTINUA em https://jerkedmusicandclassicfood.wordpress.com/2015/08/21/preludioboas-vindas/ meu novo blog)

TÁ FALTANDO VOLANTE

Mais do que uma mudança de governo, eu espero que o povo brasileiro volte a ser o povo brasileiro, que reaprendamos o nosso jeitinho de resolver tudo na conversa e na camaradagem dos tempos em que vascaíno sentava no boteco pra tomar uma cerveja com flamenguista e as discussões mais acaloradas não saiam de dentro do campo e do copo — e a amizade continuava.

Porque é verdade que nem de futebol nós sabemos falar (sabemos que 3 volantes é ruim, mas a maioria de nós sequer sabe qual é a função de um volante — e que volantes como Pirlo e Schweinsteiger são a alma de seus clubes e seleções), quanto mais de política. E é como torcedores fanáticos que nós vestimos o vermelho do PT e o azul do PSDB para em seguida partirmos para o quebra-pau de torcida organizada como em dia de Grenal lá no Rio Grande.

Não, não sabemos argumentar, nos falta conteúdo, educação e principalmente conhecimento prático do que é ter bons governantes, simplesmente porque nunca tivemos ao menos um para que nos sirva de exemplo. Baseamos nossos ataques e contra-ataques em pedaladas e não em conhecimento prático ou raciocínio lógico. Falamos do que não sabemos e nisso somos todos cátedras: achamos que somos todos donos da verdade, quando muito não passamos de criadores de fábulas nas quais nós mesmos acreditamos para nos sentirmos menos inúteis. Uma coisa é um povo politizado que se preocupa com a situação política do país; outra coisa é acompanhar o noticiário político como quem acompanha o resumo das novelas da televisão onde sempre existe um mocinho e um vilão.

Como povo, justificamos a lei de Darwin na prática, já que os nossos cérebros não estão completamente evoluídos e no fundo somos todos ainda meio macacos. Futebol é o máximo que conseguimos entender razoavelmente (quem faz mais gol ganha, nada mais que o necessário — qualquer chimpanzé é capaz de aprender isto) e é por isso que esportes como o Rugby e o Beisebol não pegam por estas bandas: muito complexos pra nossas cabecinhas educadas com Didi Mocó e Galvão Bueno. Quanto mais falar de política…

Política é coisa séria; não se aprende indo do facebook pra wikipédia e vice-versa. Política é pra gente que lê ou pelo menos já leu mais de 50 livros num ano, pra quem não tem medo de ir pra guerra pra defender a nação, pra gente que não acha que desenvolvimento social é poder comprar um carrinho um-ponto-zero em setecentas prestações; política é pra torcedores de beisebol e não pros nossos Fla-Flus regados a cerveja aguada e churrasquinho de gato.

Porque enquanto perdemos nossa identidade para nos tornarmos todos um bando de fanáticos ideológicos histéricos que não têm noção alguma do que estão fazendo, a verdade é que a vida e o jogo não para e já estamos perdendo de 7 pros políticos que tanto amamos, enquanto marcamos apenas 1 e mesmo assim contamos como se estivéssemos ganhando de goleada — o nosso golzinho, é bom citar, foi naquelas manifestações de 2013 que no fim das contas alguns tentaram transformar em gol contra, mas não, podia até ser apenas por 0,20, mas ali o povo ainda estava unido.

Dia 16 poderíamos marcar outro gol, mas nosso time tem apenas pernas de pau, está faltando volante, não tem ligação entre os que defendem e os que atacam; precisamos de um novo técnico, mas o nosso Guardiola só em sonho por enquanto. (E isso aqui serve tanto pra gregos quanto pra troianos, amém).

Andrew Clímaco; 05/08/2015

THE LAST TIME I SAW MARY

abandoned railway station

Eu estava sentado ao lado daquela velha ferrovia ao sul de lugar nenhum, as mãos sujas de carvão e graxa, bebericando uma cerveja morna na hora do descanso, enrolando um cigarro com fumo dos índios em palha de milho e o sol deitava calidamente a sua mão fulgurosa sobre a minha testa como se faz com um filho. Eu estive assistindo chegadas e partidas a metade da minha vida, o café-com-pão das locomotivas que chegavam do norte e para o norte partiam levando um a um até que não sobrou quase ninguém, e era eu o responsável por manter os grandes pássaros voando sobre ferro quente pelo país afora – e era de mim que o corretor de imóveis falava justificando o quão pacata a cidade se tornou nos últimos anos. Eu era o que tinha ficado, o responsável por manter os trilhos em ordem para que os que desejassem partir partissem. E eu já estava acostumado com a rotina de ver as pessoas entrando no trem e nunca saindo dele. Então um dia, Mary, minha esposa, a última pessoa que havia ficado naquela cidade junto comigo também partiu. Eu bebia o último gole da cerveja morna quando a velha locomotiva apitou na curva e desapareceu para nunca mais. Dei um trago no pito de palha e pensei com meus botões que havia chegado a minha hora. Voltei para casa naquele fim de tarde, lavei-me no banheiro, a água turva correndo das minhas mãos para o ralo, e em seguida pus-me a fazer as malas – não havia tempo, queria pegar o primeiro trem logo pela manhã. Passei a madrugada em claro, ansioso, engasgando tragos de uísque do Tennessee e pensando em Mary. Quando amanheceu, corri até a velha estação onde por longos anos eu havia trabalhado, pus as malas no chão e esperei – uma hora, duas, três, dez horas, não sei ao certo quanto tempo – e enfim me dirigi aos guichês de passagens para perguntar sobre o trem atrasado e o que encontrei foram teias de aranha, o piso de tábuas carcomido pelo tempo & cupins, poeira por todo lado, nem uma mosca para fazer zumbido, nada que fizesse pensar que algum dia houve vida por ali e uma placa enferrujada com os dizeres “LINHA FÉRREA INTERDITADA. ANO DE 1934”.

 

Andrew Clímaco; 14 de junho de 2013.

Outro Poema de Charles Bukowski seguido de Outra Alfinetada de Andrew Clímaco

Pro Zé do MCP

artista

 

de súbito me torno um pintor.
uma garota de Galveston me dá
US$ 50 por um quadro de um homem
segurando uma bengala doce enquanto
flutua por um céu escuro.

então um jovem com uma barba negra
aparece
e eu lhe vendo três por US$ 80.
ele gosta de telas grosseiras
nas quais escrevo coisas como –
“cague” ou “GRANDE ARTE É
BOSTA DE CAVALO, COMPRE TACOS”.

posso fazer um quadro em 5 minutos.
uso tinta acrílica, direto do
tubo.
pinto o lado esquerdo do quadro
primeiro com minha mão esquerda e depois
termino o lado direito com minha
mão direita.

agora o jovem barbudo
retorna com um amigo com um cabelo
todo espetado e eles trazem um loirinha
com eles.

o barba negra continua sendo o mesmo otário:
vendo-lhe um punhado de merda –
um cachorro laranja com a palavra
“CACHORRO” escrita ao seu lado.

o cabelos espetados quer 3 quadros
pelos quais peço US$ 70.
ele não tem grana.
fico com as telas mas
ele promete me mandar uma
garota chamada Judy
de cinta-liga e saltos altos.
ele já lhe contou sobre mim:
“um escritor de fama internacional”, ele disse
e ela respondeu, “oh, não!” e puxou
seu vestido sobre sua cabeça.
“eu quero isso”, eu lhe disse.

depois discutimos as condições
eu quero comê-la primeiro
e depois receber um boquete.
“que tal o boquete primeiro e
depois a foda?”, ele perguntou.

“isso não funciona”, eu disse.

então chegamos a um acordo:
Judy virá até aqui e
depois
eu alcançaria a ela as
3 pinturas.
e assim estamos:
de volta ao escambo
o único modo de vencer a
inflação.

apesar disso
gostaria de
iniciar aqui o Movimento pela Libertação Masculina:
quero uma mulher que me dê 3 de
suas pinturas após fazer
amor comigo,
e se ela não souber pintar
pode me deixar
um par de brincos de ouro
ou talvez um pedaço de orelha
em homenagem àquele que era
era capaz.

 

Charles Bukowski (in O Amor é um Cão dos Diabos; L&PM, 2007; tradução de Pedro Gonzaga)

 

Ok, estou de acordo com o Velho nesse negócio de Movimento pela Libertação Masculina. Eu até andei pregando por aí uma ideia que tive sobre todo ano fazer uma Parada do Orgulho Macho pelas ruas de São Paulo igualzinho os gays fazem (tenho certeza que o Gustavão do MCP entraria nessa comigo). Afinal de contas, as mulheres estão mesmo querendo tomar o lugar dos homens em tudo, não? Pelo menos nas coisas boas elas vêm com esse papo de direitos iguais. Certo, por isso digo que estou esperando uma mulher que escreva um livro ou pelo menos um conto e meia dúzia de poemas sobre mim depois que eu a levá-la pra cama, como forma de agradecimento. Uma mulher que me pague uma bebida e um jantar pra me conquistar, que banque a “cavalheira” quando a conta do restaurante, do bar ou do hotel chegar. Uma que pague o táxi. Que me traga café na cama. Isso também são direitos iguais e, sendo assim, vocês, meninas, já me devem uma nota preta por todas as vezes que tive de arcar com as despesas sozinho. Cadê as feministas numa hora dessas? Aposto que saíram correndo. Estão atrás só da coisa boa do bagulho, porque quanto as dificuldades de ser um homem aparecem enfiam o rabinho por debaixo das pernas e saem correndo. Mas eu, que sou um cara legal, continuo à favor de vocês, queridas: vamos trocar de lugar. Não se esqueçam que eu sei cozinhar muito bem e posso até lavar a roupa.

 

Andrew Clímaco; 30-11-2011

[in-conjugações]

éramos eu e tu conjugados
: nós à sós mais-que-perfeitos.
não obstante, vieram eles, dos quais,
ele, pronome pessoal (ainda indefinido), complementava a sentença.
logo tu te assimilarias com eles e
na antonomásia hiperbólica de príncipe dele, agora sujeito determinado,
teus olhos em chamas fizeram-se antítese dos meus olhos d’água.
feito anacoluto, vós elipsastes nós e tu eu;
desde então, meu deus, somos nós um nó a apostrofar na catacrese da minha garganta
e eu também seria feliz não vivesse predicado
no futuro do nosso pretérito imperfeito.

18 de Março — 2010

A mais linda mulher da cidade – Charles Bukowski

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.

As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos — “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.

O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.

Conheci Cass uma noite no West End Bar, Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade — o que bem pode ter contribuído.

— Quer um drinque? — perguntei.

— Claro, por que não?

Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.

— Me acha bonita? — perguntou.

— Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…

— As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?

— Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.

Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.

Ela me olhou e riu.

— E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?

Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:

— Olha — disse para Cass, — se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.

— Ah, vai te foder, cara!

— É melhor não dar mais bebida pra ela — aconselhou o sujeito.

— Não tem perigo — prometi.

— O nariz é meu — protestou Cass, — faço dele o que bem entendo.

— Não faz, não — retruquei, — porque isso me dói.

— Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?

— Sinto, sim. Palavra.

— Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.

Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:

— Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?

— Amanhã de manhã — respondi, — virando de costas pra ela.

No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.

Deu uma risada.                                     

— Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.

— Deixa pra lá — retruquei, — a gente nem precisa disso.

— Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.

Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional — os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.

— Vem de uma vez, gostosão.

Deitei na cama.

Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.

— Qual é o teu nome? — perguntei.

— Porra, que diferença faz? — replicou.

Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão — uma folha de inhame.

— Sabia que ia te encontrar no banho — disse, — por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.

E atirou a folha de inhame dentro da banheira.

— Como adivinhou que eu estava aqui?

— Adivinhando, ora.

Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.

Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.

— Esses filhos da puta — disse ela, — só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.

— Quem topa o convite já está comprando barulho.

— Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.

— Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.

Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.

— Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.

Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.

— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?

— Que nada, seu bobo, agora é moda.

— Pirou de vez.

— Sabe que sinto saudade — comentou.

— Não tem mais ninguém no pedaço?

— Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.

— Tira esses grampos daí.

— Negativo. É moda.

— Estão me deixando chateado.

— Tem certeza?

— Claro que tenho, pô.

Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.

— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?

— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.

— Então tá. Sorte minha, né?

— Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.

— Muito obrigado.

Tomamos outro drinque.

— O que anda fazendo? — perguntou.

— Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.

— Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.

— Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.

— Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.

Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.

Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada — da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço — grande e saliente.

— Puta que pariu, criatura — exclamei, já deitado. — Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas?

— Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?

Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.

— Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem
de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.

— Se é — retruquei, — estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.

Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.

Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.

— Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!

Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fossemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e ao respondeu, pensativa:

— Não.

Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:

— Uma pena o que houve com sua amiga.

— Pena por quê? — estranhei.

— Desculpe. Pensei que soubesse.

— Não.

— Se suicidou. Foi enterrada ontem.

— Enterrada? — repeti.

Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?

— Sim, pelas irmãs.

— Se suicidou? Pode-se saber de que modo?

— Cortou a garganta.

— Ah. Me dá outra dose.

Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

— MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.

 

(do livro “Crônica de um Amor Louco;
L&PM Editores. Tradução: Milton Persson)