uma trilha de sandálias arrebentadas

calçadas amplas&pés descalços
uma trilha sem fim de sandálias arrebentadas
maquiagem borrada no sereno das vitrines
distante gemido da garganta do tráfego profundo
postes com sombra de mulher luz de vestido amarelo
as pernas saltando pra fora dos bancos dos pontos de ônibus
as virilhas das esquinas violadas por falos-hidrantes
bocas-de-lobo exalando hálitos de sexo&desgosto
o asfalto morno pele nua das ruas

: o eco de um milhão de amores mortos
nas cicatrizes da madrugada fria.

andrew clímaco
14/09/2014

Lisa revisitada

Mais 3 anos e 3 anos é tempo pra caralho
desde que Lisa não voltou pra casa
e eu perdi O sono O último táxi A esperança.

Eu virei um amante da tormenta
Meu peito um matadouro de animais passionais
O sangue dos amores decaptados formando um tapete vermelho
sob o meu rastro de baganas de cigarro
Deixando tudo preparado pra quem me seguisse.

Lisa não voltou pra casa e virou o meu Rosebud de salto alto.

3 anos e um século de absurdo
2 guerras mundiais dentro da minha cabeça
Uma legião de ídolos mortos aos 27
O meu anseio de sair metendo porrada em tudo

Desde que eu chamei e Lisa não voltou
De quando nem chegar ela quis
Porque eu nem tinha uma casa
Só uma cadeira de madeira no meio da desolação sendo comida por cupins
onde eu sentei e fiquei lá
esperando
uma vontade bandida
constante de dizer Lisa, volta pra casa
E ela nem aí.

andrew clímaco

Dos poemas inéditos

Escrevi um monte de poemas pra você, mas vou guardar tudo pra mim. Pra quando você deixar de ser essa esperança burra que me aporrinha desde a infância. Pra quando você perder esse seu jeito de coisa sonhada e começar a ser o que eu espero de você. Pra quando você perceber que a minha literatura nada tem a ver com essas novelas no Manuel Carlos que você assiste escondida por aí. Pra quando você entender que eu já vendi meu amor por esfirra do Habibs, mas que você eu amei de graça – e teria até pagado se eu tivesse dinheiro e você fosse um pouco mais puta. Pra quando você descer desse seu pedestal e vier andar descalça & nua no meio da minha sala como se fosse a coisa mais bonita do mundo. Pra quando você aprender a suar comigo sem pensar em outra pessoa. Pra quando você esquecer de limpar o meu sêmen derramado no seu corpo. Pra quando você descobrir que comer um prato de miojo comigo vale mais que um jantar 5 estrelas ao lado de outro.

Andrew Clímaco

heaven beside you/heavier than hell

E botou aquele velho blues pra rolar na vitrola só pra lembrar como era. Com a tranquilidade de quem já esteve no sétimo céu fez cair quente o café na xícara, a fumaça a subir e formar um espiral suave com a fumaça do cigarro agora aceso. Sentou à escrivaninha como um rei, quem sabe um poema para a eternidade ou a força do hábito já que passara metade da vida diante daquele móvel antigo escrevendo obras mais pesadas que o inferno. No chão um porta-retrato quebrado, uma foto sem rosto, alguma coisa vivida ou morta ali da qual não se lembrava mais, não agora. Sorrira, chorara, agora era tempo de serenidade. O último gole da xícara, o último trago no cigarro olhando as paredes azuis, verdes, rubras. Paz, apenas a guitarra do BB na penúmbra e o estampido do tiro a quebrar o silêncio que em sua vida tanto falara.

UM POUCO DE BLUES

shadow

Toquei um pouco de blues num violão desafinado pra me aliviar dos espinhos afiados demais dentro da carne. Toquei um pouco de blues, o violão estava desafinado e eu imaginei que fosse 11hs da noite quando o sol me arrancava o couro como se fosse uma lua linda daquela que só os poetas chineses sabiam descrever sem que soassem como xaropes. Toquei – e como toquei! – um belo blues naquele velho violão desafinado, tanto tanto que senti vontade de aprender a nadar numa banheira cheia de gelo com um copo de gim do lado e a sombra de uma mulher pelada me oferecendo um quarto conjugado com uma pia e um travesseiro de penas na rua dentro das suas entranhas. Ela me deu um cigarro, eu toquei um pouco de blues num violão violentado, a caixa oca, as cordas tortas como a vida e eu disse a ela, baby, a vida é como morar na praia e você sabe que na praia às vezes chove e todo dia tem uma noite e a água fica fria demais como a morte ou seus olhos frios a me observar enquanto seu corpo sua nos lenções da sua cama. Toquei um blues até o violão ganir um pranto negro de uma geração de escravos antepassados sob o jugo da ventura, toquei seu corpo até o violão ficar desafinado e cantei com a voz de mil gatos solitários vagando dentro da madrugada fria, mil homens desesperados no minuto que antecede o fim da guerra, mil anos à espera de um milagre. Toquei um blues até que a morte nos separe, desafinado e sentido quanto a dor de um parto ou uma perda, um gozo estranho e uma solidão de pescador que sonha o peixe de Hemingway, mas teme e teme e sempre teme que os tubarões venham nadando nos ventos da aurora feito um fado.

Andrew Clímaco, 01 de Fevereiro de 2014.