FOI BOM ENQUANTO DUROU

, mas tudo tem uma hora de acabar. Este blog (iniciado em 2008 – quase um senhor, se levarmos em conta que vivemos um tempo onde tudo é descartável, ainda mais no ambiente virtual) que, não é de hoje, tem seguido em câmera lenta e já não tem mais o mesmo fôlego faz tempo. Muita coisa mudou, o autor já não é mais o mesmo – não que tenha trocado de dono, não!, sou eu aqui escrevendo, Andrew, mas eu mudei. Já tive e ainda tenho muito orgulho desse cantinho aqui, afinal foram mais de 200 mil visitas, para um escritor completamente desconhecido escrevendo, na maioria das vezes, de próprio punho, coração e coragem…

(CONTINUA em http://jerkedmusicandclassicfood.wordpress.com meu novo blog)

TÁ FALTANDO VOLANTE

Mais do que uma mudança de governo, eu espero que o povo brasileiro volte a ser o povo brasileiro, que reaprendamos o nosso jeitinho de resolver tudo na conversa e na camaradagem dos tempos em que vascaíno sentava no boteco pra tomar uma cerveja com flamenguista e as discussões mais acaloradas não saiam de dentro do campo e do copo — e a amizade continuava.

Porque é verdade que nem de futebol nós sabemos falar (sabemos que 3 volantes é ruim, mas a maioria de nós sequer sabe qual é a função de um volante — e que volantes como Pirlo e Schweinsteiger são a alma de seus clubes e seleções), quanto mais de política. E é como torcedores fanáticos que nós vestimos o vermelho do PT e o azul do PSDB para em seguida partirmos para o quebra-pau de torcida organizada como em dia de Grenal lá no Rio Grande.

Não, não sabemos argumentar, nos falta conteúdo, educação e principalmente conhecimento prático do que é ter bons governantes, simplesmente porque nunca tivemos ao menos um para que nos sirva de exemplo. Baseamos nossos ataques e contra-ataques em pedaladas e não em conhecimento prático ou raciocínio lógico. Falamos do que não sabemos e nisso somos todos cátedras: achamos que somos todos donos da verdade, quando muito não passamos de criadores de fábulas nas quais nós mesmos acreditamos para nos sentirmos menos inúteis. Uma coisa é um povo politizado que se preocupa com a situação política do país; outra coisa é acompanhar o noticiário político como quem acompanha o resumo das novelas da televisão onde sempre existe um mocinho e um vilão.

Como povo, justificamos a lei de Darwin na prática, já que os nossos cérebros não estão completamente evoluídos e no fundo somos todos ainda meio macacos. Futebol é o máximo que conseguimos entender razoavelmente (quem faz mais gol ganha, nada mais que o necessário — qualquer chimpanzé é capaz de aprender isto) e é por isso que esportes como o Rugby e o Beisebol não pegam por estas bandas: muito complexos pra nossas cabecinhas educadas com Didi Mocó e Galvão Bueno. Quanto mais falar de política…

Política é coisa séria; não se aprende indo do facebook pra wikipédia e vice-versa. Política é pra gente que lê ou pelo menos já leu mais de 50 livros num ano, pra quem não tem medo de ir pra guerra pra defender a nação, pra gente que não acha que desenvolvimento social é poder comprar um carrinho um-ponto-zero em setecentas prestações; política é pra torcedores de beisebol e não pros nossos Fla-Flus regados a cerveja aguada e churrasquinho de gato.

Porque enquanto perdemos nossa identidade para nos tornarmos todos um bando de fanáticos ideológicos histéricos que não têm noção alguma do que estão fazendo, a verdade é que a vida e o jogo não para e já estamos perdendo de 7 pros políticos que tanto amamos, enquanto marcamos apenas 1 e mesmo assim contamos como se estivéssemos ganhando de goleada — o nosso golzinho, é bom citar, foi naquelas manifestações de 2013 que no fim das contas alguns tentaram transformar em gol contra, mas não, podia até ser apenas por 0,20, mas ali o povo ainda estava unido.

Dia 16 poderíamos marcar outro gol, mas nosso time tem apenas pernas de pau, está faltando volante, não tem ligação entre os que defendem e os que atacam; precisamos de um novo técnico, mas o nosso Guardiola só em sonho por enquanto. (E isso aqui serve tanto pra gregos quanto pra troianos, amém).

Andrew Clímaco; 05/08/2015

uma trilha de sandálias arrebentadas

calçadas amplas&pés descalços
uma trilha sem fim de sandálias arrebentadas
maquiagem borrada no sereno das vitrines
distante gemido da garganta do tráfego profundo
postes com sombra de mulher luz de vestido amarelo
as pernas saltando pra fora dos bancos dos pontos de ônibus
as virilhas das esquinas violadas por falos-hidrantes
bocas-de-lobo exalando hálitos de sexo&desgosto
o asfalto morno pele nua das ruas

: o eco de um milhão de amores mortos
nas cicatrizes da madrugada fria.

andrew clímaco
14/09/2014

Lisa revisitada

Mais 3 anos e 3 anos é tempo pra caralho
desde que Lisa não voltou pra casa
e eu perdi O sono O último táxi A esperança.

Eu virei um amante da tormenta
Meu peito um matadouro de animais passionais
O sangue dos amores decaptados formando um tapete vermelho
sob o meu rastro de baganas de cigarro
Deixando tudo preparado pra quem me seguisse.

Lisa não voltou pra casa e virou o meu Rosebud de salto alto.

3 anos e um século de absurdo
2 guerras mundiais dentro da minha cabeça
Uma legião de ídolos mortos aos 27
O meu anseio de sair metendo porrada em tudo

Desde que eu chamei e Lisa não voltou
De quando nem chegar ela quis
Porque eu nem tinha uma casa
Só uma cadeira de madeira no meio da desolação sendo comida por cupins
onde eu sentei e fiquei lá
esperando
uma vontade bandida
constante de dizer Lisa, volta pra casa
E ela nem aí.

andrew clímaco

Dos poemas inéditos

Escrevi um monte de poemas pra você, mas vou guardar tudo pra mim. Pra quando você deixar de ser essa esperança burra que me aporrinha desde a infância. Pra quando você perder esse seu jeito de coisa sonhada e começar a ser o que eu espero de você. Pra quando você perceber que a minha literatura nada tem a ver com essas novelas do Manuel Carlos que você assiste escondida na tevê. Pra quando você entender que eu já vendi meu amor por esfirra do Habibs, mas que você eu amei de graça – e teria até pagado se eu tivesse dinheiro e você fosse um pouco mais puta. Pra quando você descer desse seu pedestal e vier andar descalça & nua no meio da minha sala como se fosse a coisa mais bonita do mundo. Pra quando você aprender a suar comigo sem pensar noutra pessoa. Pra quando você esquecer de limpar o meu sêmen derramado no seu corpo. Pra quando você descobrir que comer um prato de miojo comigo vale mais que um jantar 5 estrelas ao lado de outro.

Andrew Clímaco

heaven beside you/heavier than hell

E botou aquele velho blues pra rolar na vitrola só pra lembrar como era. Com a tranquilidade de quem já esteve no sétimo céu fez cair quente o café na xícara, a fumaça a subir e formar um espiral suave com a fumaça do cigarro agora aceso. Sentou à escrivaninha como um rei, quem sabe um poema para a eternidade ou a força do hábito já que passara metade da vida diante daquele móvel antigo escrevendo obras mais pesadas que o inferno. No chão um porta-retrato quebrado, uma foto sem rosto, alguma coisa vivida ou morta ali da qual não se lembrava mais, não agora. Sorrira, chorara, agora era tempo de serenidade. O último gole da xícara, o último trago no cigarro olhando as paredes azuis, verdes, rubras. Paz, apenas a guitarra do BB na penúmbra e o estampido do tiro a quebrar o silêncio que em sua vida tanto falara.