FOI BOM ENQUANTO DUROU

, mas tudo tem uma hora de acabar. Este blog (iniciado em 2008 – quase um senhor, se levarmos em conta que vivemos um tempo onde tudo é descartável, ainda mais no ambiente virtual) que, não é de hoje, tem seguido em câmera lenta e já não tem mais o mesmo fôlego faz tempo. Muita coisa mudou, o autor já não é mais o mesmo – não que tenha trocado de dono, não!, sou eu aqui escrevendo, Andrew, mas eu mudei. Já tive e ainda tenho muito orgulho desse cantinho aqui, afinal foram mais de 200 mil visitas, para um escritor completamente desconhecido escrevendo, na maioria das vezes, de próprio punho, coração e coragem…

(CONTINUA em https://jerkedmusicandclassicfood.wordpress.com/2015/08/21/preludioboas-vindas/ meu novo blog)

TÁ FALTANDO VOLANTE

Mais do que uma mudança de governo, eu espero que o povo brasileiro volte a ser o povo brasileiro, que reaprendamos o nosso jeitinho de resolver tudo na conversa e na camaradagem dos tempos em que vascaíno sentava no boteco pra tomar uma cerveja com flamenguista e as discussões mais acaloradas não saiam de dentro do campo e do copo — e a amizade continuava.

Porque é verdade que nem de futebol nós sabemos falar (sabemos que 3 volantes é ruim, mas a maioria de nós sequer sabe qual é a função de um volante — e que volantes como Pirlo e Schweinsteiger são a alma de seus clubes e seleções), quanto mais de política. E é como torcedores fanáticos que nós vestimos o vermelho do PT e o azul do PSDB para em seguida partirmos para o quebra-pau de torcida organizada como em dia de Grenal lá no Rio Grande.

Não, não sabemos argumentar, nos falta conteúdo, educação e principalmente conhecimento prático do que é ter bons governantes, simplesmente porque nunca tivemos ao menos um para que nos sirva de exemplo. Baseamos nossos ataques e contra-ataques em pedaladas e não em conhecimento prático ou raciocínio lógico. Falamos do que não sabemos e nisso somos todos cátedras: achamos que somos todos donos da verdade, quando muito não passamos de criadores de fábulas nas quais nós mesmos acreditamos para nos sentirmos menos inúteis. Uma coisa é um povo politizado que se preocupa com a situação política do país; outra coisa é acompanhar o noticiário político como quem acompanha o resumo das novelas da televisão onde sempre existe um mocinho e um vilão.

Como povo, justificamos a lei de Darwin na prática, já que os nossos cérebros não estão completamente evoluídos e no fundo somos todos ainda meio macacos. Futebol é o máximo que conseguimos entender razoavelmente (quem faz mais gol ganha, nada mais que o necessário — qualquer chimpanzé é capaz de aprender isto) e é por isso que esportes como o Rugby e o Beisebol não pegam por estas bandas: muito complexos pra nossas cabecinhas educadas com Didi Mocó e Galvão Bueno. Quanto mais falar de política…

Política é coisa séria; não se aprende indo do facebook pra wikipédia e vice-versa. Política é pra gente que lê ou pelo menos já leu mais de 50 livros num ano, pra quem não tem medo de ir pra guerra pra defender a nação, pra gente que não acha que desenvolvimento social é poder comprar um carrinho um-ponto-zero em setecentas prestações; política é pra torcedores de beisebol e não pros nossos Fla-Flus regados a cerveja aguada e churrasquinho de gato.

Porque enquanto perdemos nossa identidade para nos tornarmos todos um bando de fanáticos ideológicos histéricos que não têm noção alguma do que estão fazendo, a verdade é que a vida e o jogo não para e já estamos perdendo de 7 pros políticos que tanto amamos, enquanto marcamos apenas 1 e mesmo assim contamos como se estivéssemos ganhando de goleada — o nosso golzinho, é bom citar, foi naquelas manifestações de 2013 que no fim das contas alguns tentaram transformar em gol contra, mas não, podia até ser apenas por 0,20, mas ali o povo ainda estava unido.

Dia 16 poderíamos marcar outro gol, mas nosso time tem apenas pernas de pau, está faltando volante, não tem ligação entre os que defendem e os que atacam; precisamos de um novo técnico, mas o nosso Guardiola só em sonho por enquanto. (E isso aqui serve tanto pra gregos quanto pra troianos, amém).

Andrew Clímaco; 05/08/2015

THE LAST TIME I SAW MARY

abandoned railway station

Eu estava sentado ao lado daquela velha ferrovia ao sul de lugar nenhum, as mãos sujas de carvão e graxa, bebericando uma cerveja morna na hora do descanso, enrolando um cigarro com fumo dos índios em palha de milho e o sol deitava calidamente a sua mão fulgurosa sobre a minha testa como se faz com um filho. Eu estive assistindo chegadas e partidas a metade da minha vida, o café-com-pão das locomotivas que chegavam do norte e para o norte partiam levando um a um até que não sobrou quase ninguém, e era eu o responsável por manter os grandes pássaros voando sobre ferro quente pelo país afora – e era de mim que o corretor de imóveis falava justificando o quão pacata a cidade se tornou nos últimos anos. Eu era o que tinha ficado, o responsável por manter os trilhos em ordem para que os que desejassem partir partissem. E eu já estava acostumado com a rotina de ver as pessoas entrando no trem e nunca saindo dele. Então um dia, Mary, minha esposa, a última pessoa que havia ficado naquela cidade junto comigo também partiu. Eu bebia o último gole da cerveja morna quando a velha locomotiva apitou na curva e desapareceu para nunca mais. Dei um trago no pito de palha e pensei com meus botões que havia chegado a minha hora. Voltei para casa naquele fim de tarde, lavei-me no banheiro, a água turva correndo das minhas mãos para o ralo, e em seguida pus-me a fazer as malas – não havia tempo, queria pegar o primeiro trem logo pela manhã. Passei a madrugada em claro, ansioso, engasgando tragos de uísque do Tennessee e pensando em Mary. Quando amanheceu, corri até a velha estação onde por longos anos eu havia trabalhado, pus as malas no chão e esperei – uma hora, duas, três, dez horas, não sei ao certo quanto tempo – e enfim me dirigi aos guichês de passagens para perguntar sobre o trem atrasado e o que encontrei foram teias de aranha, o piso de tábuas carcomido pelo tempo & cupins, poeira por todo lado, nem uma mosca para fazer zumbido, nada que fizesse pensar que algum dia houve vida por ali e uma placa enferrujada com os dizeres “LINHA FÉRREA INTERDITADA. ANO DE 1934”.

 

Andrew Clímaco; 14 de junho de 2013.

Outro Poema de Charles Bukowski seguido de Outra Alfinetada de Andrew Clímaco

Pro Zé do MCP

artista

 

de súbito me torno um pintor.
uma garota de Galveston me dá
US$ 50 por um quadro de um homem
segurando uma bengala doce enquanto
flutua por um céu escuro.

então um jovem com uma barba negra
aparece
e eu lhe vendo três por US$ 80.
ele gosta de telas grosseiras
nas quais escrevo coisas como –
“cague” ou “GRANDE ARTE É
BOSTA DE CAVALO, COMPRE TACOS”.

posso fazer um quadro em 5 minutos.
uso tinta acrílica, direto do
tubo.
pinto o lado esquerdo do quadro
primeiro com minha mão esquerda e depois
termino o lado direito com minha
mão direita.

agora o jovem barbudo
retorna com um amigo com um cabelo
todo espetado e eles trazem um loirinha
com eles.

o barba negra continua sendo o mesmo otário:
vendo-lhe um punhado de merda –
um cachorro laranja com a palavra
“CACHORRO” escrita ao seu lado.

o cabelos espetados quer 3 quadros
pelos quais peço US$ 70.
ele não tem grana.
fico com as telas mas
ele promete me mandar uma
garota chamada Judy
de cinta-liga e saltos altos.
ele já lhe contou sobre mim:
“um escritor de fama internacional”, ele disse
e ela respondeu, “oh, não!” e puxou
seu vestido sobre sua cabeça.
“eu quero isso”, eu lhe disse.

depois discutimos as condições
eu quero comê-la primeiro
e depois receber um boquete.
“que tal o boquete primeiro e
depois a foda?”, ele perguntou.

“isso não funciona”, eu disse.

então chegamos a um acordo:
Judy virá até aqui e
depois
eu alcançaria a ela as
3 pinturas.
e assim estamos:
de volta ao escambo
o único modo de vencer a
inflação.

apesar disso
gostaria de
iniciar aqui o Movimento pela Libertação Masculina:
quero uma mulher que me dê 3 de
suas pinturas após fazer
amor comigo,
e se ela não souber pintar
pode me deixar
um par de brincos de ouro
ou talvez um pedaço de orelha
em homenagem àquele que era
era capaz.

 

Charles Bukowski (in O Amor é um Cão dos Diabos; L&PM, 2007; tradução de Pedro Gonzaga)

 

Ok, estou de acordo com o Velho nesse negócio de Movimento pela Libertação Masculina. Eu até andei pregando por aí uma ideia que tive sobre todo ano fazer uma Parada do Orgulho Macho pelas ruas de São Paulo igualzinho os gays fazem (tenho certeza que o Gustavão do MCP entraria nessa comigo). Afinal de contas, as mulheres estão mesmo querendo tomar o lugar dos homens em tudo, não? Pelo menos nas coisas boas elas vêm com esse papo de direitos iguais. Certo, por isso digo que estou esperando uma mulher que escreva um livro ou pelo menos um conto e meia dúzia de poemas sobre mim depois que eu a levá-la pra cama, como forma de agradecimento. Uma mulher que me pague uma bebida e um jantar pra me conquistar, que banque a “cavalheira” quando a conta do restaurante, do bar ou do hotel chegar. Uma que pague o táxi. Que me traga café na cama. Isso também são direitos iguais e, sendo assim, vocês, meninas, já me devem uma nota preta por todas as vezes que tive de arcar com as despesas sozinho. Cadê as feministas numa hora dessas? Aposto que saíram correndo. Estão atrás só da coisa boa do bagulho, porque quanto as dificuldades de ser um homem aparecem enfiam o rabinho por debaixo das pernas e saem correndo. Mas eu, que sou um cara legal, continuo à favor de vocês, queridas: vamos trocar de lugar. Não se esqueçam que eu sei cozinhar muito bem e posso até lavar a roupa.

 

Andrew Clímaco; 30-11-2011

Minha Melhor Decepção [versão definitiva]

Felicidade. Tênue como fios de cabelo dentro dos meus livros. Ruivos em Mutarelli. Chocolate em Sabino. Loiros em Thiago de Mello. Quando não quero lembrar e procuro outra coisa, uma distração: ligo a tevê, abro um livro e Anna está lá — viva?

           Porque Anna não é o toco do cigarro no qual eu pisei depois de ter fumado naquela noite na Praça Roosevelt, em São Paulo. Talvez o câncer que bate no lado esquerdo do meu peito, uma herança (ou ressaca) do prazer efêmero da Sexta-feira da Paixão, na qual eu me mostrei um bunda-mole ao me apaixonar pela fraqueza de Anna, mas jamais o cigarro descartado. E ainda hoje, mesmo que o Daniel Johns com seu infatigável vigor adolescente continue insistindo irritantemente em cantar please die, Anna…, eu não aprendi a pisá-la com meus sapatos furados. Eu acabei me tornando um adepto ferrenho do masoquismo e passo as madrugadas a martelar a cabeça do meu caralho toda vez que, numa demonstração franca de autodesprezo, me obrigo a lembrar dos olhos oceanados de Anna, trazendo-a de volta para a vida das minhas entranhas fatigadas, só porque acho isso bonito.

           Certas alegrias me derrubam mais rápido que um porre de cicuta. Aqueles olhões oceanados, os mamilos de borracha, o riso bobo. Seus fios de cabelo (loiros, desta vez ouso dizer) tênues como o fôlego de nosso affair, se fazem cabos de aço e enlaçam meu pescoço para a morte, então passo a relembrar tresloucado de tudo e escrevo, ainda que a contragosto. Um Dom Casmurro carregado de casmurrice num confessionário de paranoias. Porém, lembro-me que já não tenho esse livro. Que sempre escrevi (e vivi) memórias póstumas, embora seja tempo de ressurreição posto que há muito o terceiro dia (aquele que não chegamos a ter) é passado.

           Deste então, tenho estado a maior parte do tempo adormecido. Acordar só me causa cansaço desde que pisei na bola murcha chamada mundo: caí e quebrei a sétima cervical na esperança de ter um feliz ano velho mais feliz. Acordei num blecaute e já não tenho mais as madrugadas para satisfazer meus caprichos de macho e os meus devaneios de titia. Olhei para trás e só Anna e eu não viramos estátuas de sal. Virei um otário na eterna busca pelo amor louco inexistente, cheio de lembranças…

           Quando a conheci, eu usei vomitar coelhinhos só para fingir que conhecia Cortázar. Que as minhas boas (ou más, o que não faz diferença quando se trata de sexo) intenções não proviam de um pós-amadurecimento em Mirisola, espaços alternativos de teatro e igrejas. E que eu não passava de um analfabeto com pose de escritor que não tinha outro objetivo senão o mesmo de todos os outros animais machos saudáveis: encontrar uma fêmea para acasalar: deixar herdeiros malditos para sofrerem neste mundo não menos maldito.

           Anna é a fêmea que eu havia escolhido para dar continuidade à espécie, a putinha dos meus melhores contos eróticos. Eu havia esperado demais desde que nos conhecemos por intermédio da melhor amiga da solidão pós-moderna: a internet. Quando eu achava que Anna não passava de mais uma sapatinha gostosa: um corpão de Afrodite curitibana desperdiçado por uma mente de macho. Mas Anna se tornou minha fantasia; se fosse mesmo lésbica, eu estava disposto até a sair no tapa: voltaria a ser mulher na porrada, mas seria minha.

           Todavia, a confissão de seu bissexualismo tirou a ação do enredo; Anna seria minha: “Uma garrafa de vinho barato e um quarto de pardieiro e eu sou toda sua”, foi o que ela me disse um ano antes do nosso primeiro e único encontro.

           Uma garrafa de vinho barato e um quarto de pardieiro. Nem precisei do vinho. Um ano depois do convive, pouco depois que sai desfigurado de um relacionamento com um anjo ruivo (que me tirou do inferno, que era o único lugar no qual eu sabia viver, para uma temporada frustrante no Paraíso do Apóstolo Hernandes), Anna e eu combinamos de nos encontrar em São Paulo: “no seu mundo”, ela disse.

           Era a primeira vez que uma garota viajava para me encontrar; eu que havia passado a metade da vida de pau duro dentro de um ônibus. Assim chegou o meu dia de noiva, uma Sexta-feira da Paixão, momento em que eu oficialmente abandonava minha carreira promissora de pastor evangélico e voltava cabisbaixo para o meu inferno particular. Costurei as meias e os olhos para voltar a pisar em cacos, para não ver mais os fantasmas e ser só de Anna. Então escrevi poemas eróticos para burlar as preliminares, mas no fim de tudo acabei bebendo do seu sangue, o mesmo sangue que matou o meu filho que ela levou enterrado no ventre para Curitiba. Numa tarde cinza, contando a cinza das horas que a levariam para fora de mim, eu vomitando coelhinhos para que ela desse risada. Anna e os seus mamilos de borracha, os quais eu apertava e apertava e ela não sentia nada (como fui me esquecer de levar meu alicate de estimação?). Da parte de dentro, o coração que não justificava os olhos que choravam as lágrimas pelas quais eu havia me apaixonado. Dois dias com Anna e depois uma eternidade sob efeito da ressaca da novela das 7 só porque a atriz Caroline Abras, quando chora, me faz lembrar de Anna.

           Quando eu acordei, uma semana depois, e percebi que o coração dela era feito dos mamilos, senti falta dos meus coelhinhos vomitados. Não é melodrama, contudo as lembranças que me envolvem estão carregadas de pieguice radiguenesca. Me aproximo do ridículo, simplesmente porque não consigo mais ser qualquer personagem. Desde que ela resolveu jogar sujo quando ainda na primeira hora do nosso encontro vi seus olhos oceanaram depois que expressei o quanto suas cartas significaram para mim. Cartas que me faziam lembrar Ana C. coçando o hímen inflamado e escrevendo lindos poemas com sangue de menstruo. Quem deveria chorar seria eu, mas Anna pulou no bonde e eu fiquei ali parado naquela estação esperando por um ano inteiro para no fim das contas acabar percebendo que novamente cometi a besteira de me apaixonar pela mulher errada. Outra vez. Porque ela sabia o que queria e não era eu.

           Já não consigo saber com certeza quantas vezes estive dentro do corpo de Anna. Sem nenhum orgulho machista ou vaidade, certo de que estive mal. No entanto estive, e isso mudou tudo. Num tempo que amor & sexo não é mais assunto para uma mesma mesa. Quando amar e suar ao mesmo tempo é besteira. Se eu tivesse algum estômago dentro do peito eu também poderia fazer disto um livro fundamental. Mas só resta a carcaça, a ferrugem acumulada na maquinaria do tórax ossudo e espancado e meia-dúzia de lugares-comuns revisitados centenas de milhares de vezes até a saturação. Nada mais. Nenhum âmago ou dínamo estrelado. Apenas um câncer.

           Mas tanto faz, eu não havia amado Anna e sim as suas lágrimas. E para amar lágrimas não é preciso coração, só o câncer basta. Quando os seus olhos se encheram delas, logo na primeira hora do nosso encontro e acertaram em cheio a minha virilidade fazendo um homerun histórico com as minhas bolas. Eu apaixonado por um punhado de lágrimas. Que mal há nisso? Mutarelli não se apaixonou por uma bunda? O Brasil inteiro não sonhou com a Mulher Melancia só porque ela tem as ancas largas? Eu me apaixonei pelas lágrimas de Anna. E se, por acaso, algum filósofo (ou bundófilo) tenha dito que a bunda é uma expressão de alegria, representada em excelência pelos bimbons niilistas de João Gilberto, se assim for, eu amei mais a dor extravasada de Anna do que aos cus sorridentes dos viados da peça 120 DIAS DE SODOMA, que eu assisti ao lado dela no Espaço dos Satyros. E amando sua dor, eu quis ser seu carrasco, seu objeto mais obsceno de tortura, seu pau-de-arara, seu chico-doce. Porém, a queda do Paraíso (no qual eu havia estado por quase um ano) havia me exaurido as forças, e ainda que eu tivesse me concentrado bem mais no cu de Anna do que no dos viados (ou mesmo das atrizes tesudas do elenco), Sodoma afundou nas areias do Satyros.

           Dois dias que eu não quero lembrar, Anna. Destes, o incompleto. Mas eu me lembro, está tatuado nas minhas tripas: seu sorriso, seus mamilos, joelhos, mãos, unhas, sangue, suas lágrimas de mulher vivida. Anna, que não era uma mulher de cinema. Não um anjo, mas humana o suficiente para me botar numa cova. Quando eu desisti de tentar o paraíso só para tê-la um pouquinho comigo. E ela veio, não como uma princesa, mas a mulher mais linda da cidade. Para andar do lado desse saco de ossos e arrancar sorrisos dessa velha caveira mal-amada. Para beijar minhas feridas ainda abertas, como eu ousei beijar as suas.

           Quando acordei na manhã seguinte, o gosto de seu sangue na ponta da minha língua era a evidência de que a nossa ilusão não fora sonho. Que no meu pretérito imperfeito, eu estivera com Anna numa pieguice mais-que-perfeita. Assim, meio Blue in Green ao contrário. E eu não quero lembrar que você, Anna, foi embora levando derramada dentro do ventre a esperança cega dos meus filhos seus. E que o meu mundo, no qual eu lhe aprisionei, ficou mudo e estático enquanto você dizia: me come, como se eu fosse o seu homem. Você dizia: eu sempre esperei por esse momento, e eu repetia. Como um homem de sessenta anos depois de duas décadas sem tocar no corpo de uma mulher: o adolescente embriagado sem jeito na minha primeira vez. Porque eu estava tão ansioso que sequer me lembrei de levar as camisinhas, o KY, meu alicate. E, consequentemente, trepei melhor com as suas lágrimas do que com o corpo.

           Ah, escritores de botequim em todo o mundo perdoem-me, pois de fato estou sendo melodramático, confesso. Eu que há tempos não falo russo, mas permaneço morando em subsolos e atravesso a rua para não cruzar com alguém conhecido. Sigo passo a passo meu silêncio de olhos baixos, solitário amante dos magnetismos humanos (especialmente os do gênero feminino). Dos seus joelhos e pés beijados, Anna. Ou as suas pernas fortes quebrando as minhas costelas, suas unhas rasgando a minha pele até o osso, e mesmo o calor vermelho do seu sangue menstruado a tingir de vida o meu corpo cinza. Eu amo…

           Não. Eu não amo. Estou apenas obcecado pelo fantasma das suas lágrimas. É preciso manter o foco, porque neste mundo eu moro de favor. As regras são claras, sou um homem inquebrável. Porque nós nunca podemos querer o que ainda não somos, foi o que me disseram. Apesar de já me sentir como se tivesse sessenta anos, uma criança arrancando os cabelos para entender os discos do Arcade Fire de Anna. Eu que só escuto Chet Baker e música para ninar dinossauros.

           Agora que virei um otário na eterna busca pelo amor louco inexistente, não é o fato de ela ter me esquecido o que me mata. É ela não ter chorado o suficiente, não ter deixado nenhuma lagrimazinha apaixonada para ser a mãe dos meus filhinhos bastardos. Sequer deve ter chorado depois, sem que eu tivesse visto. Junto a isso, o clichê de não ter me enviado a foto que tiramos juntos.

           Eu poderia suportar tudo, mas como engolir um clichê vindo de alguém que chorava lendo poesia, uma mulher que sabia chorar, que chorava e transpirava poesia pelos olhos e pela boceta depilada à moda antiga? Não, Anna, como poderia perdoá-la se até então você era a minha personagem mais perfeita, a qual faria John Fante esquecer de Camilla? Você caiu no maldito clichê da mulher mal comida e estragou aquilo que seria a minha obra-prima.

           Confesso que usei de todos os meios para poder livrá-la de sua sentença. Eu tentei culpar a pizza gordurosa que ela comeu numa espelunca da Augusta. Tentei culpar o esfomeado que não tinha nem voz e pedia um pedaço. Culpei a atendente do hotel que nunca aparecia para nos entregar a chave. Culpei o Bukowski que dizia que o amor é um cão dos diabos e o Thiago de Mello que a havia feito chorar. Culpei as mulheres de São Paulo por serem todas menos bonitas que ela naquela noite. Culpei meu filho incapaz de ser gerado numa mulher menstruada. Culpei o David Bowie no rádio do táxi que nos levou para o epílogo. Culpei até o cu dos viados da Praça Roosevelt que hoje já devem estar casados enquanto eu não consegui sequer culpar uma mulher que só pedia para ser condenada. Eu vomitei coelhinhos, dinossauros e o meu coração junto, mas não consegui vomitar Anna.

           Anna, meu câncer, acabei cumprindo sua pena. Que não é a morte, o que seria bem mais fácil, mas sim viver a vida olhando para trás e vendo os seus pedaços numa tela de Picasso. O sangue de Anna, seus olhos menstruados, seus mamilos de borracha, os pezinhos e joelhos beijados, meu filho não gerado, a bunda sorridente e o cu não comido vão ser meus carrascos até o fim dos dias.

           Minto e finjo que você é apenas essas coisas, digo que você não significa nada e que não quero nunca mais vê-la, mas tudo isso faz parte do inferno no qual eu mesmo escolhi estar, e você, Anna, foi a mulher que eu escolhi para me levar para esse inferno. O que faz de você uma mulher mais que especial, mais até do que a que um dia me fez homem, pois desta vez eu me enterrei consciente e sem remorso.

           Acendo cigarros e relembro que eu vou pro inferno por não saber me comportar no paraíso onde de fato eu estive, mas não com você, Anna. No nosso inferno eu perdi o medo da morte. Quis estar ao seu lado, entalhado no seu epitáfio: felizes depois do fim. Porque o para sempre é melhor que o até a morte. Se isto fosse um conto de fadas e não um lamento piegas ao garçom do botequim…

           Eu te odiei e odeio com todos os meus poros salpicados pelo teu suor. Quando o tempo te faz a minha certeza mais errada. Eu te odeio como te amei como a uma mãe, a uma noiva, a uma puta, a uma filha, a uma fêmea… Pelo batom no meu caralho cansado, o teu sangue compartilhado feito entrega, in limine da intimidade. Não como um anjo, porque nunca quis ter um anjo acordando ao meu lado na cama como a mulher que você é, Anna, acordou.

           Por culpa de Anna, Cristo não ressuscitou, porque jamais existiu um terceiro dia. Fui crucificado na páscoa. Me dei mal com Anna até no The Sims, onde eu criei o seu clone para me fazer companhia nas minhas tardes cinzas e frias. Simplesmente não consigo encarar seus mamilos de borracha como uma derrota, mas eu sei que fracassei. Eu já sabia desde o começo, mas o que eu não sabia era que quem estava morto sou eu. Morto demais para olhar em seus olhos e, num clichê de Luan Santana, dizer: que se foda o mundo, quero ficar com você. Num filme noir, numa ilusão, em qualquer fim de mundo: te beijar com fúria, sede, fome. A minha língua como uma navalha. E eu, súdito, a dizer que te amo: te amo! Invadindo seus maiores segredos, orifícios, esconderijos. No escuro do mundo, quando desde o começo tive vontade de beber as suas lágrimas porque eram feitas de sangue e poesia. Sua emoção, seus olhinhos oceanados. Corpos colados, pele a pele, fundidos. Na cama, minha, você dizia: eu sou sua. E eu renascendo na sua sorte.

           Agora já era; Anna se vingou com o maldito clichê da fotografia e sumiu. “Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar”, como está escrito no livro que veio da cabeceira de Anna para a minha. E dói, deveras, quando a odeio por saber amá-la apenas com meu câncer e não com a vida. De que é impossível sair do chão no breve espaço de tempo que existe entre o não-existir e o não-ser. Agora que ela deixou de estar para ser a saudade que me sufoca, a minha esperança mais bonita, meu consolo desesperado, a mãe desaparecida do meu filho não gerado.

           Naquele quarto de hotel onde eu não consegui fazer Anna gozar. Quando eu mesmo quase não consegui. Contudo era um orgasmo tê-la nos braços depois de tanta espera. Tanto desespero. Anna sempre mais paciente que eu. Eu querendo cada vez mais e mais antes de parar para acertar os ponteiros da ficção com a realidade.

           Se em vez de tantos lugares comuns (sim, porque sou hipócrita e também caio em clichês), eu tivesse ousado quebrar as regras da boa literatura para fazer disto um conto erótico. Tive vontade. Tenho ainda mais agora, confesso. Mas não, Anna, você é humana demais para que eu lhe desperdiçasse em uma só noite. Logo percebi que você era matéria-prima para mais de um conto, mais que cem poemas ou clichês: um romance.

           O romance que jamais escrevi porque não tinha um final, só o maldito clichê da fotografia. Sequer um terceiro dia, uma lágrima de consolo, uma última carta. Ela afogou nosso filho no sangue de suas entranhas. Me enforcou em seu cabelo loiro e me fez menos homem: uma mulher que não tinha nem tamanho. Anna me venceu com a sua fraqueza.

           Mas ainda é cedo. “Você ainda tem umas coisinhas pra resolver na vida antes”, Anna me dizendo. E são tantas coisinhas que já não cabem mais no meu quartinho alugado com vista para as estrelas. É preciso chão. É preciso acordar e ser valente para me levantar e desligar a porra dessa tevê e cair na real que essa Caroline Abras não é você, Anna. De abrir a janela e deixar que a chuva me molhe. Olhar para os céus e pedir para Deus uma folguinha nas tristezas.

            “Toda a tristeza, escarnecendo em correnteza”, como no livro da minha cabeceira para a sua.  A correnteza das suas lágrimas ao ler o poema: do seu sangue misturado ao meu esperma desejoso do nosso primeiro filho (ou amor natimorto, tanto faz).

           Anna, eu inventei você escrava, agora é você quem me açoita nas madrugadas do sem-fim. Eu que já não escrevo minhas palavras com esperma, nem com sangue e sequer tenho uma alma para usar como tinteiro, apenas cuspo no papel tudo aquilo que pode me incriminar no desejo carnívoro de punir a mim mesmo até que não haja mais culpa. Até que tudo se reduza a cinza só para que eu não tenha mais de renascer do cu dos viados da Praça Roosevelt contente por ter estado ao lado da mais linda mulher da cidade. Para não precisar mais ter de me sentar frente à tevê e ligar na hora da novela das 7 só para ver a Caroline Abras, a mulher mais linda da tevê, mas não tão linda como você, Anna.  Minha melhor decepção. Nem me importo se peguei AIDS, a cara no muro valeu a pena. A ressaca é que está me matando.

ENCONTRE ANNA TAMBÉM EM:
DRIVE
ERÓTICA
she
a mulher mais bonita da cidade
declaração de amor psicopata
nota C
Das insignificâncias omitidas nas correspondências
Marcha do Amor em Compasso de Desilusão
Pretérito Perfeito: Mais-que-perfeito
Sufocação
E em outros textos não mencionados aqui, mas publicados no blog.

[in-conjugações]

éramos eu e tu conjugados
: nós à sós mais-que-perfeitos.
não obstante, vieram eles, dos quais,
ele, pronome pessoal (ainda indefinido), complementava a sentença.
logo tu te assimilarias com eles e
na antonomásia hiperbólica de príncipe dele, agora sujeito determinado,
teus olhos em chamas fizeram-se antítese dos meus olhos d’água.
feito anacoluto, vós elipsastes nós e tu eu;
desde então, meu deus, somos nós um nó a apostrofar na catacrese da minha garganta
e eu também seria feliz não vivesse predicado
no futuro do nosso pretérito imperfeito.

18 de Março — 2010