MA VIE

Oba, achei Heineken na geladeira, mamãe lembrou dos santos — anjos caídos. Bom para escrever uma história. Minha vida: uma tragicomédia. Um rato morto dentro do meu banheiro. Dei descarga, mas sua alma é forte e persiste em exalar. Dentro do meu tênis velho. A vida. Eu e uma gangue de adolescentes virgens atirando pedras na câmara municipal. Vejo uma caixa de energia e uma alavanca, puxo e a luz de toda a rua apaga. Corremos na lama de uma rua escura. Playboy da Alessandra Negrini e o deus Onan no país primeiros pelos. Mas antes eu fui criança. No quarto do meu tio desempoeirando as revistas de mulher pelada escondidas no fundo das gavetas. Eu tinha uns sete anos e meu coração já estalava. A braguilha apertada sem entender a razão. Nunca tive pai. Papai era uma ausência constante, já nasceu morto. Desenho do Ursinho Puff — que quando cresci virou Pooh não-sei-por-quê. Os Ursinhos Carinhosos eram muito gays. Naquele tempo o Sérgio Malandro era bacana. Pereio saindo da Porta dos Desesperados. Eu esperando a Leandra Leal sair da Porta da Esperança. Não veio, tava ocupada me desconhecendo. Na época do disqueman, eu roubava pilhas do supermercado até que. Me pegaram e aí fudeu. Sorte de criança é não ser preso. Sopa de Letrinhas era o nome do primeiro livro que eu li quando criança. Uma merda. Nunca entendi essa coisa de livro pra criança peça pra criança música pra criança programa de tevê pra criança. Eu já fui criança e já achava tudo uma bosta. Deve ser por isso que a humanidade já cresce imbecilizada, culpa do Barney, aquele dinossauro cor-de-rosa-viado. Dino-pedófilus. Música Para Ninar Dinossauros é uma puta de uma peça boa pra caralho. O Mutarelli contando moedinhas sentado do meu lado na porta do Parlapatões. Até os iluminados são miseráveis. Descobri a literatura com um livro chamado O Perfume de um cara chamado Patrick Suskind que também escreveu A Pomba que eu também li. Culpa do Kurt Cobain que era meu ídolo na época. Troquei os dois pelo William Burroughs. No interior, pomba também quer dizer boceta. Mais especificamente cabeluda. Forrest Gump filme e livro. Na quarta série eu me declarei para a minha quarta paixão. Ela me deu um chute no saco e eu passei os anos seguintes fugindo de pessoas do sexo feminino. O primeiro chute no saco a gente nunca esquece (não fica gostoso na segunda vez). O primeiro pé na bunda também não. Eu tinha dezoito anos e chorei feito uma criança na chuva. Cheio de livros do Kerouac na estante. Porre de vodca barata em praça do interior, metanol puro. Quis fugir de casa mas faltou grana e coragem. Fugi depois. Por causa de uma mulher. E de novo. Por causa de outra. E mais uma vez e ainda mais uma. O mesmo motivo. Cry me a River na praia do Leblon chuviscante. Felicidade é um saquinho de jujubas coloridas. Em BH, eu roqueiro numa roda de samba na favela. Os anos seguintes maldizendo o rock a favor de João Gilberto e Nelson Cavaquinho. Para entender a alma das mulheres eu dormia com Clarice Lispector todas as noites. Aprendi a amá-la. Assaltado na Avenida Brasil no Santo Cristo do Rio de Janeiro. Salvo por uma nota de dois e um mendigo. Lambendo as pregas do Rio de Janeiro. Morando no Rio, sendo expulso do Rio, voltando pro Rio para no final de tudo acabar na cidade que eu mais mal-falei em toda a minha vida — São Paulo. De novo o rock and roll. Preferindo jazz. Uma música agora não pegaria mal. Morphine, Chet Baker, Tom Waits, não muitas etcéteras. Meus amigos e minhas putas ficariam chocadas se imaginassem que virei evangélico. Os evangélicos ficariam chocados se imaginassem que continuo bebendo fumando trepando e escutando Mudhoney. Lendo Bukowski e Fernando Arrabal e Céline. Os anos passam. Mulher mais velha é um barato. Minha primeira brochada foi com uma puta de uns 100 quilos — a puta não teve culpa, era gorda mas era uma delícia. Não gosto de cinema. Waldick Soriano é cult. Viajando pro Paraguai para ganhar o pão. Dois travecos no meu quarto de hotel, dormi de jeans e cinto apertado. Bibsfihas com limão. Me casei com uma garota que eu nunca tinha visto. Conheci pela internet, não tinha pra onde ir expulso de casa pela enésima vez — fui. Durou menos de um mês. Mercedes Sosa foi a única coisa que se aproveitou depois da tempestade. Acho que só eu e o Lourenço Mutarelli gostamos do Atahualpa Yupanqui. Não, minha vida não é um tango argentino. Minha primeira vez foi com a garota mais gostosa do colégio. Ela me embebedou de vodca (boa vodca desta vez) e abusou da minha inocência. Antes teve o caso da prima, mas esse não vale a pena contar aqui. Já cheguei a ter vinte e três gatos de uma só vez. Porres de solidão on the rocks. Apresentando ao Guiness o recorde de maior número de punhetas numa só noite. Nunca gostei de modismos. Nem de egocentrismos. Mulheres sempre gostei, desde menino. Pata de camelo na cara. Na boca é mais gostoso, não-sei-por-que mas é. KY com leite condensado. De podólatra e louco todo homem tem um pouco. Anais Nïn é uma puta escritora. Kundera é um chato. E a mulherada continua se incomodando com aquele meu texto sobre as mulheres fúteis que gostam de babacas. Me fizeram vestir a camisa do time dos losers por causa daquilo agora penso em escrever um texto descendo o pau nos losers pra ver se me livro desse carma. Pão com mortadela e muito pão com opa. Dormir na estação de ônibus bêbado tremendo de frio e de medo. Lata de sardinha com cheiro de calcinha de três dias. Vagabundos iluminados em cada esquina da minha desolação. Escrever contos de quinze páginas numa máquina de escrever elétrica mesmo tendo conhecimento de Steve Jobs e Bill Gates. Rasgando tudo e reescrevendo. Bagana na rua. Nada de celular. Ficha de orelhão azul. Allen Ginsberg entre as melancias e as goiabas da seção horti-fruti do supermercado que eu roubava. Escrevendo e escrevendo e nunca ganhando nada. Quando pagam, é com sexo. Você já comeu alguma leitora sua? Algumas. Gim tem cheiro de perfume mas só eu encarava porque era bebida de macho. Tesão por pinturas de Botticelli. Nenhuma nudez será castigada. Já deixei o cabelo crescer duas vezes. Antes eu gostava de Biorene, hoje prefiro Pantene. No entanto macho jurubeba, senhor Xico Sá. Vi Rolling Stones em Copacabana, minha amiga Póla não quis ficar comigo. O que ela não sabe é que sempre desejei… Keith Richards me deixou muito Happy. A garota do piercing no nariz me achou um panaca. Não quis entrar no mar. Dores de cotovelos intermináveis ao som do disco Sea Chance do Beck. Traquinas é nojento, “Amanda” sabe a razão da minha repulsa. Marvin Gaye é melhor que viagra. Quase fui suicidado por um negão de três metros de altura só porque dei em cima da namorada dele. Esqueci seu nome, meu bem, mas a noite passada foi maravilhosa. Não, a sua prima não quis dar pra mim. Eu não tinha olhos azuis, contudo por dentro era só blues. E os anos continuaram passando. A vida é mais veloz que um jato de esperma. Henry Miller. Uma promessa na Livraria Cultura, Natália e seus cigarros Marlboro Red. Todo mundo está parando de fumar. Minha namorada não gosta que eu fume. Mandaram recado dizendo que Deus também não gosta. O Serra é um déspota mas eu tô tentando. Vou votar nele. Pizza com lexotan. Noite inteira de sexo e poesia. Uma ruiva que parece uma pintura de Renoir quando nua. Aquariana como eu. Abri mão da Cass melhor poetiza do mundo. Também aquariana. Minha felicidade é um disco de Chet Baker numa madrugada fria. Pés roçando embaixo das cobertas. Sexo verbal. O Mário Bortolotto também deve me achar um babaca. Dei razão. Jaqueta de couro com livro do Dostô no bolso esquerdo e cabelo vermelho do lado na Roosevelt sem puto no bolso. Cheiro de milho cosido. Minha carteira de trabalho continua em branco. Maionese. Family Guy. O Stewie é muito mais foda que aquele carinha do South Park. Que Chuck Norris o que! O Bart Simpson é um zé-arroela. Vander Lee devia ser mais conhecido. BH é uma roça de dois milhões de galos cruzeirenses. Prenderam o goleiro do meu time. Tive incontáveis overdoses de café para espantar a saudade. Duas semanas sem dormir só esperando a primavera, Bandini. Meu sogro nasceu na idade média. Pra picada de sogra não existe soro. Dormimos no vão da escada quase na calçada da Praça da República cheia de lobisomens e zumbis e todo amor que houver nessa vida. O dinheiro ficou no Café Aurora. Cazuza é do caralho. O barulho do elevador dando no saco. Outra bosta. Feliz da vida. Uma atriz. Sou do teatro depois de tudo. E um cego sorri pra mim na Av. Paulista. O que ele vê? Certa vez minha namorada disse que se fosse homem só ia comer o cuzinho das meninas — tem nojo de boceta. Gays são menos complicados nessa hora, pelo que ouvi contarem por aí. Mulheres são muito burocráticas. Boa ventura é minha paciência. Disco do Frejat. Rosquinha Mabel. Eles continuam dizendo que não. Eu ainda insisto no sim. Terceira peça. Segundo ato da vida. Queijo quente e sorvete do McDonalds. De sarjetas e estrelas. Os ponteiros do relógio são Usain Bolt. Eu sigo correndo. Correndo…

(É, eu sei que agora que leram devem estar dizendo que isso não passa de uma imitação frustrada do texto do… Mas essa arte é mesmo feita de imitações).

 

Andrew Clímaco, quase-São Paulo, 20 de julho de 2010.

Fabulário do Tédio e o Inevitável (de ratos, buldogues e bonecas suicidas)

para Fê
agradecimento especial à Paula Fernanda

 

(para ler ao som de Blitz)

— Como assim?

— Sei lá, foi outro dia, me deu vontade de ficar mais perto das estrelas.

— E subiu numa árvore?

— É.

— Começo a acreditar que você é mesmo doidinha.

— Por que subi numa árvore? Vai dizer que nunca fez isso quando era moleque…

— Fiz, mas eu sou homem e…

— Ah, vai dar uma de machista agora. E os direitos iguais?

— Não é isso.

— Foi o que você disse.

— Não foi. O que eu quis dizer é que eu era menino, e subia em árvore por razões de menino, não para ver estrelas.

— Machista! E além disso não tem poesia.

— Pra ser poeta não é preciso subir em árvore.

— Mas já que subia…

— Eu era criança, não tinha dezenove anos como você.

— E agora, com seus vinte e um, parece ter sessenta.

— Agora quem está sendo preconceituosa é você. Tem muito coroa por aí que aproveita mais a vida que a gente.

— Ah, nisso eu concordo.

(pausa)

— Ando pensando; como é que vai ser quando a gente ficar velho?

— Sei não. Quero nem pensar.

— É provável que você comece a ver novela.

— Ah! E você vai ser um velho resmungão, furando a bola dos meninos que estiverem jogando futebol na porta da sua casa.

— Acho que até lá não vai ter mais isso.

— Isso o que?

— Menino jogando bola na rua. Hoje quase já não tem, só querem saber de videogame, computador… é triste.

— Tá falando como um velho de novo mas eu concordo: é triste.

(pausa)

— Tu jogava bola quando era moleque?

— Não, eu era ruim pra caralho, daí nem jogava.

— E o que você fazia?

— Sei lá, nem lembro…

— Você não teve infância.

— Claro que tive.

— Então me diz do que brincava.

— Não lembro, já disse.

— Claro que lembra!

— Diz você primeiro.

— Dizer o que?

— Aff! Do que brincava, ora!

— Ah, eu brincava de tudo: tinha minhas bonecas, eu tinha um Topo Gigio que era marido de uma Barbie.

— Um rato e uma mulher?

— Pois é, desde pequena respeitando as diferenças.

— E dava certo isso?

— Dava sim, e eles viveram felizes até que a morte os separou. Meu cachorro Roger, lembra dele?

— Aquele buldogue com cara enfezada?

— Pois é, um dia eu deixei o Topo Gigio no sofá da sala e ele fez miséria do coitado. Tentei salvar, operei ele, mas ele não resistiu, morreu, coitado. A Barbie ficou viúva.

— E o buldogue também morreu depois…

— É. Atropelaram ele.

— Quem dirigia o carro, a Barbie?

— Ah, não seja sacana. Tadinho do Roger.

— Ainda acho que foi a Barbie.

— Não foi, já disse! Na época que o Roger morreu, a Barbie já tinha morrido.

— Morreu, também?

— Sim.

— Em que circunstância?

— Suicidou. Não agüentou viver sem o Topo.

— A Barbie suicidou? Explique.

— Ah, uma dia eu fui viajar com meus pais pra Cabo Frio e a gente foi de ônibus, daí levei a Barbie, só que quando passei perto daquele rio fedido que tem em frente à rodoviária, ela se soltou do meu braço e pulou lá dentro.

— Que morte triste.

— Pois é, chorei muito.

(pausa)

— Do que mais brincava?

— Ah, coisas de menina, casinha, fazer comidinha…

— Não sei o que menina vê em brincar de dona de casa.

— Pois é, só quando a gente cresce que vê a merda que é.

(pausa)

— E você, já lembrou do que brincava?

— Coisas de menino, polícia e ladrão, Power Rangers, rodar pião…

— Rodar pião? Pô, tô começando a desconfiar que você tem mesmo sessenta anos.

— Ih, não enche, eu também jogava muito videogame.

— Já existia?

— Não fode! Tenho vinte e um aninhos só, esqueceu? Você é muito chata.

— Não fica bravo não, só tô brincando com você neném.

— É, eu sei, mas…

(pausa)

— Quer escutar música?

— Hã?

— Música, quer? Tem um cd da Blitz aí, você gosta né?

— É, eles são engraçados.

— Então você quer?

— Não.

— E ver tevê, quer?

— Não. Odeio televisão, você sabe.

— Então quer comer alguma coisa?

— Comer o que?

— Não sendo euzinha, pode comer qualquer coisa. Tem biscoito, quer?

— Quero não.

— Pô, então o que é que tu quer, homem?

— Quero não envelhecer.

— Ah, meu bem, mas essa fórmula mágica eu não tenho. É inevitável. Preocupa não, ainda vai demorar pra acontecer.

— Humm… O que é que tem além de biscoito?

— Tem torta de maçã, acho, se meu irmão não comeu tudo. Vou ver.

(pausa)

— É, ainda tem torta de maçã, quer?

— Não. Isso é coisa de americano.

— Mas é gostoso, foi a Margarida quem fez.

— Quem é Margarida?

— A empregada, ora!

— Ela é americana?

— Não, é paranaense mesmo. Não precisa ser americana para fazer torta de maçã, e a globalização?

— É, daqui a pouco a gente vai estar comendo bacon com ovos no café da manhã e torradas com manteiga de amendoim. Isso não é globalização, é americanização.

— Mas você queria o que? Que japonês começasse a comer feijoada?

— Pelo menos é melhor que arroz puro.

— Japonês não come só arroz. Comida japonesa é uma delicia.

— Prefiro cheeseburger.

Cheeseburger é coisa de americano.

— Mas eu não como no McDonalds, os brasileiros são mais gostosos.

— Pois é, glo-ba-li-za-cão, um produto americano abrasileirado.

— Por um lado é bom, mas por outro…

— Como assim? Ou é ou não é.

— Não! Liga o rádio, a música tem decaído cada vez mais por causa da maldita globalização americana. Daqui a pouco não vai ter mais MPB e sim MPG, música popular globalizada.

— A Tropicália já era música globalizada e era bom.

— Ah, garota, Caetano e Gil são mestres, não há o que discutir. Mas eu tô falando é da turminha de hoje viver imitando Madonnas e Timberlakes.

— Cara, você fala igual velho.

— Vai dizer que gosta dessas coisas?

— Não, mas… me revoltar resolve?

— Se todo mundo se revoltar, resolve sim. Lembra do que dizia o Camus? Que a gente tem que se revoltar, que isso mostra que a gente está vivo.

— É, pode ser, mas nem por isso vou virar vegetariana pra salvar as vaquinhas.

— Nem eu.

— Tem pizza fria também, é de ontem, quer?

— Não.

(pausa)

— Eu preciso é me mudar.

— Mudar?

— Sim, me mudar daqui.

— Acho que mudar de cidade não vai te privar dos problemas do mundo.

— E quem falou em mudar de cidade?

— De país? Não adianta também…

— Eu quero mudar é de planeta!

— Bom, aí sim. Para qual?

— Saturno, talvez. É bem longe e até que é bonitinho.

— Será que tem praia lá?

— É mesmo, preciso verificar isso antes de comprar a passagem.

— Me leva?

— E por que eu te levaria, guria?

— Porque eu sou sua…

— Minha…?

— Namorada.

— Você não é minha namorada, é minha amiga.

— Mas se me levasse pra Saturno contigo eu ia acabar virando sua namorada.

— Talvez eu leve, mas só se você levar na bagagem seus livros e os cds.

— Combinado. Mas me diz, tem tomada em Saturno?

— Acho que não, pra que tomada?

— Se não tiver não vai dar pra ouvir música.

— Dá sim, a gente leva pilhas.

— Você é um gênio.

— É, eu sei disso.

(pausa)

— Quer ir pra cama comigo?

— Quando?

— Agora.

— Não.

— Por quê? Você é gay? Nunca me contou isso.

— Não sou gay, mas conheço seu pai. Se ele chega e me pega na cama com a filhinha dele eu vou sem bolas pra Saturno.

— Ele não vai fazer isso, não sou mais criança.

— Aos olhos do mundo não, mas aos olhos dele você continua sendo uma menininha, ainda mais enquanto continuar a subir em árvore.

— Não me acha bonita?

— Não é isso, você é a garota mais inteligente e interessante que conheço; transava com você mesmo que parecesse a Hebe Camargo.

— Não respondeu a minha pergunta.

— Você é bonita.

— Não me acha gorda?

— Não, nem um pouco.

— Eu sou gorda.

— Não, não é, você só não é esquelética. Gosto mais de garotas assim.

— Então você é tarado por tecido adiposo, porque eu sou uma baleia.

— Não é não. Você é linda.

— Então porque não quer?

— Sou covarde.

— Tem tanto medo assim do meu pai?

— Um pouco, mas tenho ainda mais de que você se torne minha futura ex-namorada. Não quero perder você.

— Então você me ama?

(pausa)

— Não daria certo.

— Não perguntei isso, perguntei apenas se você me ama.

— Você é filhinha de papai, tem boa família e eu estou prestando vestibular para mendigo…

— Sim, eu sou a Barbie e você é um rato, já sei disso faz tempo, agora responde.

— Amo.

— Ah, que lindo! Também te amo.

— Não se diz assim: também te amo, se diz apenas te amo.

— Claro que diz.

— Sem o também parece mais sincero.

— Deixa de besteira e me beija.

— Não.

— Por quê?

— Não quero.

— Você é estranho.

— Obrigado, você também é.

— Não se diz também, se diz você é estranha e ponto.

— Você é estranha e ponto.

— Está sendo sincero então?

— Não. Você se parece comigo.

(pausa)

— Ih, meus pais chegaram.

— Tá vendo, eu ia morrer.

— Talvez, mas não valia a pena morrer por isso?

— Não.

— Chato.

(pausa)

— Hei.

— Que.

— Já reparou que seu pai parece um buldogue?

— Como assim?

— Sei lá, reparei isso agora.

— Você é louco, tá ficando paranóico já.

(pausa)

 — Peraí, vou contar pro meu pai que a gente tá namorando.

— Não.

— Vou sim.

— Não, ele vai me matar, quer que eu morra?

— Te amo.

— Não, a gente não tá namoran…

— Paaai! Vem cá cumprimentar meu namorado.

— Depois não adianta se atirar dentro do rio.

— Paaaaai!!! Meu namorado.

— Não!

— Paaaaaaaai!!!

12 de Novembro — 2009.

se gostou deste texto, leia também GODARD.

anel de noivado

(para Paula Fernanda)

 
escrevo um verso primeiro
e
deixo uma linha em branco
onde
deveria estar o segundo:
em branco, linha da minha vida
falta um verso -
justamente
aquele
onde falo de você.

vivo no inverso das coisas -
não sei onde estou quando só sei
o que quero:

você e uma nuvem de borboletas prateadas
num altar de mil santos ou
flores ou
dias de sol ou
qualquer coisa bonita
que reflita um nós dois
como procuro -

quero uma poesia para a vida toda ou então
que no minuto teu caiba a eternidade inteira…
exatamente como tudo que é seu
cabe no meu verso -

madeixas de vinho tinto,
all star e estrelas e promessas de azul noite;
tudo somo
ao que somos
e ao que seria
se fossemos -

quero casar meu verso com seu poema:
o eu e o você vou jogar fora:
daqui pra frente vai ser só

nós
ou nossa! por que não?

de qualquer forma
deixo o verso e a linha em branco – anel e aliança
para que não diga que em minha poesia

não há

romance.

Fernando Albuquerque

(postado originalmente em http://andoando.blogspot.com)