O PÁSSARO AZUL – Charles Bukowski

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito duro com ele,
eu digo, fica aí dentro, não vou deixar
ninguém
te ver.

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky nele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os garçons dos bares
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele está
ali.

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito duro com ele,
eu digo,
fica quietinho, você quer
me confundir?
quer estragar o
meu trabalho?
quer arruinar as minhas vendas de livros
na Europa?

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito esperto, só o deixo sair
às vezes à noite
quando todos estão dormindo.
eu digo, eu sei que você está aí,
então não fique
triste.

Depois coloco-o de volta,
mas ele canta baixinho
aqui dentro, não o deixo morrer
completamente
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é agradável o suficiente
para fazer um homem
chorar, mas eu
não choro,
e você?

Charles Bukowski – do livro “LAST NIGHT OF THE EARTH POEMS (1992)”
Tradução de Andrew Clímaco.

bluebird

De volta das trevas (ou para as trevas)

Depois uma temporada por fora. Depois de andar alguns passos, sem ser convidado, no jardim do éden. Eis-me aqui, de volta às origens… Pra quem não sabe, estive colando ossos e cacos de coração, dormindo cedo, acordando ainda mais e não escrevendo nada. De volta depois da minha quarta morte, outro suicídio e, enfim, a páscoa: ressurreição. Nos lábios de outra mulher, no suor, no hálito, no sangue impregnado nas minhas papilas gustativas para a eternidade. Talvez eu não seja mais o mesmo: o tempo passa e as mudanças são inevitáveis: pra melhor ou pra pior, tanto faz. No entanto sou eu, depois de uma noite na Pç Roosevelt assistindo 120 dias de Sodoma, depois de uma noite num quarto de hotel barato com os habitantes da cidade. Meus cacos ainda mal colados tentam recuperar o fôlego. Amanheço, triste demais e ao mesmo tempo feliz por estar de novo no inferno com todos vocês, meus amigos. Dizer, sorridente: estou de volta! E pra comemorar, deixo um poema do Bukowski, triste & significativo.

Andrew Clímaco; 24 de Abril de 2011.

outra cama

outra cama
outra mulher

mais cortinas
outro banheiro
outra cozinha

outros olhos
outro cabelo
outros
pés e dedos.

todos à procura.
a busca eterna.

você fica na cama
ela se veste para o trabalho
e você se pergunta o que aconteceu
à última
e à outra antes dela…
é tudo tão confortável -
essse fazer amor
esse dormir juntos
a suave delicadeza…

após ela sair você se levanta e usa
o banheiro dela,
é tudo tão intimidante e estranho.
você retorna para a cama e
dorme mais uma hora.

quando você vai embora é com tristeza
mas você a verá novamente
quer funcione, quer não.

você dirige até a praia e fica sentado
em seu carro. é meio-dia.

- outra cama, outras orelhas, outros
brincos, outras bocas, outros chinelos, outros
vestidos
               cores, portas, números de telefone.

você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho.
para um homem beirando os sessenta você deveria ser mais
sensato.

você dá a partida no carro e engata a primeira,
pensando, vou telefonar para Janie logo que chegar,
não a vejp desde sexta-feira.

Charles Bukowski [do livro O Amor É um Cão dos Diabos, L&Pm Editores, 2007; Tradução de Pedro Gonzaga]

BUKOWSKI: 2 poemas sobre mulheres

Nas minhas leituras, encontrei dois poemas do Buk que me agradaram um bocado. Poemas sobre mulheres — o que se tratando de Charles Bukowski não é de se estranhar — e, como já faz um tempinho que não posto nada do Buk no blog, decidi traduzi-los para postar aqui.

All the Casaulties… fala sobre uma situação chata pela qual passei algumas vezes e que com certeza a maioria dos que me lêem deve ter passado, que é despedida de um relacionamento. Essa coisa de entrar na rodoviária ou no aeroporto segurando as lágrimas é bastante trivial para mim e por esse motivo o poema me serviu como luva.

A Love Poem é uma visão bem peculiar do autor sobre as mulheres, digamos que uma pequena homenagem.

Os dois poemas pertencem ao livro “War All the Time – Poems 1981-1984” lançado em 1984 nos EUA. No Brasil saíram no livro “Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski”, lançado pela Ed. Bertrand, que apesar de ser uma bela edição, é conhecido por ter uma tradução de qualidade um pouco duvidosa. Não querendo bater de frente com nosso saudoso poeta Jorge Wanderley (que foi quem fez as traduções do livro da Bertrand), decidi eu mesmo dar a cara pra bater e traduzir os poemas do inglês. Não sei se vai agradar a todos, mas acredito que fui melhor que o Jorge — com todo respeito.

Espero que aprovem.

Andrew Clímaco (F.A.)

All the Casualties…

eu disse então a ela na cama
depois de voar todo o caminho
até ali
eu disse a ela na cama
em seguida,
”não tem como voltar atrás,
você sabe, é danado
de ruim…”

e era
contudo eu fiquei 2 ou
3 dias
e então ela me levou
ao aeroporto
o cachorro no
banco de trás
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.

eu saí
disse a ela
”não entre”,
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora,
assanhei seu pêlo,
ele lambeu em torno
do meu rosto.
que merda.
inclinei-me para dentro
segurando minha mala,
ela me deu um
beijinho de adeus,
então eu me virei e
caminhei para o
guichê do aeroporto
onde o controlador
destacou a
outra metade do meu bilhete de ida
e volta.

“fumante ou não-
fumante?”, o funcionário
perguntou.

“bebedor”, eu
respondi.

recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal

por todos
que eu conhecia

que não conhecia

que ia
conhecer.

***

A Love Poem

todas as mulheres
todos os beijos as
diferentes formas que amam e
falam e carecem.

suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

na maioria das vezes
as mulheres são muito
quentes elas me lembram
torrada com a manteiga
derretida
nela.

está estampado no
olhar: elas foram
tomadas elas foram
enganadas. eu nunca sei o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas eu apreciei suas variadas
camas
fumando cigarros
olhando para o
teto. não fui nocivo nem
desleal. apenas
um aprendiz.

eu sei que todas têm
pés e descalças elas andam pelo piso enquanto
eu olho suas modestas bundas no
escuro. sei que gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo muito
poucas.

algumas me dão laranjas e vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas deixa de fazer
sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outras
coisas; cada uma tem seus limites como eu tenho
limites e nós aprendemos
cada qual
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
algo como uma igreja
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto
e a carência eu tenho
agüentado eu tenho
agüentado.

 

Charles Bukowski
[do livro “War All the Time – Poems 1981-1984”
— tradução de Andrew Clímaco]

A mais linda mulher da cidade – Charles Bukowski

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.

As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos — “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.

O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.

Conheci Cass uma noite no West End Bar, Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade — o que bem pode ter contribuído.

— Quer um drinque? — perguntei.

— Claro, por que não?

Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.

— Me acha bonita? — perguntou.

— Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…

— As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?

— Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.

Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.

Ela me olhou e riu.

— E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?

Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:

— Olha — disse para Cass, — se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.

— Ah, vai te foder, cara!

— É melhor não dar mais bebida pra ela — aconselhou o sujeito.

— Não tem perigo — prometi.

— O nariz é meu — protestou Cass, — faço dele o que bem entendo.

— Não faz, não — retruquei, — porque isso me dói.

— Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?

— Sinto, sim. Palavra.

— Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.

Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:

— Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?

— Amanhã de manhã — respondi, — virando de costas pra ela.

No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.

Deu uma risada.                                     

— Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.

— Deixa pra lá — retruquei, — a gente nem precisa disso.

— Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.

Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional — os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.

— Vem de uma vez, gostosão.

Deitei na cama.

Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.

— Qual é o teu nome? — perguntei.

— Porra, que diferença faz? — replicou.

Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão — uma folha de inhame.

— Sabia que ia te encontrar no banho — disse, — por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.

E atirou a folha de inhame dentro da banheira.

— Como adivinhou que eu estava aqui?

— Adivinhando, ora.

Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.

Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.

— Esses filhos da puta — disse ela, — só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.

— Quem topa o convite já está comprando barulho.

— Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.

— Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.

Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.

— Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.

Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.

— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?

— Que nada, seu bobo, agora é moda.

— Pirou de vez.

— Sabe que sinto saudade — comentou.

— Não tem mais ninguém no pedaço?

— Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.

— Tira esses grampos daí.

— Negativo. É moda.

— Estão me deixando chateado.

— Tem certeza?

— Claro que tenho, pô.

Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.

— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?

— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.

— Então tá. Sorte minha, né?

— Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.

— Muito obrigado.

Tomamos outro drinque.

— O que anda fazendo? — perguntou.

— Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.

— Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.

— Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.

— Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.

Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.

Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada — da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço — grande e saliente.

— Puta que pariu, criatura — exclamei, já deitado. — Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas?

— Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?

Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.

— Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem
de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.

— Se é — retruquei, — estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.

Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.

Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.

— Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!

Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fossemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e ao respondeu, pensativa:

— Não.

Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:

— Uma pena o que houve com sua amiga.

— Pena por quê? — estranhei.

— Desculpe. Pensei que soubesse.

— Não.

— Se suicidou. Foi enterrada ontem.

— Enterrada? — repeti.

Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?

— Sim, pelas irmãs.

— Se suicidou? Pode-se saber de que modo?

— Cortou a garganta.

— Ah. Me dá outra dose.

Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

— MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.

 

(do livro “Crônica de um Amor Louco;
L&PM Editores. Tradução: Milton Persson) 

é o modo como você joga o jogo

chame-a de amor
coloque-a de pé sob a luz
imperfeita
ponha-lhe um vestido
reze cante implore chore ria
apague as luzes
ligue o rádio
acrescente-lhe enfeites:
manteiga, ovos crus, jornais
de
ontem;
um cadarço novo, e então
páprica, açúcar, sal,
pimenta,
ligue para sua tia velha e
bêbada em
Calexico;
chame-a de amor,
espeta-a bem, adicione
repolho e molho de maçã,
então a esquente primeiro
no lado esquerdo,
depois no
direito,
ponha-a numa caixa
livre-se dela
deixe-a nos degraus de uma
porta
vomitando como você fará
nas
hortênsias.

 

(Charles Bukowski)

Bukowski cut-up

buk_esperando_nataliaesse desejo de nós

para Natália Ponciano

sigo esvaziando garrafas à espera dos passos. posso senti-la no ar, posso senti-la na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas para seus pés caminharem, posso ver travesseiros para sua cabeça, posso sentir a expectativa da minha risada, posso vê-la acariciando um gato, posso vê-la dormir, posso ver seus chinelos no chão. pequenas gotas de você pingando na poeira. sei que alguma noite em algum quarto logo meus dedos abrirão caminho através de cabelos limpos e macios. quando me penso morto penso em fazer amor com você quando não estou por perto. é tudo tão confortável — esse fazer amor, esse dormir juntos, a suave delicadeza… outra cama outra mulher mais cortinas, outro banheiro outra cozinha outros olhos outro cabelo outros pés e dedos. essas orelhas esses braços esses cotovelos esses olhos olhando, o afeto e a carência me sustentaram. sou um bom cozinheiro, um bom ouvinte, mas nunca aprendi a dançar. me sinto bem melhor agora. dediquei-me ao sapateado e as palavras difíceis que sempre tive medo de dizer podem agora ser ditas: eu te amo como um homem ama uma mulher que jamais tocou, para quem apenas escreveu, de quem manteve algumas fotografias. eu poderia ter te amado mais se eu tivesse sentado numa pequena sala enrolando um cigarro e ouvindo você mijar no banheiro. mando a cerveja goela abaixo, peço uma bebida forte rápido para adquirir a garra e o amor de continuar.  eu sairei e esperarei por você.
versos: Charles Bukowski
cortes e emendas: Andrew Clímaco (F.A.)

Pra que cérebro? [um recadinho aos seres que mais amo: as mulheres]

“as mulheres geralmente se entregam ao mais imbecil que elas conse- guem encontrar; é por isso que a raça humana está na posição que ela se encontra hoje: nós criamos os espertos e duradouros Casanovas, completamente ocos por dentro, como coelhinhos de Páscoa de chocolate que nós empurramos boca abaixo das nossas pobres crianças” — Charles Bukowski em Notes of a Dirty Old Man.

um problema que merece atenção são os métodos que as mulheres usam para escolher seus parceiros. é engraçado e trágico saber que, dentre tantas opções, a garota ainda se esforce para escolher o mais imbecil de todos. vezes demais presenciei e/ou vivenciei cenas que no mínimo me causaram enjôo. é sempre a mesma história: o cara legal, inteligente (e na maioria da vezes um pouco tímido) chega para conversar com a garota descolada e ela logo dá um chega pra lá no rapaz simplesmente porque ele não perdeu tempo falando mentiras e fazendo piadinhas sem graça para agradar a molóide. pouco depois aparece o sujeito mais boçal da cidade, peitinho depilado, sem nem uma sombra de barba no rosto (parece bunda de bebê o rosto desses caras), nenhum cérebro dentro da cabeça, cabelinho espetado parecendo um integrante remanescente do Vilage People ou algum membro do JACKASS, e assim faz meia dúzia de piadas estúpidas e conta meia dúzia de mentiras e logo a garota já está caidinha pelo cara.

é bem verdade que nunca comi ninguém pela minha inteligência; se quero agradar uma garota tenho que me fazer de idiota para chamar sua atenção e isso me incomoda bastante. outro dia mesmo vi uma chinesinha num show e resolvi ir falar com a moça (nota: eu estava de barba, coisa rara no homem moderno) e quando fiz um inocente elogio dizendo que ela era bonita ela me mandou tomar no cu na maior falta de educação, por isso fui obrigado a lhe dar a resposta: “pelo menos eu sou original de fábrica, brasileiro legitimo, pior é você que é made in China” (não sou racista e não quero parecer racista, tanto que tive interesse na garota, mas ela havia me mandado tomar no cu 5 segundos antes só por que a elogiei e uso barba).

a que ponto estamos chegando? o que vocês querem: um mundo lésbico? um mundo onde todo homem é metro e acéfalo? uma dúvida que tenho e que só vocês, meus amores, minhas lindinhas, podem responder: vocês acreditam mesmo no que os boçais dizem ou realmente gostam de imbecis?

devo dizer que amo as mulheres, e amo de verdade, não só as suas bocetas como os boçais para quem elas costumam dar; amo todo o ser, suas manias, seus jeitos, seus mistérios, etc. para mim mulheres são seres interessantíssimos e é por elas que eu vivo, contudo têm coisas que elas fazem que às vezes me tiram do sério. pô! será que não dá para começarem a pensar um pouco, ver que mulheres para esses caras são só pontinhos em suas estatísticas de bocetas comidas? gostam de serem vistas apenas como bocetas ambulantes e sem cérebro? infelizmente, por causa de comportamentos desse tipo, por se permitirem entregar a esses filhos da puta, começo a acreditar que vocês realmente não têm cérebro.

acho que se as mulheres passassem a escolher seus parceiros pelo intelecto e não pela capacidade de fazer piadas sem graça os homens se esforçariam mais para adquirir conhecimento e, conseqüentemente, o mundo melhoria um bocado. o homem faz tudo pela mulher, trabalha pela mulher, enriquece pela mulher, vive apenas pela mulher e dessa forma também é capaz de criar caráter em razão da mulher. por isso, meninas, o mundo está nas mãos de vocês. chega dessa bobagem que vocês inventaram de achar que tudo é feminismo. sejam feministas sim, contudo tomem consciência de que abrir as pernas para qualquer idiota que aparece mostrando interesse em tudo o que você faz não é feminismo, é ESTUPIDEZ. procurem primeiro saber se ele é sincero, se diz a verdade, que não tem apenas minhocas na cabeça.

(e se disser que estou sendo romântico, vou apenas dizer que você está no blog errado lendo o artigo errado e pedir para que saia pelo mesmo lugar por onde entrou antes que eu lhe mande pra puta que lhe pariu. não é hora de arrumar rótulos para o escritor, é hora de tomarem vergonha na cara, pois as mais prejudicadas nessa história são vocês mesmas que acabam num relacionamento ruim sofrendo e por quê? por que não souberam escolher direito.)

saibam que eu quero o melhor para vocês, mas não posso ficar agradando o tempo todo, passando a mão em suas cabeças enquanto continuam fazendo burradas. eu não sou um boçal, não sou mauricinho e nem quero parecer astro do Big Brother. sou o que sou e não vou enriquecer meu vocabulário com mentiras e piadinhas só para vocês pensarem que sou legal (eu sei que sou legal, não preciso provar nada), muito embora quando eu usar um elogio, quando disser que gosto do seu jeito, da sua voz, do seu rosto, podem ter certeza absoluta que o que estou dizendo é verdade e não o faço apenas para agradar, faço porque gosto e quero que saiba disso e se sorrir para mim isso já terá muito valor. eu sou assim e sei que existem, são mais raros mas existem, outros caras assim por aí.

e então, o que vão fazer: continuar a encher o ego dos imbecis ou procurar conhecer os homens com caráter e inteligência? qualquer coisa, meu e-mail é disritmia@ymail.com [o autor ri].

 

23-09-2009

política

“alguns homens anseiam pela revolução, mas quando você se revolta e constitui seu novo governo você descobre que o seu novo governo é ainda o velho papai de sempre, tendo colocado apenas uma nova máscara de papelão”. — Charles Bukowski Notes of a Dirty Old Man.

isso então…

é o mesmo que antes

ou que da outra vez

ou da vez anterior à essa.

eis um pau

e eis uma boceta

e eis um problema.

 

a cada vez

você pensa

bem eu aprendi desta vez:

vou dizer a ela que faça isso

e eu farei isto,

já não quero a coisa toda,

só um pouco de conforto

e um pouco de sexo

e apenas um mínimo de

amor.

 

agora novamente espero

e os anos vão escasseando.

tenho meu rádio

e as paredes da cozinha

são amarelas.

sigo esvaziando as garrafas

à espera

dos passos.

 

espero que a morte reserve

menos do que isto.

 

Charles Bukowski

O Gato e a Humanidade – por Charles Bukowski.

“Havia um gatinho branco com as costas voltadas para um dos cantos do muro. Não podia subir pelos tijolos nem fugir em qualquer outra direção. Suas costas estavam arqueadas e ele bufava, as garras prontas. Era, no entanto, pequeno demais para dar conta do buldogue de Chuck, Barney, que rosnava e se aproximava mais e mais. Tive impressão de que aquele gato havia sido colocado ali pelos garotos e de que somente depois o buldogue fora levado até ali. Sentia isso intensamente pelo modo que Chuck e Eddie e Gene acompanhavam a cena: o aspecto deles os incriminava.

- Caras, vocês armaram essa – eu disse.

- Não – rebateu Chuck –, a culpa é do gato. Ele veio até aqui.

- Deixe que ele se vire agora para escapar.

- Odeio vocês, seus desgraçados – eu disse.

- Barney vai matar o gato – disse Gene.

- Barney vai fazer picadinho do bichano – disse Eddie. – Ele está com medo das unhas do gato, mas quando avançar estará tudo encerrado.

Barney era um buldogue grande e marrom com as bochechas flácidas e cheias de baba. Ele era gordo e meio abobalhado e tinhas olhos castanhos inexpressivos. Rosnava constantemente e ia avançando devagar, os pelos do pescoço e das costas eriçados. Eu sentia vontade de lhe dar um chute no seu rabo estúpido, mas percebi que ele arrancaria minha perna fora. O cão estava completamente tomado por um espírito assassino. O gato branco sequer tinha terminado de crescer. O bichinho soltava um silvo agudo e esperava, comprimido contra o muro, uma criatura belíssima, tão limpa.

O cachorro avançou lentamente. Por que esses caras precisavam disso? Não era uma questão de coragem, era apenas um jogo sujo. Onde estavam os adultos? Onde estavam as autoridades? Para me acusar de alguma coisa estavam sempre por perto. Onde tinham se enfiado agora?

Pensei em intervir na cena, apanhar o gato e sair correndo, mas eu não tinha forças. Tinha medo de que o buldogue me atacasse. A consciência de que me faltava coragem para fazer o que era necessário fez com que me sentisse péssimo. Comecei a ficar enjoado. Estava fraco. Eu não queria que aquilo acontecesse, ainda que eu não conseguisse encontrar nenhuma maneira de evitar o massacre.

- Chuck – eu disse –, deixe o gato ir, por favor. Chame seu cachorro.

Chuck não respondeu. Continuou apenas observando. Então disse:

- Vai, Barney, pegue ele! Pegue o gato!

Barney avançou e de súbito o gato deu um salto. O bicho se transformara numa furiosa mancha branca, toda silvos, garras e dentes. Barney recuou e o gato voltou novamente para o muro.

- Pegue ele, Barney – disse Chuck novamente.

- Cale a boca, maldito! – gritei para ele.

- Não fale comigo desse jeito – retrucou.

Barney começava a avançar novamente.

- Caras, vocês armaram tudo isso aqui – eu disse.

Ouvi um leve ruído atrás de nós e voltei a cabeça. Vi o velho sr. Gibson a nos observar de trás da janela de seu quarto. Ele também queria que o gato fosse morto, assim como os garotos. Por que?

O velho sr. Gibson era nosso carteiro. Usava dentadura. Tinha uma esposa que passava o tempo inteiro em casa. A sra. Gibson sempre usava uma rede sobre os cabelos e sempre trajava uma camisola, roupão de banho e chinelos.

Então apareceu a sra. Gibson, vestida como de costume, e se postou ao lado do marido, esperando pela carnificina. O velho sr. Gibson era um dos poucos que tinha um emprego, mas ainda assim ele precisava ver o gato morto. Gibson era como Chuck, Eddie e Gene.

Havia muitos deles.

O buldogue se aproximou. Eu não podia ver aquele crime. Senti uma vergonha profunda por abandonar o gato à própria sorte. Havia sempre a chance de que o bichano pudesse escapar, mas eu sabia que os garotos não deixariam isso acontecer. Aquele gato não enfrentava apenas o buldogue, ele enfrentava a humanidade inteira.

Dei meia-volta e me afastei, para fora do quintal, passando pela entrada do carro e chegando ã calçada. Caminhei em direção ao local onde eu morava e lá, no pátio em frente ã sua casa, meu pai estava plantado, me esperando.

- Onde você estava? – ele perguntou.

Não respondi.

- Já pra dentro – ele disse. – E pare de parecer tão infeliz ou lhe darei algo para que você realmente sinta o que é infelicidade!”

.

[Do livro “Ham on Rye” – Charles Bukowski (tradução de Pedro Gonzaga)]

.

Quando criança, passei por diversas situações semelhantes a essa, contada por Bukowski. E eu, garoto raquítico e chorão, não podia fazer nada para impedir as maldades dos outros garotos. Isso é apenas uma das dificuldades pelas quais passa um bom garoto que é obrigado a crescer numa cidade pequena, cheia de caipiras e selvagens. É possível que esta seja a razão do meu pouco apego com crianças, nos dias atuais.

Felizmente, anos mais tarde, quando eu já era um adolescente revoltado, pude ter minha vingança. Eu voltava do colégio, quando vi um desses lutadores de jiu-jitsu atiçando um pitbull num gato preto e branco, que gemia em cima de uma árvore baixa. Isso não ficaria assim, eu não poderia deixar outra atrocidade acontecer – eu já não era mais um moleque indefeso.

O tijolo acertou o lado esquerdo da cabeça do cachorro. Ele não morreu, mas tombou e ficou chorando, enquanto eu… Bem, eu já não era mais criança e sabia muito bem que enfrentar um lutador de jiu-jitsu é suicídio. Então corri. Estou correndo até hoje. (nota: eu não odeio cães, gosto deles, mas nesse caso, não era um cão e sim uma fera contaminada pelo caráter ruim de seu dono).

Esse texto de Bukowski, “O Gato e a Humanidade”, é um dos melhores exemplos da humanidade do escritor. Pena a maioria de seus leitores buscar exclusivamente a pornografia em seus livros e ignorar esse lado humano e sua compaixão pelos menos favorecidos, que é a alma de sua obra.

Fernando Albuquerque.

camas, banheiros, você e eu…

bukowski-barba

“pensando nas camas

usadas e reutilizadas

para trepar

para morrer.

 

nesta terra

alguns de nós trepam mais do que

nós morremos

mas a maioria de nós morre

melhor do que

trepamos,

e morremos

bocado a bocado também –

em parques

tomando sorvete, ou

nos iglus

da demência,

ou em esteiras de palha

ou sobre amores

desembarcados

ou

ou.

 

:camas, camas, camas

:banheiros, banheiros, banheiros

 

o sistema de esgoto humano

é a maior invenção do

mundo.

 

e você me inventou

e eu inventei você

e é por isso que nós não

damos

mais certo

nesta cama.

você era a maior invenção

do mundo

até que resolveu

me mandar descarga

abaixo.

 

agora é a sua vez

de esperar que alguém aperte

o botão.

alguém fará isso

com você,

puta,

e se eles não fizerem

você fará –

misturada ao seu próprio

adeus

verde ou amarelo ou branco

ou azul

ou lavanda.”

Charles Bukowski

encurralado

bukstreet

“não dispa o meu amor

você pode encontrar um manequim;

não dispa um manequim

você pode encontrar

o meu amor.

ela há muito tempo

me esqueceu.

ela experimenta um novo

chapéu

e parece mais

coquete

do que nunca.

ela é uma

criança

e um manequin

e

é a morte.

não tenho como odiar

isso.

ela não faz

nada fora do

comum.

queria apenas que ela

fizesse.”

 

Charles Bukowski

Invocação: um poema de Bukowski.

charlesbukowski1

“esta noite

 

“seus poemas sobre as garotas ainda estão por aí

daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido”,

meu editor me telefona.

 

caro editor:

parece que as garotas já se

foram.

 

entendo o que o senhor diz

 

mas me dê uma mulher verdadeiramente viva

nesta noite

cruzando o piso na minha direção

 

e o senhor pode ficar com todos os poemas

 

os bons

os maus

ou qualquer outra que eu venha a escrever

depois deste.

 

entendo o que o senhor diz.

 

o senhor entende o que eu digo?”

Charles Bukowski

 

 

# de O Amor é um Cão dos Diabos (Love is a Dog From Hell, 1977) de Charles Bukowski, livro que deu título ao blog.