La Mamma Morta

Morto. O corpo do feto colado ao farto seio da mãe. Feito vício de mar, fato: onda que vai e volta ad infinitum. Outro parto, a mesma parte que se esvai pela porta da carne, o mais perto, talvez o terceiro ou quarto, tanto faz. A dor do caçula é equivalente à dor do primogênito. Roxo, sufocado no cordão umbilical, ou forca da desventura, força contrária. Natimorto, natissanto. O martírio da mãe dos seios intumescidos de alimento. Nutrição, desperdício, autocomiseração. Por que eu, Pai? ela perguntava na cruz do leito de hospital. Leito de morte, berço da loucura. Branco de leite sobre amarelo colostro, a vida do filho pródigo num afresco na parede do fundo. O azul gélido das lágrimas de vidro cortando a face do desgosto. Oposto da felicidade idealizada, família. Papai, mamãe, as crianças e coelhinhos de louça enfeitando a estante. No entanto, agora nenhuma estante e os coelhos são ratazanas nos subterrâneos túneis da alma. Papai foi embora, cansou da mamãe assassina. As criancinhas assassinadas pelo carnívoro ventre da mamãe coruja. Escuro vazio sem filho. Vermelho sangue que escorre da abertura do útero. Assassina assassinada pela incapacidade de dar vida à outra parte sua. Outra parte morta, um pedaço a menos, uma ausência a mais. Este recomeço terminado, sua terceira ou quarta vitória derrotada. Bancarrota de ilusões, consciência de estar para sempre só. Poderia até tentar outra vez, tanto faz, no fim dá tudo no mesmo: ad infinitum. É a onda do mar. Amar aquele que ainda não veio e que provavelmente não virá. Ressaca de quatro filhos mortos, tão só. Só isso. Sem mais. Não pode mais, então espera, calada. No seio a pele fria do menino Jesus sem olhos, o que salvaria a sua humanidade, caso em vez de morrer ele tivesse decidido dar uma mamadinha no bico dolorido do seio farto de vida. Vida morta, farta, espera. Pelo que não sabe ainda. Talvez apodreça, talvez desista de si mesma e de todas suas outras metades amputadas. Pode ser até que deseje nascer de novo só para que, como o filho abortado, também nasça morta. Tanto faz, só sabe que espera. Espera pelo dia que não precisará esperar mais assim. Santa, madre, morta.
Andrew Clímaco
dezembro 5, 2011 às 8:07 pm
Este miniconto não é novo; é uma das sobras da minha fase inspiradíssima do final de 2010. Lembro que o escrevi sentado em um dos bancos do Parque Mário Covas em São Paulo, no meu caderno de poemas. O texto data do dia 24 de Outubro de 2010 e não me parece tão mal. É mais um exercício de jogo de palavras, quando eu ainda estava estruturando a prosa que usaria nos textos que o sucederam. O título foi tirado do famoso trecho da ópera “Andrea Chenier” de Umberto Giordano, e o tema também veio daí – é um daqueles textos que o título nasceu antes do resto.
Um abraço,
Andrew Clímaco.
dezembro 7, 2011 às 6:29 pm
Fodidamente lindo. Você é um puta de um escritor, menino! Dos grandes, daqueles bons de sentar no boteco sozinho, com tuas palavras fazendo companhia. É o que estou fazendo agora. Botecando sozinha e lendo os fragmentos do que seria um baita de um livro. E a vontade? Bem, a vontade é sair cutucando os que passam por aqui e obrigá-los a ler o que você escreve. Colorir ou esfumaçar o dia deles (não sei ainda) da mesma maneira que faz com os meus dias. Lindo texto. Fico feito pavão de rabo aberto para exibir você.
dezembro 16, 2011 às 4:23 pm
Venho desejar um Feliz e Santo Natal.
Bj.
Irene