Morango com Cerejas (Fluxos e Refluxos – ERÓTICA III)
(Fantasia sobre o poema “ruiva de cima a baixo” de Charles Bukowski)
5 segundos…
o mundo explode: vento nuvens tempestade tormenta tornado terremoto tsunami, você num tom suave diz NÃO CHOVA e o ambiente é envolto por uma bruma espessa de tranqüilidade e paz.
paz de corpos de olhos de sonhos de espírito aura desejos porque noite e dia doze meses ao ano é primavera e flores e frutas e cores de alma Almodóvar e dois, nós em dois, silêncio: despertamos.
tempo de dizer Olá e andar de mãos dadas sob o sol de um Leblon paulistano admirando um Cristo paulistano ao lado de uma loja do Pão de Açúcar, ajudo você a tirar os sapatos com um beijo suave, vamos caminhar na praia e deixar pegadas na areia do asfalto cálido da marginal Pinheiros…
no rádio, Luis Melodia canta: Baby te amo, nem sei se te amo…
noutro momento, estamos sentados na mesa de um bar e você diz:
— você não fala muito… por que tantas letras minúsculas?
— não falo, gosto de observá-la enquanto meu silêncio declama em versos o quanto te quero. as letras minúsculas são porque gosto de fazer grandes as pequenas coisas, no entanto, há momentos em que sou todo CAPS LOCK.
— e quando vou conhecer esses momentos?
— em breve.
para encontrar-te em estado bruto natural selvagem e captar no uivo das estrelas a entrega absoluta do teu ser no meu ser que é seu que é nosso porque eu posso, baby, eu posso. como o conforto de uma lareira numa madrugada invernal. como um trago de uísque para um mendigo. um oásis no deserto para o beduíno que passa, você diz:
— tenho sede
e eu tenho sede da tua sede e em sonhos insisto para que ceda e peça e implore e suplique por mim como tenho suplicado por ti em tantos outros sonhos que tive antes de conhecer-te, bela.
5 minutos…
talvez um pouco mais e estaremos em casa. a vida dói nos meus ombros, nos meus pés, nas minhas pernas, no meu peito, na minha cabeça e em todo meu corpo estafado de mulher, você diz. olho em seus olhos-alma e digo não tema, tudo isso vai passar, eu sou sua morfina.
minha alma nua corre desvairada ao redor do meu corpo nu cheio de anseios pelo seu corpo nu enquanto escrevo esta carta premonição desejo exato. há um verso em um de meus poemas que diz: quero provar o sexo do seu corpo enquanto trepo com sua alma. ainda que não a conhecesse quando o escrevi, minha alma afirma que estes versos são seus, e eu não duvido. o fogo dos meus olhos é alimentado pelo combustível do seu corpo quando sua pele é pura combustão para os meus olhos.
vermelho, minha cor favorita
fogo, meu elemento, digo.
eu tenho sede, você insiste e aos poucos seu corpo cede. também tenho sede e tenho ainda mais fome, a garganta seca, o estômago contraído, minha boca pedindo pela sua boca, sua pele, meus olhos deslizam no seu suor.
quatro paredes, portas fechadas, o rádio toca Caetano —
…você traz a coca-cola eu tomo,
você bota a mesa eu como,
eu como, eu como, eu como,
eu como… você.
você ri, subitamente tímida ou apreensiva. é a estranheza do mundo lá fora que é tão diferente do nosso, mas neste instante nada daquilo importa porque o seu mundo meu cabe entre estas quatro paredes que aprisionam nossos corpos para a univitalinização, aquário em aquário, suco de morango com cerejas. esqueça que há o mundo dos outros pois este é todo nosso, deixe-me contar tuas sardas, temos eternidades inteiras dentro deste agora.
— és mesmo ruiva? — pergunto com um sorriso sarcástico
e antes que responda, agarro teu braço e beijo tua boca cheio de sede e caio embriagado com teu gosto recitando um poema. Bukowski: ruiva de cima a baixo
cabelos ruivos
legítimos
ela os põe em movimento
e pergunta
“meu rabo continua gostoso?”
que comédia.
há sempre uma mulher
para salvar você de outra
e assim que ela o salva
está pronta para
destruí-lo.
“às vezes eu odeio você”,
ela disse.
afastou-se e foi se sentar
na minha varanda para ler meu exemplar
do Catulo, e ficou
por lá cerca de uma hora.
as pessoas passavam de lá pra cá
em frente à minha casa
se perguntando como um
cara tão velho e feio podia arranjar
uma beldade daquelas.
nem eu sabia.
assim que ela entrou eu a puxei
para o meu colo.
ergui meu copo e lhe
disse, “beba isso”.
“oh”, ela disse, “você misturou
vinho com Jim Beam, logo vai ficar
safado”
“você passa hena nos cabelos,
não?”
“você não enxerga nada”, ela disse e
se levantou e baixou
suas calças e a calcinha e
os pêlos lá embaixo tinham a
mesma cor dos cabelos
lá em cima.
o próprio Catulo não poderia ter desejado
graça mais histórica ou
magnífica;
depois ele se
enamorou de
rapazolas
insuficientemente loucos
para se tornar
mulheres.
PRIMEIRO ATO
5 sentidos…
a paz agora é desatino, fúria, desejo. nua, você exclama que ainda tem sede, muita sede, que é insuportável e me pede para curá-la.
VOCÊ — quero beber seu suco, morango, e quero que extraia o néctar das minhas cerejas, banhe-as no seu marrasquino, mata sua fome em mim, me bebe, me suga, me frui, me toma, me devora até não sobrar nada e depois me ressuscita no seu sorriso, num beijo apaixonado, num canto alegre ao acordar. faz, faz que eu te engulo, que eu te revitalizo, que eu te quero, que eu te amo.
EU (com a boca encostada na sua orelha, sussurro) — me quer? me quer, é? o morango é seu…
o rádio toca “Master and Servant” do Depeche Mode quando você prova o morango. o toque. sede, muita sede. sinto fome, fome da alma impregnada no seu corpo. a visão do seu cabelo ruivo colando na minha pele, um delírio incessante, fluxo, movimento, refluxo, vontade, tesão. sinto que é meu, puxo-a pelo cabelo, até que caia no chão e é quando me atiro sobre você em busca das cerejas: a da boca, minha língua a buscar pela sua, depois no pescoço, fome, percorrendo lentamente, sentindo tudo, até as cerejas dos seios, sardas, vermelha, minha cor favorita, pétalas de rosas, e descendo, a barriga, me perdendo desvairado, paixão, onde está o outra cereja? encontro… um suspiro, a terra treme, sua respiração é ventania, nosso suor misturado, saliva e fluidos, culminando num maremoto de você em mim. seu gosto adocicado, agudo, florido. gemidos, escuto, você escuta meu coração lutando para se livrar das paredes do peito. antes de me levantar, desço pelas suas pernas, sua força, beijos suaves, coxas, panturrilhas, tornozelos, pés… mas os morangos pedem pelas cerejas e as cerejas pedem morangos e assim, dando nós em nós, se misturam, minha pele na sua pele, minha carne na sua carne, suor em suor no chão, na cama, na mesa, nas janelas, nas paredes, no teto, nas estrelas, nossos cheiros fundindo-se nossas almas fundindo-se enquanto nossos corpos univitalinizam-se até que num uivo de êxtase eu não tenha mais fome e mate toda sua sede deixando impregnado na sua boca o gosto dos morangos e da vida e da paixão.
FIM DO PRIMEIRO ATO
acordar com você ao lado revive meu mais longínquo e sincero sorriso de criança. morangos e cerejas manchando os lençóis, boa dia, digo, e você me sorri sonolenta e pergunta: você não foi embora? respondo que não, eu não vou embora: eu fico.
Fernando Albuquerque
14 de abril; 2010
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maio 4, 2010 às 7:12 pm
Foi o que mais doce li nos ultimos dias…
maio 4, 2010 às 10:43 pm
Basta ver o reflexo dos seus olhos bem nos meus com esse calor que deu para entender… que o coração não mente,que afortunadamente, me faz bem, me faz bem, me faz bem!!!
) hihii….(#cafonando, a Possi me possuiu, não sai da minha mente….haha) maislindu!
maio 5, 2010 às 1:51 am
A ‘gasolina’ que vocês usaram tinha algo a mais…
Beijo
http://meninamisteriosa.wordpress.com/
maio 8, 2010 às 1:56 am
Fôlego? Quem precisa dele, afinal?
Rs
Beijo, gostei muito.
ℓυηα
maio 22, 2010 às 11:58 pm
Vermelho, minha cor preferida…
Olha de que forma amei você nisso aqui:
Te achei procurando ruiva de cima a baixo, meu espelho impublicável, e então te li. Te li uma vez pra dentro, te li outra pra fora, e me ouvindo eu ria deliciosamente do Leblon paulistano, do Cristo paulistano, eu que amava tanto sentir frio no Rio na beira do mar, e que agora sinto frio em Sampa só pra sentir saudade dos meus invernos no Leblon.
E aí te li de novo e não me contive: liguei a cobrar para o Léo, poeta de bh recém exilado em sampa também tradutor de ginsberg e afins, que também fazia supermercado num Pão de Açucar, não na Dias Ferreira, talvez na Alameda Santos ou Consolação, e enquanto escolhia frutas vermelhas ouvia eu declamar você e suas pegadas na areia do asfalto cálido da marginal Pinheiros…
E ele, que amou a minha leitura a cobrar do seu poema, incluindo meu cantarolar de baby te amo, nem sei se te amo (um gentleman…) falou, Fabi, você conhece? Mais um poeta perdido se achando em sampa? Vamos combinar com ele!
Assim, quando você tiver coisa melhor pra fazer, não faça: me dá um oi e vamos passar um frio juntos nas praias da Augusta, caminhando do posto 6 ao 11 daquela fauna absurda, nos aquecendo apenas: com novos amigos, com etilias e com poemas.
Beijo,
Fabi
nota da comentarista: o Léo aqui citado é Leonardo Gonçalves, http://www.salamalandro.redezero.org
julho 14, 2010 às 1:07 pm
não é paixão, mas encanto… ou misture os dois e entenderá o que senti pelas palavras q li… não sei o q comentar, mas precisava comentar algo….
setembro 2, 2011 às 5:53 pm
Acho que
(suspiro…)
perturbador é a palavra…
Qd eu crescer, vou ser ruiva…
setembro 2, 2011 às 6:02 pm
ruiva não, por favor: eu tô de ferias dos cabelos de fogo.
outubro 3, 2011 às 9:15 pm
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