ERÓTICA II
NOTA: não há continuidade entre ERÓTICA e este conto, apesar de terem o mesmo nome — apenas fazem parte da mesma série.
Dar o sangue para fazer amor com aquela garota. Não uma garota comum, uma garota louca, insana, psicótica. Recebendo homens em casa, atraindo-os para sua armadilha, nunca se expondo, nunca indo até eles. Jamais uma segunda vez. Felina, ferina, viúva-negra parindo e matando amores por prazer: seduz, brinca, mata, mastiga e depois cospe os pedaços para não ter indigestão. Nenhum porta-retrato na estante — um mau sinal.
Sentada no sofá, ela brinca com as pernas sobre a mesinha de centro enquanto sorvo da taça um gole do vinho tinto que ela me serviu. Parece saber da minha paixão por pernas bem torneadas, tirou a calça assim que chegamos — na verdade parece saber muito mais, é como se tivesse o poder de ler as palavras que eu ainda não disse. Mas não transamos ainda…
Amo essas pernas, digo.
É? ela pergunta, sarcástica.
Sim, são uma delícia. A força da mulher está nas pernas, são o poder, a locomoção, foram suas pernas que te trouxeram até mim.
Não! Foram minhas pernas que trouxeram você até mim, retruca ela, tendo o cuidado de enfatizar o pronome.
Levanto, deixo a taça sobre a mesinha, ergo seu rosto e a beijo. Minhas mãos deslizam sobre os seios, tento tirar sua blusa, mas ela me enfia as unhas na nuca. Paro. Ela sai correndo e entra no quarto. Do jeito dela, ela mesma quer fazer. Pego a taça.
Obedeço.
Abre minha camisa, a boca na minha boca, no meu peito, no meu…
A entrega. Deixamos nossa marca naqueles lençóis, aquele colchão, aquela cama, cada gota do nosso suor sagrado ali impregnado, nossos fluidos misturados, nossos cheiros exalados, nosso prazer sentido, sangrado, dor, amor…
Orgasmos corporais.
: ódio — Com as pernas, ela me empurra com violência. Não chego a cair.
Sai daqui, ela grita, vai embora da minha casa, da minha vida, desaparece…
Como se não a ouvisse, começo a juntar as peças da minha roupa espalhadas pelo carpete de madeira do chão do quarto. Ela continua a gritar, cada vez mais alto, estridente, mas não me afeta. Sequer a olho, ela não existe. Começo a me vestir, lenta, calmamente.
…olha pra mim, seu idiota, é isso que você é, um idiota medíocre…
Sentado na beira da cama chego a bocejar enquanto calço as meias. Uma paz interior me transporta para um lugar distante, um paraíso, uma neblina na qual só se adentra depois de uma noite de sexo bem feito. Começo a abotoar a camisa, botão por botão; não há por que ter pressa, eu não a vejo, não a escuto.
…o que é que tá havendo? — diz com voz de choro, não a olho, mas pelo canto do olho percebo que ela está sentada no chão, gesticulando, aflita — eu tô aqui, olha! sai da minha casa, cretino…
Me levanto. Bebo o resto do conteúdo da taça que encontro sobre o criado-mudo, depois a devolvo ao seu lugar. Caminho em direção à sala, mas antes de sair do quarto, me abaixo e pego a calcinha vermelha sobre o tapete retangular aos pés da cama e a mantenho em minha mão direita.
Antes de abrir a porta da rua, noto que ela me segue, desconsolada — imagino lágrimas em seus olhos.
… então vai ser assim? nem vai olhar pra mim? é só isso?
Não olho para ela; apenas abro a porta e saio, fechando-a atrás de mim.
Dois dias depois, meu telefone toca. Ela:
— Eu não sei o que falar, telefonar me parece algo novo, na verdade acho que é a primeira vez que ligo para um homem com quem fui pra cama, mas é que… normalmente eles ficam desesperados me perguntando o que fizeram de errado… desculpa, eu tentei te avisar que eu sou louca, você não deu ouvidos, agora… deus, tem idéia de como eu me senti aquele dia? você fez eu me sentir um lixo, eu não existia, você pisou na minha alma, me fez um traste, você é invencível, se fez tão grande, tão superior… me perdoa… preciso te ver de novo, recuperar o que você me roubou, preciso de você…
— Disse tudo?
— Acho que sim. Você vem?
— Não. É você que vai vir até aqui.
12 de Março — 2010

maio 1, 2010 às 12:57 am
as vezes nós precisamos de homens assim, no comando.
maio 1, 2010 às 12:55 pm
Alguém já te disse q vc é um “Neobukowiski”??? rsss…
gostei da sua ‘historinha’….
Sempre acabamos por encontrar algm pra por-nos em cheque!!!
maio 1, 2010 às 12:56 pm
Ah…havia me esqcido…ela foi???
N deixe de relatar-nos este episódio….rs
maio 1, 2010 às 6:04 pm
Jogos de adultos são legais, e homens que dão as cartas são…essenciais!
Ótimo conto, gostei.
Beijo.
ℓυηα
maio 4, 2010 às 4:23 pm
[...] O Amor é um Cão dos Diabos “É tão fácil ser poeta, e tão difícil ser um homem” [C.B.] « ERÓTICA II [...]
maio 5, 2010 às 1:49 am
Virou uma personagem desse jogo; e ela, agora, prova seu próprio veneno.
Acho tão sexy homem inteligente e de atitude!
Beijo
http://meninamisteriosa.wordpress.com/
http://www.aceuabertodaboca.blogspot.com/
setembro 30, 2010 às 1:21 pm
[...] TAMBÉM ERÓTICA ERÓTICA II ERÓTICA [...]
outubro 3, 2011 às 9:15 pm
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novembro 9, 2011 às 1:45 pm
Triturado, devorado. Como mais todos, como nenhum.
Inicia a encenação a Outra em quem me escondo, atesto loucura, e voltam todos. Espantados e ludibriados com os meus lençóis manchados, com as pernas que me carregam para todo lugar, tentam todos eles o meu consolo, o acudir às convulsões programadas que enceno sempre tão igual, e caem, um a um, no conto da vigária. Rasgo e rompo antes. Me protejo no projeto, me transformo em matilha dilacerante, cavuco fundo o que os tolos pensam disfarçar. Abandono antes, conta do medo que o contrário aconteça, rio prévio, prevejo o meu fim. Tolos, caem. Ficam, voltam, rabiscam poemas baratos, empreendem o entendimento do que é intendível. Mas não Ele. Enfim um louco como eu? Enquanto repetia como num teatro sensível, quase sincero,a expulsão de mais um demônio, Ele me arredorava sem me notar. Ele, um louco como eu! Fechava cada botão da camisa com a cara fechada, bocejando com a crueldade dos impassíveis. Vejo por sob a máscara que minhas tempestades não o diluem. Fixo, rijo, absorto num outro lugar que não em mim. Onde não caiba eu, nós e as pernas que há pouco ele surrava. Me apavoro. Mas mantenho. A personagem se mantém, altiva na sofreguidão. Sigo-o até a porta, num corredor de casa minha bagunçada, eu, descabelada de uma noite de não fazer amor, esse já acabado, que amor mesmo nunca se faz, desaba feito, inteiro e pronto, agora assim, em mim, ao vê-lo partir. Porta fechada, aposta restante, a postos, um ponto, opostos. Pronto? Desta vez sou eu quem vai.