Sexoarte — Orgasmos Cerebrais [conto erótico]

Postado em Contos com as tags , , , , , em fevereiro 5, 2010 por Fernando Albuquerque

[nota do autor em Comentários]

 –estritamente desaconselhável para menores–

 “Let me put my love into you, baby/ Let me put my love on the line” [AC/DC: “Let Me Put My Love Into You”]

“Suas palavras me causam orgasmos cerebrais, você me faz ter orgasmos cerebrais” [Frase dita por Fernanda Lorenzo ao autor deste conto quando ainda eram namorados]

“O sexo é sujo? Só se for feito do jeito certo.” [Woody Allen]

        NUNCA me dei bem com as garotas mais certinhas. Contudo, levou algum tempo para que eu percebesse. Conseqüência de uma educação puritana, no drugs, no rock ‘n’ roll e, é claro, no sex, porque é pecado falar sobre isto em casa. Na adolescência eu era o maior imbecil jamais visto, andando pelo colégio com jeans esburacados, camiseta do AC/DC sob o uniforme num calor de quarenta graus: desde já sonhando encontrar um amor para a vida toda. Pobre garoto; precisou levar na bunda demais antes de perceber que o amor só fode no rabo. A maioria das pessoas, quando se depara com esta revelação, se acovarda, e vive a vida a repetir os mesmos bordões sobre o amor não existir e o amor não prestar. Porém, não eu. Não sou covarde. Quando descobri que o amor só fodia no rabo, não deu outra: aprendi um jeito de foder ele no rabo antes que me fodesse. Nada mais de santas, aprendi a saborear o pecado nas coxas das não-santas, as mulheres autenticas, capetinhas, safadas… Porque eu acredito no amor, mas também acredito no sexo como uma de suas faces. Para mim, o sexo pode bem ser uma arte.

        Joy era a matéria-prima perfeita para uma obra dessas. Obra-prima, sexoarte. Há tempos eu andava em busca de uma mulher que acreditasse na arte. Não era raro eu ouvir dizerem que algum texto meu era bukowskiano. O que muita dessa gente não sabe é que boa parte desses textos eu arrancava da minha própria vida. Uma vida bukowskiana pedia uma mulher bukowskiana, sem limites, uma mulher que soubesse degustar da vida a dor e da dor extrair o prazer absoluto. Joy é uma dessas.

        Trancadas as portas, abrimos uma cerveja. O mesmo álcool que pode converter em desastre uma noite como esta, serve também de combustível para acender a fogueira. Queimando vivo. Cabelo loiro, ela se apertava dentro de um serpenteante vestido preto, o branco da pele exposta das pernas, o vermelho do batom em sua boca que pedia… Pede pela minha.

        — Você é uma bomba — eu disse, olhando a imagem distorcida da mulher através do copo de cerveja.

        — Uma bomba?

        — Sim. Uma bomba sexual.

        — E você, o que é?

        — Um detonador.

        — Uau! Cuidado que quando explodo, pode doer.

        — Quem disse que eu tenho medo? A dor e o prazer estão lado a lado. Isto é arte.

        Virei o resto da cerveja e deixei o copo sobre a mesinha perto do sofá. Feito, caminhei até a poltrona onde estava Joy, bela, enluarada, no cio. Tomei-lhe o copo da mão e a fiz levantar, puxando-a na direção do meu corpo. Um beijo mordido. Gosto de batom, gosto de…

        — Me toma agora — disse ela. — Agora!

        Expenitenciei seu corpo do vestido, sem dificuldade: não usava sutiã. Empurrei-a, fazendo-a cair na poltrona e tornei a beijá-la. Agora com mais força, mais gosto, mais cor: vermelho fogo. Acaricio os seios. As mãos dela deslizando em minhas costas, meu peito, meu corpo dela. Deslizei minha boca até seu pescoço, beijo, uma outra mordida de leve, sem deixar marca. Dirigi-me aos seios, a mão direita sobre o esquerdo, minha boca no direito. Minha língua torneando a carne, circulando, circulando até. O mamilo endurecido, o bico, o topo. A língua em movimentos. Mais rápido; outra mordida, de leve, sem marcas.

        Mas desta vez ela reagiu. Ergueu minha cabeça puxando pelo cabelo e acertou-me um sonoro tapa no rosto.

        — Puta! — exclamei.

        E, deixando a fúria me tomar, enfiei a mão por entre a lateral da calcinha e. Um puxão, a calcinha na minha mão, a primeira marca na pele. Vermelha. Ela me olhou com um sorriso maldoso e olhar suplicante, como se dissesse: só isso?

        Arranquei minha camisa, fazendo voar alguns botões, e me ajoelhei em reverência. Você quis assim, pediu, e terá. Tirei-lhe uma sandália, depois a outra e comecei a beijar seus pés: o direito, depois o esquerdo. Seu olhar permanecia o mesmo. Então fui subindo, as panturrilhas, os joelhos, as coxas, a virilha, beijando e beijando suas feridas, pontos-fracos, na ponta da língua o gosto da pele, até alcançar a ferida definitiva. Molhada, sua boceta e cores de uma Madonna de Boticceli. O gosto de uma noite romana. Minha língua imperturbável nos movimentos, meus dedos afundando na carne, mergulhando, afogando no seu segredo. Gemidos, noturno de Chopin, quebrando o silêncio, minha, suas mãos na minha cabeça, assim! Sumo, supra-sumo. Na ponta da língua, até a primeira. A primeira explosão. Na minha boca, os dentes dela mordendo os próprios lábios: outra marca. Olho para seu rosto, seus olhos faíscam quando pergunta:

        — Acabou?

        — Nunca acaba! Sempre é o começo.

        — É? É?

        E ao dizer, ela me deu outro tapa estalado na face. Puta! eu quero tudo agora! Puxei-a pela nuca até a minha boca, caímos no chão aos beijos, rolando, sugando, sentindo. O pau quase explodindo dentro da minha calça colada no corpo nu dela. Rolamos até encostarmos no sofá; eu por cima dela. Parei de beijá-la e a encarei. Cara de safada, sorrisinho malicioso, olhos brilhantes, mulher indestrutível. Empurrou-me, cai, mas antes de tentar qualquer reação ela se apressou em abrir o meu zíper. Decidi deixar; era a vez dela, não gosto de trapaças.

        Sem tirar os olhos dos meus olhos, ela tirou minha calça, sorrindo, e, ainda sem tirar os olhos dos meus, tirou meu pau para fora da cueca e começou a beijar de leve a cabeça. Tentei me mover, mas ela enfiou as unhas da mão direita na minha coxa. Minha primeira marca. Continuou beijando, agora encostando a língua de leve. A mesma mão que me cravara as unhas, agora acariciava minhas bolas, algo que me deixa louco. Solto um gemido, ela percebeu que gostei do toque e, usando mais a língua, pôs-se a lamber agora não só a cabeça, mas todo o membro até alcançar as bolas. Outro gemido e ela se irrita. Num impulso, levanta a cabeça e enfia meu pau dentro da boca e começa a chupá-lo, rápido, forte, profundo. Tesão, gemidos. Mas logo ela pára, me olha sem dizer nada. Tento pôr a mão em seu cabelo, mas ela se esquiva e volta para o meu pau, desta vez o enfiando quase todo na boca até doer. Lágrimas em seus olhos, mas ela continua, novamente em fúria, para baixo e para cima. Sinto que vou gozar. Sim, está vindo. Mas agora não, ainda é cedo.

        Agarro-a pelo cabelo e a faço parar. Me levanto e, erguendo-a pelo braço, beijo sua boca, meu gosto na boca dela, o gosto dela na minha. Minha mão entre suas pernas, meus dedos na boceta em busca do ponto. Ela beija meu pescoço. Masturbo, de leve, mas ela me dá um chupão ardido, outra marca, e eu acelero, deixo os dedos entrarem. Tiro e os enfio em sua boca.

        — Sente? É o seu gosto — digo.

        — O meu eu conheço: quero o seu…

        Não a deixei terminar de falar. Empurrei-a sobre o sofá, abri suas pernas e a penetrei. Com força, desejo, fúria. Minha mão apertando o ombro dela. Joy, minha Joy gemendo por mim e para mim. Tiro o pau por um instante, esfrego-o por toda a boceta e ela diz: me dá. E eu dou. Me inclino até que ela o alcance com a boca. Ela o agarra e chupa. Seguro-a pelo cabelo, assim não, quero sem as mãos. Enfio em sua boca. Tiro. Enfio. Minha mão segurando seu cabelo por trás. Chega.

        Me deitei no sofá, te quero por cima. E ela cavalgou-me por algum tempo enquanto minhas mãos seguram seus seios, descem pelo dorso, as costas. Sim, as costas, te quero de costas, mas não aqui. Na cozinha, a mesa. Caminhamos até lá, ela se debruçou na mesa e eu tornei a penetrá-la. Assim, forte, bem forte. O suor escorrendo pela curvas das costas dela. Me dobro agarrando-a por trás, até conseguir lamber sua nuca. Salgado sexo. Um pouco mais de frente, viro-a, meto novamente. Olhos dela nos meus, nosso suor misturado, uniunidos. Não, não pode acabar aqui. O quarto. Sim. A cama.

        No quarto, ela sobe na cama e, de quatro, diz:

        — Me come, seu puto!

        Enfio de novo, segurando-a pelo cabelo. Ritmo, fluxo. É minha vez, a minha hora. Sua bunda para o meu corpo, oitava visão da arte. Oitava arte, sexo. Acerto-lhe um tapa na bunda, ela geme alto. Acerto outro, sim! Pele branca agora vermelha, inflama. Eu a observo por trás, meu pau entrando e saindo, a bunda, o… Enfio um dedo, dois dedos. Calor de Sodoma. Ela geme mais alto. Minha. Tiro os dedos. Paro. Ela me olha.

        — Parou?

        — Eu que…

        — Anda logo, come meu rabo.                Sim, o amor só fode no rabo. Eis uma prova de amor. Molho meus dedos com saliva e lubrifico a entrada. Enfio novamente os dedos devagar. Depois o pau, com cuidado. Primeiro devagar, depois forte.

        Enquanto a tomo pelo rabo, ela toca com os dedos o clitóris. Nada é capaz de me excitar mais do que a entrega absoluta. Era aquela entrega, meu pau dentro do cuzinho dela, procurando um esconderijo desse mundo que é tão feio. Prazer, dor, amor, vida. Ela, eu, consubstanciais no ato e na arte. Expandindo, explodindo, tesão. Você pediu. Ela geme, gostoso, sim, muito gostoso. Sinto que vou gozar, agora sim.

        Tirei o pau da bunda dela.

        — Vem cá, eu sou seu, e você vai ter tudo até a última gota.

        Ela se ajoelha, me olhando, sorrindo, safada, puta minha, my Joy, e me chupa. Chupa. Claridade, outra explosão. Gozo. Um urro de alegria no meio da escuridade da vida. Sempre agora. Inundo a boca dela com meu amor. Pintura. Arte, obra-prima. Rembrant, Picasso, Miró, Magritte, Boticceli.

        Por amor: a arte do sexo, beleza do que não é puro, o amargo mais doce da vida, razão desta, engaste de desejos infindáveis. Vida esta, que nunca acaba: sempre começa.

        Ela se levanta. Dou-lhe um beijo carregado. Paixão. Ela sorri. Sorrio. Por amor.

 

02 de Fevereiro — 2010

A mais linda mulher da cidade – Charles Bukowski

Postado em Charles Bukowski: poemas e textos., Contos com as tags , , , , , , , em fevereiro 5, 2010 por Fernando Albuquerque

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.

As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos — “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.

O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.

Conheci Cass uma noite no West End Bar, Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade — o que bem pode ter contribuído.

— Quer um drinque? — perguntei.

— Claro, por que não?

Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.

— Me acha bonita? — perguntou.

— Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…

— As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?

— Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.

Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.

Ela me olhou e riu.

— E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?

Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:

— Olha — disse para Cass, — se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.

— Ah, vai te foder, cara!

— É melhor não dar mais bebida pra ela — aconselhou o sujeito.

— Não tem perigo — prometi.

— O nariz é meu — protestou Cass, — faço dele o que bem entendo.

— Não faz, não — retruquei, — porque isso me dói.

— Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?

— Sinto, sim. Palavra.

— Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.

Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:

— Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?

— Amanhã de manhã — respondi, — virando de costas pra ela.

No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.

Deu uma risada.                                     

— Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.

— Deixa pra lá — retruquei, — a gente nem precisa disso.

— Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.

Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional — os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.

— Vem de uma vez, gostosão.

Deitei na cama.

Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.

— Qual é o teu nome? — perguntei.

— Porra, que diferença faz? — replicou.

Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão — uma folha de inhame.

— Sabia que ia te encontrar no banho — disse, — por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.

E atirou a folha de inhame dentro da banheira.

— Como adivinhou que eu estava aqui?

— Adivinhando, ora.

Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.

Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.

— Esses filhos da puta — disse ela, — só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.

— Quem topa o convite já está comprando barulho.

— Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.

— Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.

Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.

— Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.

Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.

— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?

— Que nada, seu bobo, agora é moda.

— Pirou de vez.

— Sabe que sinto saudade — comentou.

— Não tem mais ninguém no pedaço?

— Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.

— Tira esses grampos daí.

— Negativo. É moda.

— Estão me deixando chateado.

— Tem certeza?

— Claro que tenho, pô.

Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.

— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?

— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.

— Então tá. Sorte minha, né?

— Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.

— Muito obrigado.

Tomamos outro drinque.

— O que anda fazendo? — perguntou.

— Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.

— Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.

— Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.

— Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.

Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.

Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada — da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço — grande e saliente.

— Puta que pariu, criatura — exclamei, já deitado. — Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas?

— Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?

Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.

— Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem
de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.

— Se é — retruquei, — estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.

Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.

Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.

— Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!

Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fossemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e ao respondeu, pensativa:

— Não.

Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:

— Uma pena o que houve com sua amiga.

— Pena por quê? — estranhei.

— Desculpe. Pensei que soubesse.

— Não.

— Se suicidou. Foi enterrada ontem.

— Enterrada? — repeti.

Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?

— Sim, pelas irmãs.

— Se suicidou? Pode-se saber de que modo?

— Cortou a garganta.

— Ah. Me dá outra dose.

Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

— MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.

 

(do livro “Crônica de um Amor Louco;
L&PM Editores. Tradução: Milton Persson) 

***

Postado em Outros Autores, Poemas com as tags , , em fevereiro 5, 2010 por Fernando Albuquerque

Há dias que são só partículas
desterro
orgia de cores
difusas
profundas
do meu coração se faz um nó

parece um conglomerado de verve às vezes
uma profusão de cheiros dos quais a existência se compõe

fora isso, esses dias não são nada
foram os dias, restou esse atraso

Paula Fernanda
[
http://andoando.blogspot.com/]

***

Postado em Poemas com as tags , , , , , em fevereiro 1, 2010 por Fernando Albuquerque

cruzo sua esquina com olhar magnético
atraída, ela me dá preferência
eu abro seu sinal fechado
e gentilmente a noite me atropela

—dentro do seu corpo meu corpo
   enfrenta um engarrafamento—

Me and Mr. Chinaski

Postado em Contos, Nonfiction com as tags , , em fevereiro 1, 2010 por Fernando Albuquerque

Eu entrei nesse bar, uma dúzia de cervejas na cachola, uma dose de gim, o dinheiro no fim, nenhuma garota: eu por eu mesmo. Me sentei ao balcão, o barman me olhou com cara de sono e disse manda. “Me vê uma Brahma”, falei. Enquanto isso, do outro lado do balcão, um cara com o olho esquerdo roxo contava uma história a um velho desdentado. Fiquei ouvindo; era sobre uma mulher que ele havia comido, uma puta que pesava 130 quilos que quebrou a cama do quarto dele quando treparam. Esse é um dos meus, pensei, um cara que é capaz de comer uma puta de 130 quilos só pode ser dos meus. Quando o barman apareceu com a cerveja, não resisti e perguntei: “Quem é aquele cara?”. “É o Hank, um desses vermes que bebem até cair e arranjam confusão. Estou cheio desses tipos por aqui”. “Hank?”. “É, Hank Chinaski. Não se meta com ele, é um conselho de amigo”. “Fica tranqüilo que eu só me meto com mulheres, com ele eu só quero puxar papo”. O barman me olhou com uma cara de desaprovação e foi até a pia lavar os copos. Tomei um bom gole da cerveja e vendo que o velho havia tomado o caminho da roça, me levantei e caminhei até o tal Chinaski, que agora apenas olhava dentro da garrafa de cerveja que tomava. Me sentei ao lado dele, não disse nada.

“É bicha?”, me perguntou ele depois de um tempo.

“Não, e você?”

“Não”

“Prazer. Fernando Albuquerque”

“Hum… Henry Chinaski. Fernando é espanhol?”

“Talvez, mas eu sou brasileiro”

“Hum…”

“Tava ouvindo sua história, 130 quilos, muita mulher num corpo só, não acha?”

“É, mas quando você está há 6 meses sem uma boceta, você só vê a BOCETA”

“Certa vez eu fui pra cama com uma que devia pesar uns 100 quilos, também puta”

“E há quanto tempo não trepava?”

“Muito tempo”

“E ela era boa?”

“Uma das melhores que já tive, fazia de tudo”

“Tudo? Até…?”

“Sim, tudo, até isso”

“Preciso conhecê-la”

“Já ouvi falar de você, você escreve”.

“Escrevo. O que acha?”

“Parece que você imita minha vida”

“Ou sua vida imita minhas histórias”

“Pode ser, mas não é minha intenção”

“E você, qual a sua história?”

“Não tenho história, tenho só uma mãe que fode tudo o que tento ter”

“Você é um imbecil então”

“Sei lá, ainda não arrumei um jeito de fugir, ninguém me quer”

“E as mulheres?”

“Tenho muitas e nenhuma. Nenhuma com coragem suficiente para dizer: te quero, vem pra cá agora. Todas querem saber primeiro qual a minha situação financeira”

“E o que você faz?”

“Escrevo, bebo e aposto corrida com o desemprego”

“É, sua vida imita mesmo minhas histórias, mas ainda acho que sua vida deve ser mais leve que a minha”

“Achou errado”

“Já dormiu na rua”

“Já”

“Já ficou muito tempo sem tocar numa mulher que quase se esqueceu como se fazia”

“Já, mas logo vi que era como andar de bicicleta”

“Já passou o dia apenas com uma barra de doce do estomago?”

“Não, não gosto muito de doce, mas já tive que vender até alguns discos pra comprar pão com mortadela”

“Você é um fodido”

“Obrigado”

“Quem vai pagar a próxima?”

“Deixa eu ver…”

Contei as moedas na carteira.

“Eu pago”, falei, “mas depois não tem mais, se você não tiver, acabou a noite”

“Você é um fodido”

“Garçom, traz duas”

E assim findou-se a noite. Fechei o livro e estava tudo acabado. Meus melhores amigos eu só encontro nas páginas dos livros, a vida é fodida demais para alguns, Deus é o maior dos sacanas. Mas eu continuo aí, escrevendo e escrevendo e não ganhando nada para escrever. Fazendo planos e os vendo correr rio abaixo. Mas uma hora, quem sabe.

 

[este foi o primeiro texto que escrevi neste ano de 2010, logo no dia 1o de janeiro, mas por algum motivo acabei não postando. como nunca é tarde para essas coisas, aí está o primeiro suspiro desta fase]

Qual é a cor?

Postado em Contos com as tags , , , , , em janeiro 27, 2010 por Fernando Albuquerque

___ELA ESTARÁ NUA, uma mulher azul esperando por um homem azul. Não, um homem amarelo. Não um asiático, mas um homem amarelo para misturar ao seu azul. Azul e amarelo: eles seriam um casal verde. Verdes na cama, no sofá, na mesa da cozinha e até na lavanderia. Verdes. Cansou-se do azul, sentir-se azul demais, às vezes meio cinza, chorando escondida por causa desse vazio secreto cego aos olhos alheios. Ela também não vê o vazio, mas sabe que ele está lá, ela o percebe, ele está à espreita, sente seu hálito frio soprar na sua nuca. Então ela corre pela casa, desatinada em busca de alguma coisa que alivie, qualquer coisa para expenitenciá-la na sua existência de casa vazia. Uma bebida; lembra do vinho na geladeira, não é dos bons, mas de bom tamanho para com seu desespero. Põe um disco para tocar, aumenta o volume — a música não poderia ser outra: um blues, blue assim, feito ela. Que espera, cria esperanças, desespera. Por quem? Aquele homem que é O homem, aquele para chamar de seu: meu. E que não vai embora depois de comê-la e ainda lhe traz café na cama. Numa hora dessas, além de azul, poderia bem ser uma mulher romântica, quase cor-de-rosa, com sonhos de mulher romântica, sorrindo para um espelho imaginado. Materializa em pensamento a realização: no corpo um pouco mais que o corpo, uma coisa de alma acelerando aquilo que bate dentro do peito, um delírio subcutâneo que não é só de desejo, mas o desejo embutido de algo mais. Ela quer o algo mais e sabe que ele o esconde. Fará de tudo, será uma boa garota, entregar-lhe-á seu carinho, seus sussurros, sua boca e, se preciso for, implorará de joelhos para que ele lhe dê o que é dela por direito. Nada mais do que algo mais. Uma paz incolor, nuvem branca, o pedaço que em algum lugar ela perdeu e, oportunista, ele encontrou e guardou para si. Trapaceiro, ele roubou sua serenidade natural, tirou sua íntima paz intocável, e se impôs seu homem, seu pedaço de gente no seu pedacinho de mundo. O mundo dela que fora tomado para ser o mundo dele. Se sente agoniada, tomada de pavor, coração nuvem de chuva troveja, estala, quebra o espelho. Desliga o aparelho de som porque o silêncio é menos doloroso, e torna a encher a taça. Bebe. Está sozinha e espera pelo que já não sabe se vem e, se vier, se fica. Ele sempre vai embora. Entra por aquela porta, arranca sua roupa e a possui com a paixão de mil homens, depois vai embora, assim, apenas vai. Abandona-a sozinha a lamentar sua solidão em poemas. Ela escreve poesia. Ele escreve prosa. Mas juntos criam na arte a perfeição; é como se a prosa dele trepasse com a poesia dela e gerasse como fruto o desejo real que percorre seus corpos insones. Contudo, a insônia do momento nasce do ventre da ansiedade; ele está atrasado, foi-se embora, me esqueceu, não volta mais. Enche novamente a taça, bebe o liquido de uma só vez e em seguida deixa a taça cair e se estilhaçar no laboriosamente encerado piso da sala — um pouco mais de brilho para agradá-lo, mais suor. Arremessa a garrafa contra a parede. Desvairada, arranca as roupas com fúria, rasga a blusa, estoura os botões da saia, o sutiã, a calcinha, arranca tudo; só não arranca a própria pele porque está colada, mas tem vontade: quer se livrar do que está de fora, quer ser ela. Me quer, me quer? Então ele terá, nua, pronta, aberta, dele. Roxa, odeia ter de esperá-lo e odeia vê-lo partir, quer que ele fique. E se dissesse: fica? Talvez ele ficasse. Mas é provável que não; acordaria sozinha de novo, decepcionada, sentindo o cheiro dele impregnado na sua pele, o cheiro que não sai da pele que não sai. Não pode mais vê-lo, decide-se. Ele é mau, ele é nocivo, ele não presta… — neste momento, ela escuta alguém bater à porta — …mas só ele me completa: meu. Põe-se a caminhar cheia de elegância, passo lento, medido, pisando cuidadosamente descalça sobre os cacos de vidro da taça como faria uma princesa, deixando marcas vermelhas no chão, até a porta. Abre, desse jeito, nua, os pés ensangüentados de caminhar seu calvário. É ele, só podia ser ele. E ela está pronta para mais um sacrifício de amor. O sangue é apenas um aperitivo do que restará dela quando ele for embora. Agora ela é uma mulher vermelha, nua, sorrindo para o seu carrasco.

 

23 de Janeiro — 2010

Sufocação

Postado em Nonfiction, Poemas com as tags , , , em janeiro 19, 2010 por Fernando Albuquerque

[nonfiction + devaneio sado-masoquista]

para C.

Eu tive um sonho
Ela era uma mulher real.
era talvez um sonho,
Ela disse: não tenha medo.
Eu disse: mas você é tão… poderosa
(e tentei perder o medo).
eu não sou má, Ela disse, tenho cara de má?
é bonita de doer, só sei disso.
eu posso ser Sua, me dê o vinho, a cama, ponha o disco de Marvin Gaye e…
mas você não é real.
…SOU (e não temo que você seja um assassino) SUA
é você que pode me matar.
só se for sufocado.
se é assim, que me mate, eu não me importo:

Meu rosto em Suas partes íntimas. Meu pescoço entre
Suas pernas. Meu peito nu sob
Seus pés descalços
———————— SUFOCAÇÃO — Eu permito
marcas na pele
um pedaço Seu num pedaço Meu
que ADENTRA o que é                      Seu —
Seus lábios                  dedos              Suas flores
queimam no INFERNO do Meu corpo Seu
orvalho na ponta da               Minha língua
Minha semente na ponta da               Sua

FLUIDOS, FLUXOS: acordo suado
Seu corpo Meu corpo acorrentados
Sua pele fundindo-se à Minha pele
desejo de dar nós em NÓS
(percebo que não era sonho)
de imediato me encaixo
nas coxas desse amor que passa
com sabor de vinho tinto
ao som de Marvin Gaye.

14 de Janeiro — 2010

EU TE AMO

Postado em Contos com as tags , , , , em janeiro 13, 2010 por Fernando Albuquerque

“É o seguinte: deve haver uma palavra que, uma vez dita, muda o mundo…” (Arnaldo Jabor: Eu Sei Que Vou Te Amar)

 

A luz fria de neon do letreiro do hotel indica só mais alguns metros e estarei no prédio onde você mora, caminho, me apresso, suo — chego. No hall de entrada o porteiro já me conhece, digo que vim vê-la não precisa avisá-la, e camarada ele me deixa subir sem pedir sua autorização, é certo que não sabe que estamos brigados sem nos falarmos há duas semanas e menos ainda que as coisas já não iam bem há meses e não sabendo ele lhe trai abrindo caminho para que eu lhe surpreenda vulnerável, sem discurso preparado às vésperas ou ansiedade de espera. Pode parecer jogo sujo, mas na iminência da perda vale tudo, achei melhor não marcar e, sem aviso, pegar você, assim, desprevenida; pode ser que minha ofensiva funcione melhor se lhe pegar desarmada. Ignoro o elevador, nunca tive paciência para esperar as coisas chegarem, então faço ao meu tempo, subo as escadas, dois degraus por vez, até o quinto andar, o seu andar. Enxugo o suor da testa com as costas da mão, respiro fundo, solto o ar pela boca e me arrependo de não ter fumado um cigarro antes de entrar no prédio, agora não é mais tempo, é hora, bato na porta, espero… espero… espero e. Enfim escuto você mexer na maçaneta, deve estar se perguntando quem será a uma hora dessas, meu coração dispara, quase me arrependo por ter vindo, um arrependimento desses que só se sente quando nos aproximamos da conseqüência de uma atitude que tomamos inconseqüentemente: e se…? na rua eu não pensei em nada disso, a gente nunca pensa, nenhuma hesitação na rua, nenhuma hesitação no metrô, nenhuma hesitação em casa quando me apertou no peito a vontade de vê-la e eu apenas saí e vim sem me perguntar se devo. Mas agora, agora tenho medo, mas não posso ter medo, preciso estar seguro ou, pelo menos, parecer seguro aos seus olhos caso contrário fico mais vulnerável que você e no findar desta batalha acabo perdendo a guerra. A porta abre, você está só de baby doll, por um segundo sou pego pelo ciúme, atendeu a porta assim, e se fosse outro e não eu? mas nada digo, apenas olho para você. Ao me ver, você tem a boca entreaberta, o cenho franzido, as sobrancelhas levantadas, os olhinhos tristes agredidos pela visão surpresa de me encontrar ali, justo eu, e você diz:

        — Você…

        Como que desapontada ou prevendo outra briga, uma chateação, mais lágrimas, mas o que você ainda não sabe é que para esta guerra eu vim em missão de paz.

         — Sim, eu. Esperava outra pessoa?

         — Não, mas você nem avisou que viria… você sempre avisa.

         — Desta vez é diferente.

        — É, eu sei. Talvez a gente precise mesmo conversar, entra, quer um café? uma bebida? eu preparo pra você.

         — Não precisa me tratar como se eu fosse um estranho, você sabe que eu sou…

        — Eu sei, você é de casa ou pelo menos era. Eu não estou tratando você como um estranho, só estou sendo educada.

         Aquele ou pelo menos era me atingiu em cheio feito um tabefe na cara, então você tem dúvida? e essa incomum educação, formalidade, coisa que nunca existiu entre nós, nem quando ainda estávamos nos conhecendo. Percebo que as coisas podem estar piores do que eu imaginava, atendeu a porta de baby doll, justo esse baby doll cor-de-rosa que eu adoro tirar, o meu baby doll e abriu a porta com ele mesmo sabendo que podia ser qualquer outro que batia, um estranho qualquer. Talvez na sua cabeça eu também tenha me tornado igual a eles, nada mais do que um estranho. Mas agora estamos aqui, na intimidade deste apartamento que também já foi um pouco meu… Foi? não: ainda é, você ainda é minha.

        — Não precisa ser educada, somos íntimos.

        — Desculpa. Eu não quis te ofender.

        — Você está diferente.

        — Talvez. As duas últimas semanas foram… não sei, foram estranhas, acho que andei endurecendo por dentro.

        — As duas últimas semanas também foram duras para mim.

        Me ajeito no sofá e não consigo deixar de me lembrar que por inúmeras vezes santificamos este estofado com o suor de nossos corpos entrelaçados, nosso sofá sagrado e a santidade do nosso sexo, o cheiro da nossa união impregnado no couro, o calor que persiste em queimar, é só tocar nos assentos, no encosto, em cada uma das almofadas e o fogo ainda está — o nosso fogo.

        — E então?

        — Então o que?

        — Não sei, se veio até aqui, deve ter algo para me dizer, não?

        — Sim, tenho. Eu tenho um monte de coisas para te dizer, mas percebo agora que é tudo perda de tempo, formas te enrolar, te amaciar, preparar o terreno porque na verdade eu só tenho mesmo uma única coisa importante para dizer…

        — As coisas mudaram… talvez uma coisa só não baste agora e é possível que você tenha perdido seu tempo em me procurar.

        — As coisas mudam, é fato, mas a gente tem que acompanhá-las, mudar junto. Percebo que está mudada.

        — Eu estou, mas e você? o que irá me convencer de que você não continua sendo o mesmo, aquele cretino que eu tanto amei, que eu desejei, mas que no final acabou se tornando só uma parte da minha rotina… você sabe, há meses que tudo está desandando e eu não tenho conseguido ser a mulher feliz de antes, você entende?

        — Eu ainda sou o mesmo cretino que você deseja e ama, a vida é uma merda, baby, tudo acaba virando rotina se a gente deixar. No momento que escolhi você para amar dentre tantas e quis você para minha mulher, acha que eu não quero fazer você feliz? a consciência do fracasso me destrói, retorce tudo aqui dentro, dói, porque eu fui pequeno demais, me perdi no tempo e nos últimos meses me deixei causar este lapso no seu sorriso, o sorriso pelo qual vivi os últimos três anos. Nós éramos dois rios que se encontraram e, desaguando juntos, fizemos o mar, mas chegou um dia que a distância nos fez dois oceanos divididos por um continente: agora é preciso derreter a geleira que paira sobre sua vida para que voltemos a nos encontrar para continuarmos a ser um só.

        — Suas palavras não servem agora, eu já disse: andei endurecendo por dentro, como você disse, é a geleira.

        Um erro, talvez tenha sido um erro ter vindo, mas eu também não podia deixar, não posso, a distância me agride, sem você sou só um pontinho no meio de uma multidão de pontinhos que de nada servem. Andou endurecendo? congelando? pois bem, minha missão é amolecê-la de novo, pelo menos para mim, como era antes, os outros que se fodam, pois se preciso me faço até sol, o sol do seu corpo. Acendo um cigarro, você está sentada na poltrona em posição de semi-lotus, as coxas brancas e gordinhas, as batatinhas arredondadas, os pezinhos delicados, o baby doll… não sei como é possível… talvez eu seja mesmo um cretino, mas ainda que nesta tensão desejo você, começo a ficar com tesão…

        — Mas você é a minha jóia, é o que tenho de mais caro.

        — Acredite, você também significa o mesmo para mim, mas não dá mais. É melhor você ir embora, não vê que é difícil para mim? me ajuda vai, me ajuda a te esquecer.

        Jamais ajudaria. Você é minha, me pertence como eu pertenço a você. Não é só apertar só fechar a tampa da privada e apertar o botão da descarga que eu vou embora, eu sou um merda, mas eu…

        — Não ajudo… eu fico, eu te quero, eu te…

        — Não diga! por favor, não diga.

        — Decidiu ficar surda agora?

        — Talvez sim, para você, para o amor…

        — Se precisar eu grito.

        Gritaria alto para estourar seus tímpanos, dar-lhe-ia um tiro, um choque, jogaria seu corpo pela janela, qualquer coisa que fizesse você parar de respirar e, assim, voltar a implorar pelo meu fôlego, a minha boca soprando na sua, dando-lhe vida.

        — Eu não escuto, eu sou uma estátua de sal.

        — E eu o mar, você nasceu de mim, das minhas entranhas eu pari você para me fazer feliz. Não se volte contra mim agora, você sabe que não há como negar, eu estou marcado na sua carne, eu sou seu sangue, estou no que há de melhor em você.

        — Eu preciso de você? o que você é? a língua na minha virilha nos momentos de solidão? eu não quero, tenho de aprender a conviver com a solidão.

        A imagem da minha língua na sua virilha serve de catalisador para minha excitação, sinto a braguilha apertar, meu olfato pede seu cheiro, quero seu gosto, mas você está longe… longe… me mostre como faço para alcançá-la, preciso alcançá-la antes que eu queime até virar cinza e desaparecer.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

        — Aprenda, mas a sua solidão e a minha solidão são bem mais agradáveis quando estamos juntos, dividindo o mesmo prato, dividindo o cobertor, o sabonete… As músicas da Sarah McLachlan vão doer se eu não estiver por perto para escutá-las com você.

         — Eu sei, não vou mentir para você, nunca precisamos mentir um para o outro: eu sinto falta de você dentro de mim e sei que vou continuar sentindo por um tempo, meu corpo é vazio sem você dentro dele, minha pele é morta sem sua boca, meu seio sem seu toque, mas…

        — Você não é igual as outras, então não tente parecer com as outras… não se finja de comum, porque você não é comum, você não é vulgar…

        — Eu sou, sou comum, vulgar, ordinária, você é que não consegue ver, me idealiza uma princesa quando eu não passo de uma gata borralheira comento o resto dos pratos que tive preguiça de lavar depois do almoço.

        — Eu olho você como uma mulher, não uma princesa. Uma princesa não me interessaria, uma mulher sim e você é a mulher.   

        — Sim, uma mulher como as outras com as quais você pode se virar sem mim.

        — Não! não é assim, você é mais mulher que qualquer outra, eu fiz você assim e você me fez mais homem, com você aprendi a orgulhar a barba que cresce na minha cara, os pelos do meu peito, o pau que eu tenho dentro da calça e que me machuca toda vez que olho para você nesse baby doll sem poder tocá-la, porque meu pau não é um pau se nele não tem a marca do seu batom…

        Silêncio… vejo seus olhos marejados, uma reação desesperada do seu coração contra seu cérebro insensato que tenta me tirar dele. Devia entender que não existe razão, no amor e no sexo tudo é entrega, inconseqüência, como a fome do pão que é a fome do corpo, não se pensa, apenas se sente, senta e come.

        — …

        — Vai conseguir viver sem isso?

        — Do que? seu pau na minha boca?

        — Tudo.

        — Eu supero. Tem uma coisa que ainda não te contei…

        — O que é?

        — Semana passada eu saí com um cara… eu não sei o que passava comigo, eu estava perdida e a gente saiu, fomos prum bar, depois… depois eu fui pra casa dele…

       Uma marretada no peito, trêmulo acendo outro cigarro: a imagem de outro homem dentro daquela mulher que é minha, essa invasão de propriedade privada, esse assentamento ilegal no corpo alheio. Meu estomago se revira enquanto sinto a garganta apertar com um choro contido… Mas não choro, não expresso reação, porque no jogo bélico do amor não se pode fraquejar, é preciso ser duro, homem.

      — E o que achou?

       — Como assim, o que achei? Não se importa, dormi com outro e não se importa e ainda quer saber o que achei?

       — Importar eu me importo, mas não vou matar o cara se é o que espera, você não merece que eu perca nada por você, menos ainda a minha liberdade. Diz logo, o que achou?

        — Bem, ele não é você… você sabe amar como nenhum outro homem que conheci, seu amor é único. Parece que só consigo sentir desejo com você, você conhece o meu sistema, sabe mexer nos meus fios, me faz ficar molhada só de me olhar, esse olhar mágico sisudo que você tem…

       — Então esqueça isso e não faça de novo, cala a boca e pára de falar bobagem, vem logo pra este sofá pra que eu possa fazer você lembrar quem é seu homem…

        — Não dá! desculpa, mas eu não posso.

        — Se ainda me deseja, por que não dá?

        — Porque eu sou uma vadia, você sabe disso, você me quis assim, eu gosto do cheiro do seu suor, gosto do seu corpo encaixado no meu quando dormimos, gosto da sua boca na minha, da sua mão firme apertando minha coxa no meio da noite, sua língua deslizando pela minha pele, no meu pescoço, nos meus bicos, na minha boceta até que eu veja estrelas, gosto de sentir seu pau dentro de mim… que me faça gozar… gosto quando goza em mim como se gozasse na cara da lua… a lua que eu sei que você adora…

        — Resolveu me torturar agora? acha que eu…

        — Eu sou uma vadia, uma cadela!

        — Mas eu prefiro você a qualquer vira-lata.

        — Eu sei que prefere, eu sei, me perdoa, mas eu tenho medo, me tornei medrosa, tenho medo do futuro, me tornei fútil, gosto das coisas fáceis e estar com você é me arriscar, tenho medo que isso cresça demais ao ponto de fazer minha queda ainda maior… não dá! por favor, vai embora.

        E dizendo isto, você vai se levantando e caminha até a porta para que eu saia. Eu a sigo em silêncio, os olhos baixos e paro no lado oposto da fechadura da porta e espero você destrancá-la. Você gira a maçaneta, mas antes que abra a porta por completo eu penso que tudo isso que você disse é bobagem, besteira, lixo e que você é mesmo uma cadela, uma vadia, uma puta idiota, mas é a puta idiota que eu escolhi para deitar na minha cama todas as noites até o fim do mundo e, assim, intercepto, com um soco, a abertura da porta que bate num grande estalido. Em seguida seguro você pelos punhos e a empurro com força contra a parede olhando direto em seus olhos há cinco centímetros do seu rosto. Consigo sentir sua respiração ofegante na minha boca, escuto as batidas do coração dentro do seu peito, você está viva e não morta como esteve tentando me convencer. Viva e me olha assustada, talvez eu queira matar você, talvez eu tenha enlouquecido, mas você não diz nada e eu não digo nada, ficamos apenas nos olhando, nossos rostos quase se tocando, enquanto você força os braços presos pelas minhas mãos, mas eu sou mais forte que a sua insistência em jogar tudo fora. E por fim, dando-me por vitorioso, consciente da minha superioridade nesta hora, digo:

        — Fala!

        — …

        — Fala!

        — O quê?

        — Fala!

        — Eu não sei o que.

        E como resposta, passo a segurar seus braços com a minha mão esquerda enquanto com a direita abaixo seu short e, com um puxão, rasgo fora sua calcinha deixando um vergão na sua pele.

        — Tem medo agora?

        — …

        — Tem?

        — Não.

        — Então fala!

        — Eu quero.

        — Continue…

        — Eu quero que fique, que me possua e venha morar dentro de mim, eu te…

 

08 de Janeiro — 2010

ecos no quarto 1:33AM

Postado em Poemas com as tags , , em janeiro 10, 2010 por Fernando Albuquerque

bebo gin
imatizo a ação
imã-gin-ação
covardia não basta
_______________basta
renascer
_____e ser
refaço
___o laço
fluxo de noite-dias de nada
___________________calada
__________________noite nado
no complexo de morte
____________tento a sorte anunciada
____________________________a cada
refim de ano
_________a ano
o mesmo spleen
sem sim só sin
beatitude sins
no óbvio na veia na via
que me cega
_____e me nega
o sonho
que me sonho
idealizo isso
_________ isso
quando ando ando
___________pensando
demais sem mais
e amo
o que não ama
não te’mo diz
mas eu quero
___________kero kerouaciando
à luz da cachaça
_________ que assa
meu peito
__desse jeito
& sem parar rio
__________no Rio em mim eu vou
quando quando?? não
_____________diga não
______escuto mesperentão—não
desespere-me!
longitude & solitude
ansiedade
desde a idade 16
e outra vez/e outra/e outra
sem culpa
meaculpa minhaculpa
digo na janela
__________a ela
não demore (tudo) morre:morre
everything dies baby that’s a fact
but everything that dies
someday comes back
só volta mais sad
________e tanta sede
eu ando tão tão:
__________eu tão
____________só tão
_____________sem tão des
desatino
____o atino
desfio-me aos fiapos
__________meus trapos
no céu/seu canto
________no entanto
__________não encanto
não canto nenhum
hino
ou hino-cência
hipocondria hipotensão
hemorragia:
­­______ou emorragia
______simbiose de solidão
com loucura um
_______gatilho um
____________tiro um
______________saco um soco
e tudo volta ser como antes
_____________antes de eu ser oco
me muero!
mesqueço
que dói-dói
t’esperar m’esperando
vivendo assim um tanto tango
____________endoidando
dia-noite enredado n’alma
quando já não tenho mais calma —
farto:
ou parto
ou me parto,
eis o meu drama
_____________ama ama
_________________ME AMA!!!

Cagada Natalina [história perversa]

Postado em Contos, Nonfiction com as tags , , , , , , , em janeiro 10, 2010 por Fernando Albuquerque

ela disse: “vem aqui que eu quero mostrar uma brincadeira nova”, e eu fui, isso mais ou menos uns dez anos antes da véspera de natal em que meu intestino me traiu.

       sem ter com quem passar o natal, o dinheiro faltando, acabei me rendendo pela última vez à minha família e aceitei o convite para passar a data com eles numa chácara que um tio velho meu alugara. todos estavam lá, os desafetos, as mágoas, os mentirosos, os inquisitores… mas vamos lembrar que era natal e as conveniências pregam que deve-se ter espírito natalino, e de conveniências esse povo entende muito bem, mesmo que de fato eu fosse o filho bastardo da vez, o incompreendido. sorrisinhos amarelos, abraços frouxos, beijinhos há 5 centímetros do rosto, como você tá, nossa, está bonito, gostei da barba, e esse lero-lero sem fim. eu engoli, feito puta das boas, chupei tudinho sem engasgar, tudo pela boa comida e principalmente pelos rios de bebida que essas festas costumam ter — falo em uísque escocês, barris de chope holandês, cerveja importada, vinho do porto, vinho verde, francês, cachaça de primeira e latas intermináveis de energético e caixas de água de coco para rebater. esse luxo todo que só faz eu me perguntar: como fazemos parte da mesma família se eu, parente tão próximo, às vezes não tenho dinheiro nem pruma garrafa ìntragável de Velho Barreiro? Brasil desigualdade.

         a chácara era grande, luxuosa, fora da cidade, com piscina, sauna, mesa de sinuca, pebolim, tevê à cabo e banheiros em todos os quartos. a noite da véspera correu bem, muito samba nas caixas de som, torneio de sinuca (é claro que eu perdi), baralho, altos papos e risadas ébrias, como se aquela ainda fosse a minha família, até ganhei presente. sem contar a bebida e o rango; comi e bebi como se fosse meu último dia na terra (quem sabe não fosse) tentando esquecer que não poderia viajar no reveillon, que deixaria uma garota me esperando de coração partido em algum lugar louca pelo meu toque e a infelicidade dessa vida sem rumo. quando fui dormir já passava das 5hs, já que eu sempre sou o último a cair quando a bebida é farta e de graça.

       mas uma hora aquele exagero todo tinha que bater, e eu não falo da ressaca desgraçada que me pegou logo pela manhã (quando você bebe, o uísque é o seu melhor amigo, seu cachorro engarrafado, quando amanhece esse mesmo cachorro lhe vira os dentes e morde doído, bem nas têmporas), falo das necessidades naturais de todo ser humano que ingere alimento. eu estava jogando uma partida de sinuca, óculos escuros para evitar a claridade, quando senti meus intestinos se revirarem e pedirem pela privada. entreguei o taco e lá fui eu me apressando pelos corredores até alcançar o recinto sagrado que me proporcionaria o milagre do alívio. entrei no banheiro, percebi que a porta não trancava. puta merda, esse luxo todo e uma tranca que não presta justamente no cagador que eu vou usar, mas não me importei — quando a marmota já está botando a cabecinha pra fora da toca, ninguém se importa com essas coisas, melhor cagar de porta aberta que nas calças —, abaixei as calças e me sentei no trono. ah, que felicidade, pelo menos isso eu ainda consigo realizar. só que o primogênito não tinha sequer acabado de passar pelo anel e vir à luz e eu escutei alguém mexendo na porta, que ficava uns dois metros da tampa estofada onde minha bunda se aconchegava. nem deu tempo de pensar: porra, será que estavam me seguindo, esperando de tocaia eu entrar só para me pegar no flagra? a porta se abriu. era minha prima, justamente aquela que anos atrás me convidou para uma brincadeira diferente, a mesma com quem, por outros motivos, eu não falava, sequer cumprimentava há anos.

       ela abriu a porta e lá estava eu na minha pose majestosa dando ao mundo o que para mim já não servia. e ela ficou ali parada, sem reação, surpreendida pela nobreza da minha cagada. eu também não tive reação, também a olhava, olhos arregalados, como que pego no flagrante de um delito imperdoável. silêncio de túmulo. ela me olhava sem dizer nada, apenas olhava enquanto eu a olhava, e aquele momento, tenho certeza, não durou mais do que 10 segundos, mas segundos tão longos como horas, anos, mais ou menos 10 anos, tempo suficiente para fazer funcionar a máquina do tempo das nossas memórias mais intimas. ela não disse nada, mas eu sei o que se passou dentro daquela cabeça de mulher feita: “ele, o pau na minha boca, o gosto amargo do primeiro pau chupado, a boca dele na minha, a língua dele na minha bocetinha molhada, a saliva dele misturada ao suco de lembranças do meu grelo, meu gozo virgem estremecendo na ponta da sua língua; e agora ele ousa cagar na minha frente numa intimidade que nem um marido ousaria”. e eu também pensei nisso e de uma maneira esquisita, até senti desejo, desses de revisitar o passado, limpar a bunda, puxá-la pra dentro do banheiro, abrir o ziper da sua calça, arrancar sua calcinha e em seguida descobrir se aquela boceta ainda tem o mesmo gosto da inocência que eu perdi, pegar-lhe pelo pescoço e, com meu punho fechado em seu cabelo castanho-claro, conduzi-la até o chão, deixando-a de joelhos com o meu pau duro no seu rosto, dizer CHUPA; gozar em sua boca e me deliciar com a imagem da minha porra escorrendo dos seus lábios, os primeiros que beijei, os primeiros que tiveram dentro a rigidez do meu membro. e, quem sabe, pela primeira vez provar também com o pau o gozo daquela boceta, que há tempos não é mais virgem, que tem um filho e bebeu a porra de outros homens e não a minha.

       mas ela fechou a porta, assim, sem palavras e eu não fiz nada. terminei de cagar saboreando a idéia do que eu poderia ter feito e não fiz, depois tomei um banho, a porta ainda aberta, e bati uma punheta carregada de nostalgia. esguichei no azulejo da parede com a mesma intensidade que esguicharia na boca dela, na boca da garota que eu deixei esperando em algum lugar, na boca de qualquer uma que eu deseje sem limites.

        quando saí do banheiro, a encontrei na sala, mas nem nos olhamos. voltei a beber, dezenas de latas de cerveja, dois barris de chope, uma garrafa de Chivas Regal bebida com água de coco em meio às piadas e lembranças em menos de 3 horas, eu e dois tios velhos fazendo-se de amigos, como se as coisas ainda fossem tão boas quanto eram quando eu era só uma criança. mas quando anoitece e o efeito da bebida começa a passar, lembro que o espírito natalino morrera há anos, mais ou menos na mesma época que descobri que meu pinto não servia só para mijar, e tudo mudou, agora sei o que é ser o rejeitado, o membro bastardo da família idiota onde me jogaram sem perguntar a minha opinião, sinto a tristeza se misturando à ressaca que se aproxima e me vejo só: penso nas viagens que deixei de fazer, nos lugares que poderia ter conhecido, as garotas que deixei de encontrar, os beijos não dados e todo o sexo perdido só porque queriam fazer de mim um santo, e eu sei que nasci para o pecado — e deve ser por isso que Deus me odeia. me lembro que a vida é uma merda e que os filhos da puta, como eu, aqui não têm vez.

        me levanto do canto onde havia me sentado para pensar e vou embora levando comigo, além das minhas coisas, um dvd de um cantor que gosto o qual furtei da coleção do meu tio antes de sair. eu não voltaria.

 

28 de Dezembro — 2009

Little Joy

Postado em Poemas com as tags , , , , em dezembro 21, 2009 por Fernando Albuquerque

ela bebe comigo no mesmo copo.
ela mordeu a maçã podre
que eu mordi.
ela queima comigo na mesma chama

mas ainda não dividimos a mesma cama.

ela sonha meus sonhos de amor
embriagada pela minha cerveja.
ela me abraça no travesseiro
enquanto beijo minha fronha

mas ainda não dividimos a mesma cama.

ela pede que eu lhe dê:
sorrisos sussurros gemidos
e eu tenho sede do seu suor
dos fluidos do seu amor,
ela do meu sêmen;
ela está nua, aberta e pede —
eu tiro a roupa e a sinto na pele, digo:

quero provar o sexo do teu corpo
enquanto trepo com sua alma

mas ainda não dividimos a mesma cama.

é a mesma velha história:
ela tem uma boceta vazia
eu tenho um pau descoberto
e compartilhamos a distância,

mas ela gosta da minha canção triste
e dança comigo de olhos bem fechados
nossos corpos grudados
seu cheiro se misturando ao meu

ela não me vê e eu não a vejo
mas estamos em sintonia
numa confluência de desejos cegos
porque eu quero o que ela quer
e eu sei o que ela quer

só não dividimos a mesma cama
ainda.

21 de Dezembro — 2009

Fotografia

Postado em Contos, Crônicas com as tags , , , , , , em dezembro 18, 2009 por Fernando Albuquerque

Baixou os olhos por um instante e em seguida tornou a olhá-la estendida no chão da sala, como que arrependido daquilo que lhe fora inevitável. De fato, preferia que tivesse acontecido de outra maneira, que ela o tivesse sabido escutar; no entanto, num gesto desesperado, ela tapou os ouvidos e assumindo para si a conseqüência de uma possível queda, pôs em risco o equilíbrio do mundo antes tão estável. Mas o que mais o incomodava, era que mesmo caída, derrotada, vulnerável, numa insistência irracional ela ainda mantinha intacta a expressão de quando se conheceram: o brilho nos olhos, o sorriso que outrora fora de encantamento, de que seria agora? Talvez de escárnio, presumia ele, ou, quem sabe, um jeito sarcástico de lhe atirar nas fuças a certeza de que, ainda que no fim de tudo, ela se sentia melhor do que ele.

___Mirou cada detalhe do rosto dela e era inacreditável que ainda se mantivesse assim tão inalterado; a beleza jovial que anos atrás o seduzira num primeiro olhar, os olhos da cor do Atlântico, a pele macia que tomado de desejo ele ousou tocar e a boca que ela um dia abrochou para que ele pudesse beijá-la. Tudo, tudo no mesmo lugar: inalterado. Sentia-se pequeno na luz que irradiava do holofote de vida que era o rosto dela, enquanto sua própria vida, desde o adeus, evaporava de seu corpo pouco a pouco, lenta e dolorosamente.

___Na agonia do momento, não entendia como ela ainda conseguia parecer tão viva, tão iluminada, se é provável que por dentro estava tão morta quanto ele. E mesmo morta, a imponência daquele rosto de pedra ainda o atraia, pois era idêntico, esculpido com o esmero e o suor de um artista: obra-prima, a face exata que ele, em sonhos, idealizara do amor. Não era apenas o rosto de uma mulher — desde que a viu primeira vez ele sabia, não se tratava de uma, era ELA, e isso não mudou: ela ainda era ELA. Queria correr, mas as pernas o traiam, e quando mais ele a via se afastar, tornando-se a cada passo um pouco mais ausente, ainda mais forte ele sentia as células do seu corpo tornando-se magnéticas, atraídas na direção dela, como um cão que, tomado de coragem, retorna à casa onde foi maltratado para desenterrar o osso que por direito lhe pertence.

___Ela era o seu osso; tomara de posse o seu amor e, deste modo, por direito, ela lhe pertencia. Naquele rosto deitado no chão da sala jaziam os ossos do seu amor, e ele precisava desenterrá-los para poder trazê-los de volta à vida. Para voltar a se sentir vivo e não ser mais este morto-vivo agonizante, envelhecido pela tristeza causada pela ausência da outra parte, a parte que era dela, mas que também era dele. O rosto que era dele, os olhos que eram dele, a boca que era dele, o corpo, os sussurros, a respiração, o sorriso e até as lágrimas dela eram dele, só a ausência não era; esta, ele não podia suportar.

___Agarrou, de súbito, o telefone na mesinha ao lado do sofá e discou o número da casa dela. Deu ocupado. Esperou um minuto, mais outro e discou novamente. Outra vez ocupado. Esperou mais oito minutos e tornou a discar: — tututu… ocupado. Decepcionado, pegou a fotografia caída no chão, deu uma última olhada no rosto imutável e em seguida a rasgou ao meio e pôs fogo numa das metades. A outra, ele guardou na carteira.

18 de Dezembro — 2009

um idiota

Postado em Contos, Nonfiction com as tags , , , , em dezembro 10, 2009 por Fernando Albuquerque

houve essa garota que me atraiu pelo nome. foi na época da minha fuga, pouco depois de perder aquela que eu acreditava ser o amor da minha vida. romantismos à parte, eu andava desacreditado do mundo, procurando respostas e razões para continuar nele, escutando sem parar o samba “Preciso me Encontrar” e, tentando me encontrar, parti para São Paulo, sem avisar a ninguém, e lá fiquei por algum tempo escondido, tendo contato apenas com pessoas que eu acabara de conhecer.

era uma garota bonita, tinha um beleza exótica, olhos grandes, como aquelas mulheres que a gente vê nos filmes franceses antigos, e se chamava Lavínia. havia qualquer coisa com esse nome que me atraia deveras. sempre tive muito essa coisa de ser atraído por certos nomes, e até então eu não havia conhecido nenhuma Lavínia. era a minha primeira Lavínia e, quem sabe, não poderia ser a definitiva, pensava eu, com o coração em frangalhos depois de meia-dúzia de romances de 3 minutos, o que inclui aquele recente grande amor perdido, e a sobrecarga de uma fase de garotas de uma só noite e adeus.

eu a conheci pela indicação de um amigo que a conhecia pela internet. ele disse “ela está procurando igual você” e isso me agradou um bocado. na época, ela tinha dezoito, quase dois anos mais nova que eu. bonita, parecia inteligente e estava à procura: para mim, era um bom passe dentro da grande área.

“você bebe?”, perguntei a ela no nosso primeiro encontro.

“um pouquinho, vinho , talvez cerveja”

“vamos beber em algum lugar, então?”

“você é quem sabe, por mim não faz diferença”

me era estranha a forma que ela falava. tinha um tom de voz duro, parecia não ter nenhum tipo de emoção e assim jamais se sabia se ela estava contente ou incomodada. era por demais fria. fria não, era GELADA e ardida, como um cubo de gelo seco entre os dedos da mão.

fomos para um bar, já não me lembro ao certo qual, só sei que era na Brigadeiro. pedi vinho, já que parecia que cerveja não a agradava muito. enquanto conversávamos, ela parecia desinteressada, na maioria das vezes me lançando respostas monossilábicas com a mesma frieza dopada de antes. perguntei sobre livros, se gostava.

“sim. você é escritor né?”

“venho tentando”

“li algumas coisas suas”

“e?”

“é bom”

“do que mais gosta?”

“como assim?”

“além de livros, gosta de alguma coisa, não?”

“sim”

“do que?”

“filmes”

“hum, que tipo de filmes?”

“os bons, antigos”

“isso é bom. música?”

“sim”

ficamos nessa até eu me cansar. tentei dar indiretas, jogar branco para chegar ao assunto namoro e isso parece tê-la animado um pouco, apesar de ela ter mantido a frieza.

“eu nunca, você já?”, perguntou ela.

“sim, algumas vezes, mas não me dei tão bem quanto esperava”

“hum, e vocês transavam?”

não entendi bem o propósito da pergunta, mas mesmo assim respondi:

“bem, claro”

“espera que dê certo comigo?”

“eu sempre espero. e você? acha que pode dar em algo?”

“se eu não achasse, eu não estaria aqui, mas você deve ser igual aos outros, vai sair correndo, me esquecer. estou perdendo meu tempo”

“hei, mocinha, espera aí, quem disse isso? eu não sou como você está pensando não”

“provavelmente é sim”

e sem ter mais para onde me esquivar, me levantei, segurei-a pelos braços e a levantei da cadeira. olhei dentro de seus olhos e perguntei se ela achava mesmo isso de mim, mas sem dar tempo para qualquer resposta, eu a beijei, foi mais ou menos como beijar uma estátua. ela ficou ali, estática, enquanto minha língua se embaraçava com a dela em sua boca. fiquei irritado.

“você não está afim, quem está perdendo tempo sou eu. estou indo embora.”

e ao dizer fui saindo, mas ela segurou meu braço direito e, olhando no meu olho com um olhar de cachorro com fome, falou:

“eu estou. fica, por favor. eu quero, quero muito, só não estou acostumada”

eu fiquei. ela se forçou a falar um pouco mais, me falou sobre filmes, música, livros, sobre o que tinha lido meu, sobre tristeza, solidão… a solidão dela era imensa, sem tamanho, dessas de estar só no meio de um multidão. e a solidão dela se parecia muito com a minha e, assim como eu, ela só queria fugir dela. disse que não entendia porque nenhum homem queria ficar com ela., mesmo assim permaneceu a maior parte do tempo fechada.

 

começamos a nos encontrar quase que diariamente. também nos comunicávamos pelo internet, mas ela continuava a manter aquela distância defensiva que eu jamais entenderia. nos beijávamos, ficávamos juntos e tínhamos um relacionamento de namorados, só não transávamos. às vezes ela sorria, parecia estar bem, mas sempre que podia voltava a demonstrar insegurança. eu simplesmente não me importava, se ela queria estar comigo, que confiasse.

antes de prosseguir, quero contar que nessa época eu tinha um verdadeiro trauma de virgens. eu havia tido um relacionamento péssimo com uma garrota que além de virgem era maluca, uma pervertida nata que por algum motivo que eu jamais descobri, preferia se manter virgem. esse relacionamento acabou da pior maneira imaginável e, desde então, eu prometera a mim mesmo não mais me relacionar com virgens. além disso, tinha o caso do estupro da minha primeira namorada, anos antes, que havia me deixado algumas seqüelas e eu tinha essa coisa, eu sempre gostei de ser bom com a garota na cama e tirar a virgindade machuca e dá um trabalho desgraçado.

agora já fazia um tempo que a gente estava saindo. não dava mais para esperar, era hora de levar Lavínia para a cama. ela estava no meu quarto quando abordei o assunto.

“quero transar com você, você continua com essa frieza e isso me incomoda. talvez se a gente transar isso passe, não acha?”

“eu sou assim mesmo, não é frieza”

“é o que parece”

“e se for? isso importa?”

“um pouco. se você se soltasse mais, seria bem melhor, por isso acho que a gente tem que transar. além disso eu estou louco pra fazer isso, não gosto de ficar sem sexo”

“por mim, tudo bem, a gente transa, mas quero te contar uma coisa antes”

“o que é?

“eu sou virgem”

“ahn? como assim? por que não me contou isso antes?”

“achei que soubesse”

“ah, meu deus, como eu iria saber? eu até desconfiei, mas gente falava de sexo e… que você nunca namorou vá lá, mas ser virgem já é outra coisa. só aparece virgem na minha vida”

“mas eu sou, só que não tem problema, vem”, disse estendendo os braços, com a mesma expressão de estátua de sal de sempre.

“não. devia ter me contado. eu não me relaciono com virgem, tenho meus motivos”

“mas é só tirar”

“chega, vai embora, acabou”

“não!”, pela primeira vez ela mudou o tom de voz e a expressão, falou mais alto, meio em tom de choro, “vem, transa comigo”.

ao dizer isso foi tirando a blusa e eu, num gesto meio cego, peguei a blusa sobre a cama e tentei vesti-la de novo, enquanto ela dizia “não, não, não, eu quero” e se debatia. isto me deixou com mais raiva.

“veste logo isso e cai fora, você não é pra mim”

ela se vestiu e me pediu desculpa. eu disse que não tinha nada, mas era melhor ela ir. ela saiu, com a mesma expressão gelada com que havia entrado.

passei aquela noite e os próximos dias remoendo um certo remorso por ter agido daquela maneira. eu havia sido duro, exatamente como eu andava sendo com as garotas que, um mês atrás, eu levava para casa em Belo Horizonte. eu estava me vingando em todas elas a minha última e maior decepção, o amor que era para vida interia mas que não foi além dos três meses. o que eu havia me tornado, afinal? Lavínia tinha alguma culpa e/ou merecia isso de mim? ela tinha as dores dela, aquela solidão e carência sem tamanho e demonstrava me querer de verdade, mas eu a joguei fora e o pior nisso tudo é que fora por uma bobagem. virgem? eu era um covarde, eu não admitia, mas era. e para completar, mesmo remoendo tudo isso, eu não me arrependia de tê-la mandado embora, só da forma com que eu tinha feito isso. eu era um covarde.

 

alguns dias depois, na tarde do sábado seguinte, alguém bateu à minha porta. atendi e o proprietário do quarto que eu estava alugando disse que tinha uma garota querendo me ver. só podia ser Lavínia, então pedi para que ele a deixasse entrar, afinal, eu acho que lhe devia pelo menos um pedido de desculpas.

ela entrou, eu fechei a porta e ela foi logo dizendo, naquele tom glacial dela, como se me desse uma ordem:

“pronto, não sou mais virgem, fica comigo”

“como assim?”

“não sou, eu perdi com um cara, não é o que você queria?”

aquilo me jogou no chão. quis saber com quem fora e ela me disse que havia sido com um cara bem mais velho, casado. tomado de um ódio hipócrita, quis que ela me levasse até ele para que eu lhe partisse a cara, mas ela disse que não o faria.

“não é o que você queria?”, disse ela, “então esquece ele e fica comigo”.

não teve jeito. é provável que este tenha sido o momento em que mais me senti desprezível em toda a vida, eu era um idiota. mas fosse como fosse, como podia haver prova de amor maior do que aquela?

beijei-lhe e nós trepamos ali na cama. ficamos juntos por um tempo mas não durou muito. quando percebi que não conseguia gostar dela, eu cai fora de São Paulo para ir me esconder no Rio, tendo em mente a idéia de não mais fugir de virgens e a certeza de que eu não merecia Lavínia.

 

08 de Dezembro — 2009

A vitória da Humildade

Postado em Crônicas, Nonfiction com as tags em dezembro 6, 2009 por Fernando Albuquerque

No ano de 1992, o meio-campo Junior, que já havia levantado três vezes a taça de campeão brasileiro com o Clube de Regatas do Flamengo, já estava com a idade avançada e, de volta ao time para disputar o Campeonato Brasileiro de Futebol, causava desconfiança e desacreditava boa parte da torcida. Mas para surpresa de todos, naquele ano, o Flamengo se sagraria o primeiro clube pentacampeão brasileiro e Junior seria não só o artilheiro do clube (8 gols) como também o craque do campeonato.

Dezessete anos depois, a mesma torcida, ainda mais desacreditada que naquele distante ano de 1992, já se preparava para completar a maioridade sem comemorar um título brasileiro. Mesmo com a comemoração do Penta-Tricampeonato estadual, o que fez do Flamengo o clube com mais títulos cariocas, a volta do craque Adriano e a promessa de uma nova era feita pelo novo patrocinador, os especialistas nem cogitavam na possibilidade de apostar no time como candidato ao título — como exemplo, a revista Placar, uma das mais consagradas do seguimento esportivo, previa o Flamengo brigando no máximo por uma vaga na Sul-americana. E a torcida já estava desiludida, há tempos guardando aquele grito de ”é Campeão” que nunca vinha, se revoltava contra os dirigentes, exigindo aquilo o que time mais popular do mundo os devia: o título. Daí veio Pet, acima da idade, 36 anos, com uma passagem ruim pelo Atlético Mineiro em 2008 e quase ninguém acreditou que ele pudesse render alguma coisa. Pois é, eu era a pessoa que menos acreditava na possibilidade do Hexacampeonato vir este ano, mas mesmo antes de trazerem de volta o Pet, eu já comentava com meus amigos que ele era a solução para o time, que deveriam dar uma chance a ele.

Resultado: Petkovic e Andrade trouxeram confiança ao time e à torcida e o Flamengo renasceu das cinzas, das últimas posições para o suado primeiro lugar e… sim, finalmente gritamos de novo: É CAMPEÃO!!!

Com muita garra e humildade, vencemos a arrogância dos times paulistas e mostramos para o mundo que o futebol carioca não está morto como pensavam alguns, mas sim vivo, mais vivo do que nunca. Parabéns, Flamengo, por esse presente que ganhei este ano.

Quero também parabenizar o Vasco, o Botafogo e, principalmente o Fluminense (que também andava desacreditado e tinha virado motivo de piada na mídia) que, apesar de rivais, também fizeram bonito ao superar as dificuldades e que, juntos ao meu Flamengo querido, ajudaram a mostrar para os clubes de São Paulo (São Paulo e Palmeiras principalmente) que com nossa humildade saímos vitoriosos e fizemos assim um papel muito mais bonito que o deles, que deram vexame.

Quero ressaltar que não tenho intenção de aumentar a rivalidade entre São Paulo e Rio, apenas não concordo com a arrogância que os dirigentes e jogadores desses clubes demonstraram este ano. Não é bonito vencer com esse tipo de atitude. Com humildade, mesmo quando o time não ganha, faz um papel bonito. Felizmente, este ano a humildade venceu a arrogância e que isto sirva de lição para esses clubes.

ressaca, sexo e feelings

Postado em Artigos com as tags , , , , , em dezembro 5, 2009 por Fernando Albuquerque

se quiser saber como é a minha vida, baby, tenha uma ressaca. viver ultimamente se tornou uma constante ressaca. ressaca de amores perdidos, beijos dados, sorrisos, toques, carícias e também da liberdade que em raros momentos tive; esses porres loucos de vida que o tempo fez passar. e é na ressaca que caem minhas últimas máscaras, onde não me preocupo em agradar e apenas me mostro como de fato sou. há esse lado pesado, esse fardo, essa mácula que levo comigo e que pode assustar quando exposta. mas está exposto.

homens têm a mania ridícula de bancar os durões, achando que essa coisa de omitir faz deles mais machos; ledo engano. na verdade isso só prova que são covardes. tem que ser muito homem para admitir o que se sente num mundo que, como uma Alphaville gigantesca, reprime qualquer forma de sentimento. mas há quem diga que não se importa com a solidão, que convive bem com ela, contudo quem diz isso, ou não é verdadeiramente sozinho ou está mentindo para si mesmo.

a solidão fode, baby, e só fode no rabo. convivi com minha solidão a maior parte da vida e tudo o que aprendi foi a suportá-la, mas gostar dessa filha da puta é impossível: seria o mesmo que acertar uma martelada nos bagos e dar gargalhadas. não preciso de muitas pessoas, nunca fui de muitos amigos e sempre digo que mais de duas pessoas numa sala é tumulto. gosto do número dois, eu mais um, e isso pode ser bem o suficiente.

só que as pessoas desse mundo fodido parecem não se empenhar para afastar a solidão que os rodeia, são uns covardes, verdadeiros patetas sempre com medo de quebrar a cara numa decepção, e o que não percebem é que a dor de uma decepção passa, já a solidão permanece e vai queimando lentamente até que não reste sequer uma carcaça do que um dia foi sanidade.

pegue o exemplo dessas mulheres de hoje; cada vez mais idiotas, brigando entre si para ver quem se dá melhor no ofício de puta, porque isso é “ser feminista”. não sabem unir o desejo ao sentimento, é sempre um ou outro, ou deseja ou ama. é só essa coisa de pele e de química que só faz sentido quando o assunto é cama, muito embora o que se precisa para estar bem é bem mais do um lençol suado numa cama desfeita.

o que eu digo sobre isso, baby, é que se você quer um homem, se sente desejo, tesão, fogo ou seja lá como você prefere chamar essa coisa, se quer alguém na sua cama agora, eu posso lhe pegar com força, lhe agarrar pelo cabelo arrancando-lhe um beijo na boca, tocar os seus seios, meter minha mão entre suas coxas e a gente vai trepar, baby, e como a gente vai trepar. só que você vai acordar sozinha no dia seguinte, porque eu me recuso a ficar.

é um jogo fodido demais isso de trepar por trepar e achar que adianta alguma coisa para com a solidão. não adianta, podem dizer o que for, mas tem que ter feeling, baby, sem sentimento a desgraçada volta logo que você acaba de gozar. e não vá pensando que sou do tipo que não sente desejo — unir as duas coisas, se lembra? eu sinto, e sinto até demais: numa escala de assexuado, morno, assanhadinho, safado, tarado e pervertido, acho que o meu ponteiro apontaria entre o tarado e o pervertido. quando estou só, quero transar com quase toda mulher que vejo por aí, das minhas amigas até algumas garotas que comentam no meu blog, mas é só instinto, não tem nada a ver com o vazio. as coisas tem que andar juntas, é isso que essas mulheres tem de meter na cabeça (na cabeça mesmo, não na boceta). e se o fizer, baby, eu vou sim tapar os buracos do seu corpo e o farei bem, mas vou tapar da mesma forma esse buraco que você tem aí dentro e que você sente tão fundo quando se deita na cama à noite antes de dormir.

será que é tão difícil deixarem de ser tão covardes? infelizmente, a cada dia que passo neste mundinho obsceno e cada vez que uma idiota sai correndo quando falo que quero mais do que sexo, percebo que é mesmo muito difícil e que preferem continuar infelizes, remoendo mágoas de relacionamentos sepultados e fossilizados, a tentar. apenas tentar…

é por essas e outras que vivo reafirmando: eu não gosto de gente e, se é pra ser só, quero mesmo é entrar num foguete e mudar de planeta, de galáxia, de dimensão, ou qualquer lugar o mais longe possível desse ninho onde as cobras engolem umas às outras e nem sentem o gosto. prefiro ir pro raio que me parta, baby, a ter de conviver com isso pelo resto dessa vida fodida.

eu poderia dizer coisa parecida para os homens, mas não faz sentido, porque o assunto que me interessa é o sexo feminino. eles são concorrência, eles que se virem e aprendam a ser homens com as porradas que vão levando da vida.

viver de ressaca é foda, baby, que tal um bar? a gente precisa é de um novo porre. um bom e looooongo porre.

e então, baby, vem comigo?

 

04 de Dezembro — 2009

véspera

Postado em Poemas em dezembro 3, 2009 por Fernando Albuquerque
para VOCÊ

acordo
não tão bem
para uma manhã muito muito boa.
cheio da
vida das armadilhas
cheio de falsos amigos cheio de mim sem
ELA sem uma
tevê para ver o desenho animado sem
um trocado sem um remédio sem uma luz
sem túnel sem mar ou margem ou marca
sem sono e sonhando sem parar querendo
sempre um pouco mais
que nunca vem mas logo vem sempre logo e
cansado de esperar desesperar desconsiderar
fumar sem parar paciente cheio de impaciências e blocos
de concreto acrobatas em paredes pitorescas
de uma família incompreensível
uma má semente que sente inocente e sofre
insistente sedento
de engarrafamentos metrôs trens ônibus lotados e
caminhadas à beira-mar no tempo esgotado
e o cheiro de esgoto dos rios do Rio que
é o cheiro de estar em casa suado
estressado assaltado mas
feliz e liberto com o amor por perto
sem mais desse deserto
decerto um paraíso misto de inferno mas
meu e é belo no sol na chuva na lua prateando
as ruas pelas quais ando ando tão vivo
e me perco tão bem
porque perdido me encontro
e encontrado LHE encontro mais bonita que
o espelho mais minha que as lembranças ruins
que mascarei de boas para conseguir viver até aqui
e ir e ficar e finalmente acordar realmente
bem quando SEU sorriso for o meu travesseiro
e os lençóis do SEU corpo
o meu sossego.

dicas de um escritor mundialmente desconhecido para escritores desconhecidos em algum lugar

Postado em Poemas em dezembro 3, 2009 por Fernando Albuquerque

acenda um cigarro, relembre seu relacionamento mais mal sucedido,
releia a carta amarelada que ela lhe deixou quando partiu.
escreva-lhe uma carta, seja sensível, diga que sente sua falta
diga que ela arruinou suas chances de felicidade quando partiu
seja sensível, chame-a de puta
acenda outro cigarro, tente um poema
arranque-o das entranhas da sua vida,
que lugar melhor para tirar poemas se não a vida?
é o que fazem os bons poetas — transcrevem a vida
para a poesia.
tenha em mente que a poesia é uma mulher e que
como toda mulher ela deve ser
compreendida:
se não conseguir compreendê-la ao menos finja
mas finja bem.
não perca tempo esculpindo versos e joguinhos nonsense de palavras
: você não é um escultor e caso queira ser um
esqueça as palavras, tente madeira ou pedra
seja sensível
acenda outro cigarro, não transfigure a vida no verso
caso não queira dar luz à poesia desfigurada,
beba Bukowski, fume Allen Ginsberg, escute música popular
jamais imite, descubra seu eu, experimente Leminski
mas não se preocupe com rimas.
jamais escreva um soneto, esqueça a métrica
limpe a bunda com a poesia concreta
seja sensível
tenha em mente que boa parte desses que se dizem poetas
não passam de datilógrafos da própria cegueira.
abra bem os olhos
fique de bem com os males da vida.
escreva outro poema, fale mal do primeiro
fume outro cigarro, tenta a prosa
seja mais sensível.
não perca tempo criando enredos na cabeça —
a maior parte desaparece antes que escreva a primeira linha
apenas escreva pense em palavras
escolha as melhores palavras sinta as palavras
trepe com elas mas não seja afobado
procure os pontos certos
toque
beije
respire
relembre seu maior amor perdido, ligue pra ela
escute-a dizer que você é passado
e como Dostoievski, sofra
mas não perca tempo lendo Dostoievski ou
Tolstoi ou o Ulisses de Joyce ou
Guimarães Rosa ou
qualquer coisa que algum pseudo-intelectual tenha mandado você ler:
tenha em mente quanto tempo um livro desses lhe tomaria
balanceie com o quanto lhe acrescentaria
você é livre para escolher
não precisa ser tão exigente com o que lê
mas seja com o que escreve prefira
Clarice, Céline, Caio Fernando, Kerouac
ou o que lhe der vontade
seja sensível
não tenha frescuras
jamais se ache bom, seja perfeccionista
nunca se compare com os outros
tente o conto, escreva, reescreva, re-reescreva
mostre-o para alguém
sinta-se orgulhoso mesmo com os não-elogios
saiba escutar
discorde de críticas sem fundamento
seja auto-crítico mas lembre-se que você não é um bom crítico
viva a vida, pense no aluguel por vencer
mude de casa de cidade de planeta
escute música popular
abra outro maço de cigarros
arranje outra garota, não tenha medo de se envolver
procure um emprego, não desista antes do décimo não
reclame do salário do país do presidente
fale mal da tevê, tenha dor de cotovelo
dor de cabeça
dor de alma
finja que nada disso lhe perturba
pense nos outros iguais a você
fique sensível
trabalhe no conto e
principalmente
questione se isto é mesmo um poema,
fale mal do que escrevo e deseje
intimamente
escrever como escrevo,
faça-me um elogio e como um bom escritor
discorde de todas as dicas que aqui dei.
mesmo que tenha aproveitado alguma (ou todas)
use isso em segredo e
não se esqueça da sensibilidade 

02 de Dezembro —2009

a quem possa interessar,

Postado em Apresentação em dezembro 3, 2009 por Fernando Albuquerque

recentemente dei início a um blog paralelo a este, que veio para suceder um blog diário que eu tinha antes.

cartas numa garrafa: devaneios líricos numa madrugada sem fim é o “lado de fora” da crônica de um amor louco: o amor é um cão dos diabos, meu blog principal. lá serão postados diários, poemas, cartas, histórias, idéias e opiniões, dentre outras coisas, ou seja, tudo o que não entrar neste blog por questão estilística, estará lá.

Cartas Numa Garrafa não tem nenhuma pretensão literária como este; o foco principal é a realidade e a não-ficção, contudo é possível que eventualmente surjam textos com sabor de literatura muito embora sendo não mais do que relatos de acontecimentos reais. eu diria que ele é o porão da crônica de um amor louco, possivelmente será lido por poucos, só por aqueles que tem algum interesse na vida que leva o autor das histórias destas histórias e para quem gosta um pouco de realidade.

a quem interessar possa, haverão sempre garrafas com novos manuscritos dentro. sente-se, abra uma delas e beba o conteúdo.

SEJAM BEM VINDOS À MINHA VIDA!

http://cartasnumagarrafa.wordpress.com/

De uma menina na janela

Postado em Contos com as tags , , , em novembro 28, 2009 por Fernando Albuquerque

Escolha as melhores palavras, olhos. Menina. Janela. Mar. Pintura. Escreva à lápis ou carvão, escreva assim: lápis ou carvão. Leia a primeira palavra olhos. Pense numa cor que combine com a tinta, esqueça o branco amarelado do papel, matize. Verde. Obtenha um cenário, uma sala. Preencha-a com móveis a menina o mar, abra o peito ao desatino. Releia a primeira palavra, reescreva no começo, dê vida, nasça, viva. Veja:

Olhos verdes no verde do mar. Ondas, areia, ela via pela janela. Talvez uma gaivota, uma nuvem branca, outra onda rebentando na janela. Espuma, sol, maresia. A menina olhava e olhava intrigada para aquela nova paisagem; não estava acostumada. Não lembrava de quando seus pais decidiram comprar uma janela nova, não, não comentaram: ela só acordou um dia e a janela estava lá, no meio da sala, acima do sofá, com aquela paisagem agredindo seus olhos outrora serenos. Verde, porque o mar é verde e não azul como nas histórias que lia quando era criança.

Não, não era mais criança, uma mocinha, sempre lhe diziam fazendo-a ficar orgulhosa dos seus recém-completos quinze anos. Mas era também menina e tinha olhos de menina assim, verdes, e por que não azuis como os das princesas nos contos de fadas?, se perguntava. Nunca entendera essa coisa: na fantasia todo mundo tinha olho azul, da Cinderela ao Pato Donald, todos de olhão azul e na vida real azul era coisa rara, mesmo o céu de vez em quando enrustia e acordava cinza. Uma vez perguntou isso para a avó; Dona Mercedes respondeu que era por causa do país em que vivíamos, das descendências, que lá na Europa e também lá pro sul, onde o povo é descendente de europeu, todo mundo tem olho azul. Mas pouco importava, ela tinha olhos verdes, iguais ao mar, e só ela podia dizer que tinha olhos da cor do mar.

E agora o mar parecia tão próximo da janela, quase que o podia tocar com a mão. O céu estava de um azul que não recordava ter visto antes que comprassem aquela janela. Até os raios de sol pareciam mais bonitos; como podia? Essa janela parece uma janela mágica, que coisa mais estranha. Pôs-se então a seguir com os olhos as ondulações da água até o fim do horizonte.

Teve, de súbito, a impressão de que algo estava por vir, qualquer coisa que dissesse que depois daquela parede de anil existia vida. Pensou num barco e, sentando-se numa cadeira, ficou a imaginar enquanto o esperava. Era um barco assim, desses bem velhinhos, barco de pescadores que quando voltava enchia de alegria as mulheres da vila. Eram os maridos voltando pra casa, sãos e salvos depois de dias navegando em mar aberto, felizes com a fartura de pescados, cavalinha, badejo, namorado, dourada, sardinha, cação e tantos outros tipos de peixe dos quais ela não lembrava o nome. E teve assim um desses apertos no peito, desses que alfinetam certeiro o coração quando se sente saudade de alguém de quem muito se gosta.

Percebeu então que estava com saudade e começou a sentir-se ansiosa pelo momento em que, junto das outras mulheres, correria para a praia para receber encher de carinhos os homens satisfeitos e cansados. Seu namorado estaria lá, no meio deles, e não era o peixe namorado, mas um menino assim igual ela, de olhos brilhantes e sonhadores, que dias atrás partiu para sua primeira viagem no mar. Fora todo empolgado ajudar o pai, pescador conhecido de todos, homem bom e honesto que desde cedo começou a ensinar a ele, seu filho mais velho, os segredos da pescaria. Agora chegou a vez do menino fazer seu teste, mostrar ao pai como tão bem havia aprendido o ofício. Entusiasmada, imaginou-se caminhando na praia ao lado dele deixando para trás um rastro sem-fim de pegadas na areia. Imaginou-se sorrindo numa felicidade mais feliz que aquelas que existiam nas novelas que sua mãe via na tevê. Imaginou-se no final de um filme, daqueles onde todo mundo acaba bem e a vida parece tão mais bonita que a vida real.

Mas eles estavam demorando tanto para chegar, olhava pela janela, olhava de novo e só via a mesma água verde e o mesmo céu azul e nada mais. Nem um barco, nem um pontinho preto que fosse, lá longe, ela procurava, tinha que ver, mas nada. Só tinha água e aquela mesma gaivota que insistia em sobrevoar a praia como que estática na paisagem. Começou então a sentir-se agoniada, e se tivesse acontecido alguma coisa?

Lembrou-se que na noite passada havia chovido e sabia que a chuva no mar é sempre mais forte e pode causar grandes estragos, principalmente num barco velho de guerra como aquele. Sentiu o coração disparar, um suor frio escorrendo pela testa, as mãos tremendo só de pensar que. E se o barco não voltasse? Se seu menino não viesse, o que seria de seus dias? Enlouqueceria. Morreria de solidão, com certeza. Ninguém pode viver bem sendo tão só. Era injusto, ele era seu primeiro namorado, seu primeiro amor e ela já sabia, sempre soube que era… Era para ser. Eterno.

Sentiu vontade de chorar mas não pôde, forçava e forçava mas as lágrimas não saiam, só ficava este nó entalado na garganta, este grito de dor encravado nas entranhas e este medo enrubescido na alma. Já não via mais beleza na paisagem, não tinha graça olhar para a praia, a areia, as ondas, o céu, a água salgada. Era tudo tão feio, insosso, sem cor, tão sem vida. E odiou seus pais por terem posto aquela maldita janela ali no meio da sala para que ela olhasse, odiou a si mesma por estar a olhar pela janela, odiou a espera que nunca acabava, que nunca acaba e.

Fechou os olhos e sentiu descer uma lágrima, uma única lágrima, uma mísera lágrima solitária. Lembrou-se então das noites que chorava baixinho trancada no quarto em noites de chuva. Lembrou-se de que não era feliz e que era sozinha. Lembrou-se que não tinha nenhum barco para chegar, que não tinha namorado e não morava em nenhuma vila de pescadores e sim numa cidade. Lembrou-se, por fim, que na sua cidade também não tinha mar, que morava num apartamento e que em volta a paisagem era toda cinza.

Toda trêmula de ódio, arrancou a moldura da parede e da moldura arrancou a pintura e depois de rasgá-la ao meio, deixou-a cair no chão e pôs-se a pisoteá-la como se pisoteasse sua própria tristeza.

 

27 de Novembro — 2009

poetical love affair

Postado em Contos, Poemas com as tags , , , , em novembro 22, 2009 por Fernando Albuquerque

tão serena enquanto dorme; a calma do seu sono é o vento que descabela as árvores nos sonhos meus. noutra hora eu ousaria captar o anseio do seu olhar e permutar por insônia para seu corpo. no entanto, você repousa com um ar de princesa sem olhos e assim, quero ser apenas o conforto do seu sossego. quando desperta, me observa indiscreta e eu sou vastidão de horizonte engolindo por inteiro a sua presença — meu sentimento é o seu instante de abismo. a neblina dos seus pulmões perturba meu astral. resisto. mantemos nosso silêncio de olhos. mas persiste ainda um desejo de saber o que de fato somos. então caio do espaço em devaneios, faminto de pétalas de rosa e mel. busco um vazio menos vazio sentindo um desejo de contar as ondas da praia do Leblon noturno quando você é todo o mar. no calor da sua sede que me esgota, na insanidade dos lábios que procuram, percorrem corpo a corpo, pele na pele, suor por suor, saliva em saliva, e flamejantes dedos que na nudez fria afundam, escuto seu arrepio mais selvagem e meu corpo brota na flor que enche de orvalho suas pernas agora trêmulas: fazemos verão, somos sóis estrelas a-mares e transpiramos nuvens de chuva, quando apagamos as luzes e o mundo inteiro se apaga diante de nós.

dica — caso tenha gostado do texto, leia também aqui no blog:

VICE-VERSA

ROSAS AMARELAS E JUJUBAS COLORIDAS

(reforma ortográfica)

Fabulário do Tédio e o Inevitável (de ratos, buldogues e bonecas suicidas)

Postado em Contos com as tags , , , , , , , em novembro 17, 2009 por Fernando Albuquerque

para Fê
agradecimento especial à Paula Fernanda

 

(para ler ao som de Blitz)

— Como assim?

— Sei lá, foi outro dia, me deu vontade de ficar mais perto das estrelas.

— E subiu numa árvore?

— É.

— Começo a acreditar que você é mesmo doidinha.

— Por que subi numa árvore? Vai dizer que nunca fez isso quando era moleque…

— Fiz, mas eu sou homem e…

— Ah, vai dar uma de machista agora. E os direitos iguais?

— Não é isso.

— Foi o que você disse.

— Não foi. O que eu quis dizer é que eu era menino, e subia em árvore por razões de menino, não para ver estrelas.

— Machista! E além disso não tem poesia.

— Pra ser poeta não é preciso subir em árvore.

— Mas já que subia…

— Eu era criança, não tinha dezenove anos como você.

— E agora, com seus vinte e um, parece ter sessenta.

— Agora quem está sendo preconceituosa é você. Tem muito coroa por aí que aproveita mais a vida que a gente.

— Ah, nisso eu concordo.

(pausa)

— Ando pensando; como é que vai ser quando a gente ficar velho?

— Sei não. Quero nem pensar.

— É provável que você comece a ver novela.

— Ah! E você vai ser um velho resmungão, furando a bola dos meninos que estiverem jogando futebol na porta da sua casa.

— Acho que até lá não vai ter mais isso.

— Isso o que?

— Menino jogando bola na rua. Hoje quase já não tem, só querem saber de videogame, computador… é triste.

— Tá falando como um velho de novo mas eu concordo: é triste.

(pausa)

— Tu jogava bola quando era moleque?

— Não, eu era ruim pra caralho, daí nem jogava.

— E o que você fazia?

— Sei lá, nem lembro…

— Você não teve infância.

— Claro que tive.

— Então me diz do que brincava.

— Não lembro, já disse.

— Claro que lembra!

— Diz você primeiro.

— Dizer o que?

— Aff! Do que brincava, ora!

— Ah, eu brincava de tudo: tinha minhas bonecas, eu tinha um Topo Gigio que era marido de uma Barbie.

— Um rato e uma mulher?

— Pois é, desde pequena respeitando as diferenças.

— E dava certo isso?

— Dava sim, e eles viveram felizes até que a morte os separou. Meu cachorro Roger, lembra dele?

— Aquele buldogue com cara enfezada?

— Pois é, um dia eu deixei o Topo Gigio no sofá da sala e ele fez miséria do coitado. Tentei salvar, operei ele, mas ele não resistiu, morreu, coitado. A Barbie ficou viúva.

— E o buldogue também morreu depois…

— É. Atropelaram ele.

— Quem dirigia o carro, a Barbie?

— Ah, não seja sacana. Tadinho do Roger.

— Ainda acho que foi a Barbie.

— Não foi, já disse! Na época que o Roger morreu, a Barbie já tinha morrido.

— Morreu, também?

— Sim.

— Em que circunstância?

— Suicidou. Não agüentou viver sem o Topo.

— A Barbie suicidou? Explique.

— Ah, uma dia eu fui viajar com meus pais pra Cabo Frio e a gente foi de ônibus, daí levei a Barbie, só que quando passei perto daquele rio fedido que tem em frente à rodoviária, ela se soltou do meu braço e pulou lá dentro.

— Que morte triste.

— Pois é, chorei muito.

(pausa)

— Do que mais brincava?

— Ah, coisas de menina, casinha, fazer comidinha…

— Não sei o que menina vê em brincar de dona de casa.

— Pois é, só quando a gente cresce que vê a merda que é.

(pausa)

— E você, já lembrou do que brincava?

— Coisas de menino, polícia e ladrão, Power Rangers, rodar pião…

— Rodar pião? Pô, tô começando a desconfiar que você tem mesmo sessenta anos.

— Ih, não enche, eu também jogava muito videogame.

— Já existia?

— Não fode! Tenho vinte e um aninhos só, esqueceu? Você é muito chata.

— Não fica bravo não, só tô brincando com você neném.

— É, eu sei, mas…

(pausa)

— Quer escutar música?

— Hã?

— Música, quer? Tem um cd da Blitz aí, você gosta né?

— É, eles são engraçados.

— Então você quer?

— Não.

— E ver tevê, quer?

— Não. Odeio televisão, você sabe.

— Então quer comer alguma coisa?

— Comer o que?

— Não sendo euzinha, pode comer qualquer coisa. Tem biscoito, quer?

— Quero não.

— Pô, então o que é que tu quer, homem?

— Quero não envelhecer.

— Ah, meu bem, mas essa fórmula mágica eu não tenho. É inevitável. Preocupa não, ainda vai demorar pra acontecer.

— Humm… O que é que tem além de biscoito?

— Tem torta de maçã, acho, se meu irmão não comeu tudo. Vou ver.

(pausa)

— É, ainda tem torta de maçã, quer?

— Não. Isso é coisa de americano.

— Mas é gostoso, foi a Margarida quem fez.

— Quem é Margarida?

— A empregada, ora!

— Ela é americana?

— Não, é paranaense mesmo. Não precisa ser americana para fazer torta de maçã, e a globalização?

— É, daqui a pouco a gente vai estar comendo bacon com ovos no café da manhã e torradas com manteiga de amendoim. Isso não é globalização, é americanização.

— Mas você queria o que? Que japonês começasse a comer feijoada?

— Pelo menos é melhor que arroz puro.

— Japonês não come só arroz. Comida japonesa é uma delicia.

— Prefiro cheeseburger.

Cheeseburger é coisa de americano.

— Mas eu não como no McDonalds, os brasileiros são mais gostosos.

— Pois é, glo-ba-li-za-cão, um produto americano abrasileirado.

— Por um lado é bom, mas por outro…

— Como assim? Ou é ou não é.

— Não! Liga o rádio, a música tem decaído cada vez mais por causa da maldita globalização americana. Daqui a pouco não vai ter mais MPB e sim MPG, música popular globalizada.

— A Tropicália já era música globalizada e era bom.

— Ah, garota, Caetano e Gil são mestres, não há o que discutir. Mas eu tô falando é da turminha de hoje viver imitando Madonnas e Timberlakes.

— Cara, você fala igual velho.

— Vai dizer que gosta dessas coisas?

— Não, mas… me revoltar resolve?

— Se todo mundo se revoltar, resolve sim. Lembra do que dizia o Camus? Que a gente tem que se revoltar, que isso mostra que a gente está vivo.

— É, pode ser, mas nem por isso vou virar vegetariana pra salvar as vaquinhas.

— Nem eu.

— Tem pizza fria também, é de ontem, quer?

— Não.

(pausa)

— Eu preciso é me mudar.

— Mudar?

— Sim, me mudar daqui.

— Acho que mudar de cidade não vai te privar dos problemas do mundo.

— E quem falou em mudar de cidade?

— De país? Não adianta também…

— Eu quero mudar é de planeta!

— Bom, aí sim. Para qual?

— Saturno, talvez. É bem longe e até que é bonitinho.

— Será que tem praia lá?

— É mesmo, preciso verificar isso antes de comprar a passagem.

— Me leva?

— E por que eu te levaria, guria?

— Porque eu sou sua…

— Minha…?

— Namorada.

— Você não é minha namorada, é minha amiga.

— Mas se me levasse pra Saturno contigo eu ia acabar virando sua namorada.

— Talvez eu leve, mas só se você levar na bagagem seus livros e os cds.

— Combinado. Mas me diz, tem tomada em Saturno?

— Acho que não, pra que tomada?

— Se não tiver não vai dar pra ouvir música.

— Dá sim, a gente leva pilhas.

— Você é um gênio.

— É, eu sei disso.

(pausa)

— Quer ir pra cama comigo?

— Quando?

— Agora.

— Não.

— Por quê? Você é gay? Nunca me contou isso.

— Não sou gay, mas conheço seu pai. Se ele chega e me pega na cama com a filhinha dele eu vou sem bolas pra Saturno.

— Ele não vai fazer isso, não sou mais criança.

— Aos olhos do mundo não, mas aos olhos dele você continua sendo uma menininha, ainda mais enquanto continuar a subir em árvore.

— Não me acha bonita?

— Não é isso, você é a garota mais inteligente e interessante que conheço; transava com você mesmo que parecesse a Hebe Camargo.

— Não respondeu a minha pergunta.

— Você é bonita.

— Não me acha gorda?

— Não, nem um pouco.

— Eu sou gorda.

— Não, não é, você só não é esquelética. Gosto mais de garotas assim.

— Então você é tarado por tecido adiposo, porque eu sou uma baleia.

— Não é não. Você é linda.

— Então porque não quer?

— Sou covarde.

— Tem tanto medo assim do meu pai?

— Um pouco, mas tenho ainda mais de que você se torne minha futura ex-namorada. Não quero perder você.

— Então você me ama?

(pausa)

— Não daria certo.

— Não perguntei isso, perguntei apenas se você me ama.

— Você é filhinha de papai, tem boa família e eu estou prestando vestibular para mendigo…

— Sim, eu sou a Barbie e você é um rato, já sei disso faz tempo, agora responde.

— Amo.

— Ah, que lindo! Também te amo.

— Não se diz assim: também te amo, se diz apenas te amo.

— Claro que diz.

— Sem o também parece mais sincero.

— Deixa de besteira e me beija.

— Não.

— Por quê?

— Não quero.

— Você é estranho.

— Obrigado, você também é.

— Não se diz também, se diz você é estranha e ponto.

— Você é estranha e ponto.

— Está sendo sincero então?

— Não. Você se parece comigo.

(pausa)

— Ih, meus pais chegaram.

— Tá vendo, eu ia morrer.

— Talvez, mas não valia a pena morrer por isso?

— Não.

— Chato.

(pausa)

— Hei.

— Que.

— Já reparou que seu pai parece um buldogue?

— Como assim?

— Sei lá, reparei isso agora.

— Você é louco, tá ficando paranóico já.

(pausa)

 — Peraí, vou contar pro meu pai que a gente tá namorando.

— Não.

— Vou sim.

— Não, ele vai me matar, quer que eu morra?

— Te amo.

— Não, a gente não tá namoran…

— Paaai! Vem cá cumprimentar meu namorado.

— Depois não adianta se atirar dentro do rio.

— Paaaaai!!! Meu namorado.

— Não!

— Paaaaaaaai!!!

12 de Novembro — 2009.

se gostou deste texto, leia também GODARD.

Motel ou… Táxi?

Postado em Contos, Nonfiction com as tags , , , , , em novembro 14, 2009 por Fernando Albuquerque
car-sex[conto erótico]

para N. P.

TÍNHAMOS PASSADO A NOITE toda num bar na Vila Madalena, bebendo cerveja e conversando sobre nossas afinidades, sobre literatura, música, jazz e sonhos, mas sequer um beijo havia rolado. ela parecia tão entusiasmada me contando suas coisas que eu, na iminência de um porre, não encontrei nenhuma brecha para avançar. eu bem que queria; tive vários momentos de tesão enquanto a escutava e no meio de tantas palavras imaginava o que aquela boca que falava era capaz de fazer, mas toda vez que eu tentava falar sobre isso, ela lembrava de outro livro que tinha lido, outro disco que amava, um filme que a tinha marcado, e eu voltava a encarar meu copo de cerveja e a escutar, escutar, escutar. quando o relógio marcou 4hs da manhã, eu já estava conformado que ela não sentira atração por mim, que aquela seria mais uma noite perdida, então perguntei se ela não queria ir embora. ela respondeu que sim e depois de pagar a conta, que estava lá nas alturas, fomos atrás de um táxi. encontramos um e pulamos dentro.

não havia muito mais a ser dito, assim seguimos as primeiras quadras em silêncio. encostei a cabeça no vidro e comecei a pensar que aquilo não podia acabar assim, já havia passado por tantas situações como aquela que, se eu quisesse, poderia escrever um livro inteiro só contando sobre as garotas que tinham tudo para dar e no final da noite não deram em nada. ao mesmo tempo ela ficava me encarando e sorrindo, eu a olhava, sério, escorregando meu olhar pelos lisos fios de seu cabelo preto, pelo pescoço, ombros, seios, as pernas cruzadas enfiadas na calça jeans. linda. senti vontade de tomá-la ali mesmo, não importava o que fosse pensar o taxista, já não importava mais nada, eu só não podia me ver enfiando a cara no travesseiro sozinho no quarto cheio de ódio por não ter sido capaz de encontrar os pontos fracos daquela garota. não com ela: ela era boa demais, bonita demais, sensual demais para ser desperdiçada.

paramos num sinal vermelho e ela finalmente falou.

“e agora, o que vai ser?”, perguntou ela.

não respondi. em vez disso agarrei sua nuca com a minha mão direita e dei-lhe o beijo que estava entalado na minha boca desde que a vi pela primeira vez. beijei-a com gosto, minha língua se entrelaçando com a dela feito serpente, como se morto de sede, encontrasse naquela boca uma fonte de água fresca. ela não tentou se esquivar, simplesmente aceitou minha boca deslizando suavemente os dedos pelo meu cabelo, nossos corpos se tocando, nosso cheiros se misturando, enquanto eu furiosamente matava minha sede com sua saliva adocicada.

aquilo foi o suficiente para me deixar animado. de repente foi como se toda embriagues cedesse lugar ao tesão, ao desejo louco de possuir aquele corpo o quanto antes. escorreguei minha mão para os seios e minha boca para seu pescoço — agora a saliva já não me satisfazia, eu queria seu sangue, seu calor, adentrar o seu fogo. não contente em apenas passar a mão nos seios sobre a roupa, enfiei a mão direita por baixo da camiseta alcançando, nas costas, o feixe do sutiã. sem muito trabalho o desabotoei e finalmente pude sentir aquela pele macia dos seios. toquei um dos bicos com o indicador, estava durinho, ao passo que minha outra mão se fartava em sua bunda. logo em seguida ela sussurrou em meu ouvido que me queria e com os dedos delicados e alguma dificuldade desabotoou minha braguilha e segurou meu membro ereto com firmeza, depois correu os lábios pelo meu pescoço, meu ombro, meu peito até alcançá-lo e abocanhá-lo com uma fúria parecida com a qual, instantes antes, eu havia lhe dado aquele beijo. aquilo me fez delirar, pude ver estrelas coloridas brilhando em frente aos meus olhos.

enquanto ela me chupava, resolvi dar uma olhada no banco da frente, para ver como andava o motorista. parecia normal, como se não visse nada ou, como é mais provável, fingisse não ver.

ela continuava a trabalhar, às vezes me lançando olhares que me faziam arrepiar inteiro, e eu também aproveitei para desabotoar sua calça e enfiar a mão dentro da calcinha. sua boceta estava encharcada, bolinei um pouco seu clitóris e depois introduzi nela meus dedos indicador e xingador, o que a fez soltar um gemido abafado e quase estrangular o meu pau com a mão. pensei: não vai dar pra esperar chegar em casa, vai ser aqui mesmo.

toquei seu ombro, ela parou de chupar e se sentou. num laborioso contorcionismo, consegui tirar sua calça e a calcinha. masturbei-a por alguns instantes e em seguida me abaixei e a chupei, lambendo-a com vontade, sentindo seu gosto, até gozasse, puxando meu cabelo como se quisesse arrancá-lo. já não podia esperar mais, nem um minuto, estava ansioso demais para penetrá-la. assim, fiz com que deitasse no banco e, depois de esfregar um pouco meu pau naquele grelinho molhado fazendo-a a gemer de êxtase, eu a penetrei e, segurando com uma das mãos na alça que fica em cima da janela, comecei meu vai e vem. vez por outra eu segurava e beijava a perna e o pé que estavam mais próximos, sobre o encosto do banco. depois tentamos mudar de posição, ela ficou de quatro sobre o banco, mas eu, sem ter onde me apoiar, me desequilibrei quando o carro passou numa lombada. desse modo, depois de fodermos um pouco com ela sentada em meu colo, voltamos à posição do início.

essa hora nós já nem nos lembrávamos mais da presença do taxista que provavelmente se fazia de voyer nos observando pelo espelho retrovisor. ela era puro tesão e esse tesão me incendiava por dentro, cada gemido abafado que ela soltava, cada mordida no lábio, cada gota de suor que escorria pelo seu corpo bronzeado, era como se mais lenha fosse jogada na fogueira dentro de mim. até que senti que ia gozar, tirei para fora e antes que eu começasse a me masturbar para gozar, ela mesmo o fez. foi um gozo intenso, senti cada milímetro do meu corpo estremecer enquanto meu corpo se derramava gota a gota numa explosão de prazer digna daquele belo corpo de mulher que segundos antes eu havia possuído.

eu havia descoberto todo o poder daquela boca, a pele, o corpo. ela havia me descoberto. mais tarde nós refletiríamos juntos sobre toda beleza daquilo que aconteceu naquele táxi, encantados com a força do nosso desejo incapaz de se conter ou esperar.

depois que vestimos nossas roupas, percebemos que o táxi já havia dado várias voltas pela cidade. quando paramos na porta do prédio onde ela morava, o taxímetro marcava 42 paus. pagamos, em silêncio, e nenhum de nós dois teve coragem de olhar na cara do taxista.

 

02 de Novembro — 2009

O Casulo

Postado em Contos com as tags , , , , , , , , em novembro 9, 2009 por Fernando Albuquerque

casulopara Cassiana, pelas borboletas digeridas.

“um outro tempo, ainda este, o tempo, o outono, a tarde, o mundo, a esfera, a espera em que estou para sempre presa” (Caio Fernando Abreu: Fotografia).

sentado num banco de bar, gosto amargo de cachaça barata na boca, copo sobre a mesa, numa solidão dessas de fim de noite. só que não era noite. nem fim. só o meio de uma tarde ensolarada de quinta-feira, sem dormir há três dias, empanturrado com um vazio inominável proveniente de um tédio qualquer e, sendo assim, qualquer hora lembrava o fim de alguma coisa. acabado, pensava. parece que estou destinado a sempre perdê-las; outra, que diferença faz afinal?
curtindo uma fossa. cansado da mesmice, de sempre acabar tudo igual, cheio das indecisões femininas, da covardia, das desistências. daí acabar num bar, sozinho, sonhando com o improvável. era um desejo louco de qualquer coisa, queria assim tentar o fantástico, o absurdo, provar o gosto selvagem do viver em absoluto. não precisar mais me empenhar tanto, dar o melhor de mim com palavras, sorrisos, cartas de amor de doze páginas para no final acabar assim: quando der a gente se fala, estou confusa, você já não é tão essencial para mim como era dois meses atrás porque descobri que no mundo existem outros dez mil homens além de você que poderiam me fazer uma mulher feliz. esse é o problema, elas nunca sabem o que querem e desperdiçam as melhores chances por causa de critérios que mesmo elas, no fundo, não entendem.
bebi outro gole da cerveja. voltei o copo pra mesa. foi quando uma borboleta pousou no copo, como se quisesse me dizer alguma coisa com as cores de suas asas. roxo, verde, vermelho, cinza. lembrei que havia lido em algum lugar sobre uma garota que havia comido borboletas e que elas tinham um gosto indigesto. discordei, elas podem ser bem saborosas quando apreciadas moderadamente. eu não comi a borboleta, mas é possível que eu a tenha vomitado — algum resquício de paixão antiga, mal curada, que agora agonizava em meu copo frente aos meus olhos. fiquei olhando para ela, suas cores fizeram-me lembrar de uma época perdida, qualquer coisa perdida da qual eu já não sabia bem como era, mas era tão parecido com o agora. o presente imitando o passado ou a vida sempre igual? um estranho sentimento de efemeridade percorreu meu corpo. pensei, tudo que era belo durava pouco, ficando só as cinzas de tudo e a solidão. sim, nascer sozinho, crescer e reencontrar a solidão. não; jamais me acostumaria a conviver com ela, mas ela sempre volta.
eis que começo a sentir alguma coisa me apertar, como paredes ao redor do meu corpo, paredes do bar, da rua, da cidade, do estado, do país, paredes do mundo e do tempo e da vida, limitando meus movimentos feito camisa de força. uma sensação claustrofóbica de sufocamento me impelindo para um estado inevitável de pânico. era o casulo. uma camada espessa de cinzas separando as pessoas do que eu tenho a lhes oferecer.
sem asas, jamais saí. tudo o que vi foi por uma fresta, um buraco aberto com as unhas no invólucro do casulo. ou se saí, movido por uma paixão, voltei correndo assim que o amor acabou e eu me vi novamente só. tinha sido confortável até então, mas lembrei que algumas lagartas, devido a eventualidades do mau tempo ou por maldade dos garotos que destruíam os casulos, jamais chegavam a tornar-se borboletas. tive medo de ser para sempre lagarta. e tive medo de que o amor que eu não temia jamais acontecesse. e tive medo de jamais aprender a voar como voava em meus sonhos de criança.
e num ímpeto de coragem, me vi forçando as paredes, me debatendo feito feto que rebenta a placenta em busca da luz. rompendo as paredes do casulo, esticando as asas, as pernas, os braços ao máximo. forçando, forçando, forçando. até que consegui abrir os olhos e vi a mesa, o copo, o interior do bar e, entrando pelas janelas e portas, a luz. e vi as pessoas, as mulheres, milhares de possibilidades em vinte e quatro horas de vida. mas no instante seguinte percebi que a maioria das pessoas ao meu redor também estava trancada em casulos, fazendo festinhas, sorrindo amarelo para não se deparar com a infelicidade que os persegue noite e dia. descobri que a solidão também existe aqui fora, que os outros também eram covardes mascarados. pensei nas mulheres que haviam me deixado, lembrei da mais recente e soube naquele instante que todas também eram covardes. tomado de revolta, abri as asas e voei,
voei,
voei até chegar no ponto mais alto de uma montanha onde ninguém me vê mas eu vejo a todos, lá embaixo: um aglomerado de casulos com lagartas olhando a vida através de ínfimas janelas. passo meus dias sozinho a observá-los, primavera, inverno, verão, sempre outono, folhas caindo e eu esperando que a qualquer hora algum se abra e dele nasça uma bela borboleta que voe até mim para me fazer companhia.
09 de Novembro — 2009

obra-prima

Postado em Poemas em novembro 9, 2009 por Fernando Albuquerque
suportando o calor e a chuva.
suportando o tédio.
suportando prisões e esperas.
suportando o peso de estar
vivo
neste mundo
onde milhares de indivíduos iguais a mim
fingem não ser mais do que mortos-vivos
escravos de si mesmos,
de seus sorrisos amarelos
e conveniências:
nas festinhas dos finais de semana,
nos automóveis,
nos shoppings,
no meio da rua ou
nos programas estúpidos da tevê
e suas ilusões de felicidade
e política.
suportando tudo
sem dizer muito, apenas
suportando…
mas é duro pensar que você
pode já não ser
diferente deles
que você já não existe
que não insiste
para que eu lhe mostre a fuga
na cama
ou no banco de um parque
na beira da praia ou
do desatino.

eu lhe desenhei com aquarela —
pintei o seu rosto, seus
olhos, sua boca,
contornei as formas do seu corpo
para que você se abrisse
para mim e me desse
qualquer coisa a mais
que as outras
não deram.

eu lhe fiz obra-prima
no entanto você
quis ser um objeto sem valor
coisa vulgar que agora se vira
contra o criador
até que eu
não suporte mais.
vai chegar um momento
em que você irá se lembrar
e o vazio entre suas pernas
e o vazio dentro do seu peito
pedirá por mim
pois eu me fiz seu deus
e fiz você no meu número exato —
nenhum outro encaixe
servirá.
só que até acontecer
outros irão decepcioná-la
outros irão chutá-la
e cuspir na sua cara.
para eles
você é só o objeto mais fácil,
coisa barata
sem sequer um vestígio
de todo o brilho
e a arte
que eu empreguei
em você.

 

09 de Novembro — 2009

canto de chuva

Postado em Poemas com as tags , , , em novembro 3, 2009 por Fernando Albuquerque

quando a chuva parar
de afogar meus os sonhos
vou nascer do pó
como castelo de areia
de portas abertas
para que entre

e dizer que não tenho medo
que meu ser é sua casa,
abrir as janelas
ver o sol explodir no meu olho
ver você passar
sorrir e eu lhe buscar
para que entre
e encontrar

um canto de espera
sem esperar
um pouco de alivio
para seu corpo
que procura meu corpo:
seu corpo no meu
seu eu em mim
entrará

quando a chuva parar
de molhar o meu sonho
e você abrir sua vida
para que eu entre.

29 de Outubro — 2009