corri como um desgraçado para fugir da chuva e acabei entrando num bar do qual sequer consegui ler o nome. a jukebox tocava Leviana, do Reginaldo Rossi. um sujeitinho com cara de boa praça atrás do balcão foi perguntando “o que deseja?” assim que me viu. “me vê uma Brahma”, falei.
“dez reais”
“dez reais o que?”
“a cerveja”
só então notei que a clientela era constituída apenas por homens enquanto mulheres de decotes enormes falavam com eles com sorrisos enormes no rosto. dei-lhe a nota só para não ter que bancar o desentendido — qualquer coisa já entrei sabendo em que ninho estava me metendo —, mesmo assim o fiz com dor no coração. nunca pagara dez paus numa cerveja, menos ainda numa Brahma made in Brasil. pelo menos estava gelada.
não demorou muito para uma loira baixinha se aproximar e pedir que lhe pagasse uma bebida. pensei, que merda!, que é que eu estou fazendo aqui, e loira nem é a minha preferência. mas eu sou um pamonha, como eu negaria a bebida pra moça? mas se ela pedisse uísque? se a cerveja era dez, uísque deveria ser cinqüenta. o jeito é bancar o mala.
“não estou interessado”, falei.
“mas é só uma bebida, só quero beber contigo”
“também não estou interessado em te pagar uma bebida’
“se é viado, o que veio cheirar aqui?”
“não sou viado, sou pobre e vim cheirar o teto. lá fora está chovendo”
“ah, fala sério, vai te catar”
“as damas primeiro”
e assim ela foi embora, rebolando sua bunda de tanajura pelo salão. concentrei-me na cerveja, gelada, como estava gelada, dez pratas, filha da puta. quanto será que a loirinha cobrava? se fosse seguir o preço da loira no meu copo prefiro ser castrado. ao mesmo tempo, penso, se eu estivesse no lugar dela, quanto cobraria de mim? bem, para mim eu dava de graça, mas dos outros não cobraria menos de mil.
daí veio a morena, um pouco mais alta, sotaque nordestino.
“me paga uma bebida, moço?”, perguntou ela.
“pode ser cerveja?’
“oxe! pode sim”
só paguei porque adoro gente do nordeste, o sotaque é maravilhoso e já estava me dando no saco beber sozinho. ela atendia pelo nome de Liz.
“e então, gato, o que tu faz?”, falou ela.
“sou escritor”
“achei que escritores não freqüentavam esse tipo de lugar”
“tá querendo dizer que achava que todo escritor é gay, é isso?”
“não, mas é que vocês são gente tão culta”
“é só tipo, tudo fingimento”
“não é não, vocês falam tão bem e têm conhecimento de tanta coisa”
“falar eu falo sobre um monte de coisas, puxe um assunto que terei para você um ponto de vista, mas pensar não, pensar a gente só pensa naquilo que todo mundo pensa”
“em sexo?”
“na maior parte do tempo sim”
“e o que fica fazendo quando não está pensando em sexo?”
“fazendo ou então dormindo”
“você é tão sincero, difícil ver isso em homem”
“sou sim”
“oxe! e eu pensando que ainda existiam santos”
“e existem, mas até eles pensam em sexo. mas me diz, já leu algum livro?”
“li sim. quando criança eu lia muito cordel, é que eu sou lá do Rio Grande do Norte e lá a gente lê muito essas coisas”
“e sem ser cordel?”
“li também, um livro que me marcou foi O Pequeno Príncipe”
“humm, bom. e como caiu na vida?”
“moço, você deve saber como é: a gente vem lá de riba esperando encontrar o paraíso aqui em baixo, mas quando chega passa é fome”
“sei sim, é por isso que acredito que em vez de vocês descerem, a gente é que deveria subir”
Liz riu. a cerveja acabou, pedi outra, menos dez moedas no porquinho, mais uma nota de dez na caixa registradora do estabelecimento.
“a cerveja aqui é cara”, falei para Liz.
“é sim”, concordou ela, “mas não é só aqui”
“eu sei, não é só aqui mas em lugares assim”
“mas você não veio aqui a toa, veio?”
“entrei para me esconder da chuva”
ela riu.
“mas já que veio, vai aproveitar né? quer ir pro quarto comigo?”, convidou Liz.
“não, é sério, eu estava fugindo da chuva. não vou pra cama contigo, não me sentiria bem usando alguém que já leu O Pequeno Príncipe”
(e também não me sentiria bem pagando sei-lá-que-fortuna ela fosse me cobrar)
“oxe! mas você não disse que todo escritor é tarado?”
“eu disse?”
“disse sim, mas você é legal, eu vejo isso nos seus olhos. mas já que está aqui…”
“você quer ir pra cama comigo?”
“oxe! claro que quero”
“não estou falando por causa do meu dinheiro, estou perguntando se quer mesmo ir para a cama comigo pelo que eu sou, por eu ser legal como você disse”
“eu preciso ganhar a vida”
“eu não perguntei isso”
“quero. você é um cara legal e a maioria dos caras que aparecem por aqui não é. seria ótimo estar com alguém que valha alguma coisa”
“então me passa seu telefone”
“pra quê?”
“eu te ligo durante a semana e a gente sai, conversa e se rolar a gente vai pra cama como pessoas normais”
“não posso, norma da casa, nada de programas fora do estabelecimento”
“não estou falando de programa, quero um encontro”
“mas… comigo?”
“e por que não?”
“não posso mesmo, é sério”
“então eu vou embora. você mentiu quando disse que queria ir para a cama comigo. você quer é meu dinheiro”
“eu quero, mas… você vai mesmo me ligar?”
“quer apostar?”
“tudo bem, vou escrever no guardanapo, não deixa meu patrão ver, tá bem?”
“tá legal”
“você não é um cara para transar, é um cara para fazer amor”
depois disso, bebemos mais uma cerveja e eu fui embora. a chuva havia parado e eu estava quarenta paus mais pobre e com o telefone de uma garota de programa anotado em um guardanapo enfiado em meu bolso esquerdo.
liguei para ela quatro dias depois e marcamos para aquela noite, já que aquele dia ela não trabalhava. era uma quarta-feira e Liz estava linda num vestido preto e sandálias de salto alto, nada refletindo o decote vulgar da primeira noite. naquela quarta-feira, Liz foi a minha garota. bebemos, comemos juntos e, mais tarde, fomos para cama. ela estava certa, sou um cara para fazer amor. posso ir para cama com uma garota que nunca vi antes e apenas uma vez, mas naquele instante mágico ela será minha e eu a amarei como se fosse a mulher da minha vida.
além disso, fazendo amor, eu economizei uma boa grana.
07 de Setembro — 2009