Postado em Uncategorized em janeiro 17, 2012 por Andrew Clímaco

Adeus meus amigos.

Fim do blog.

Fim da escrita.

Fim de toda essa farsa que chamam de vida.

provas de amor

Postado em Poemas em janeiro 1, 2012 por Andrew Clímaco

não existem mais provas de amor
desde as pílulas do dia seguinte
o que há são escritores
ressaca
sodomitas
mas não provas de amor

acordar do lado
procurando um
cigarro
um sorriso
uma virada de ano abraçados
não são mais provas de amor

provas de amor não existem
desde as pílulas do dia seguinte
o sangue
as espinhas
um desenho à caneta na vagina
talvez o amor propriamente dito
o que não é uma prova de amor

dessas provas que não mais existem
desde que tivemos de aprender
a ver donzelas
em putas
desde as primeiras nostalgias
causas perdidas
livros ruins
desde as pílulas do dia seguinte
quando não há nada de especial em você
que outro não tenha

nada de provas de amor
nenhuma edelweiss
o amor é barato
demais

o amor é barato
demais

e não é preciso provas
para pagá-lo.

Andrew Clímaco; 01/01/2012

O DIA QUE A ÁGUIA DO DESERTO GRITOU

Postado em Contos em dezembro 11, 2011 por Andrew Clímaco

           

            Era um cara bom, um cara realmente bom.

            Andando na linha,

procurando a linha para andar,

se enrolando na linha.

            Um cara realmente bom andando nas ruas: um verdadeiro perigo.

            Certo dia ele entrou na escola.

            34 crianças, 24 salvas instantaneamente.

            Certo dia a águia do deserto gritou enquanto as cabeças explodiam.

            Ele é livre agora. Sem mais dores de cabeça,

sem mais dores de cotovelo,

sem mais…

           

            Mas nem sempre foi assim.

            Ele era um cara bom, chamavam-no de Dom. Não se sabe se pelo Quixote – com o qual compartilhava o amor pelas causas perdidas –, ou se por causa de uma música do Elvis que ele vivia a cantar – Don’t, que os menos fluentes em inglês podem ter desentendido e assim o apelidado. Ninguém cogitou a possibilidade do Casmurro, apesar de ele ter esse livro no armário.

            Só se sabe que era Dom,  nome verdadeiro desconhecido, venda nos olhos, outra estatística.

            Um bom garoto que nasceu em meio a uma guerra. Sangue pela boa aparência, as entranhas pelo avesso, sentimentos de amor, lealdade e amizade se escondem atrás das linhas inimigas – você é um inimigo se resolver cruzá-las. Dom nasceu em meio a uma guerra.

            Bom o suficiente para conseguir viver entre as bestas.

            Amando as bestas como se fossem anjos.

            Convencendo as bestas de que não eram tão más.

            Um bom garoto, muita paciência, sem mentira nos olhos. Só coração.

            Não havia inimigos, por mais que os amigos tentassem fazer dele um cara mau. Ele só dizia

            “Não, eu sou um cara legal, quero ser assim”,

            E passava noites inteiras em claro chorando quando o bamboleio ébrio de ser humano (ou o bombardeio desumano dos que se aproximavam) o fazia tropeçar e ele errava. Dom chorava, se auto-flagelava com navalhas; queria ser bom o suficiente para morrer. Porque os bons sempre morrem primeiro, diziam as más línguas.

            Contudo, ele não era de morrer. Vivia, sobrevivia. Por amor ao que o odiava.

            Nas ruas, o cigarro dependurado no lado esquerdo do lábio, batalhando uns trocados nas vielas. Não crimes, só sobrevivência. Dom era um artista, um ator representando o papel que as pessoas queriam que ele representasse, mas enquanto elas assistiam ao seu número, ele as assistia. Era o seu modo de ajudar os que estavam perdidos: falando a mesma língua.

            Era um bom garoto, cresceu entre as feras sem se deixar corromper. Tornou-se adolescente escrevendo poemas de amor, roubando flores para dar a menina mais tímida do bairro. E justamente porque ninguém gostava dela, ele a queria por perto. Compaixão, talvez essa fosse a palavra mais certa se amém ele não amasse de verdade quem sofria. E por causa da nobreza singela de Dom, pelo seu olhar singular sobre os detalhes que todo mundo deixava passar, pela sua constante insistência em fazer sorrir quem antes era conformada em ser rejeitada, essa menina, chamada Beth, o amou. E amando, o ensinou uma nova forma de amar – aquela que um dia o levaria a pedir paz, mas não ainda.

            Todos os dias, ao sair para o colégio, ele roubava uma flor da floricultura da esquina e seguia feliz rumo a casa de Beth, aquela menina tão diferente das outras. Ao chegar, ela sempre o estava esperando. Dom sorria, dava-lhe um beijinho e em seguida lhe entregava a flor roubada, como se com aquele gesto ele entregasse junto parte do seu coração ainda puro. Depois seguiam o caminho da escola de mãos dadas. Era assim todos os dias da semana.

            Nos finais de semana, iam juntos para o parque, onde ficavam abraçados saboreando os momentos únicos e insubstituíveis da descoberta fascinante do amor. Muitas vezes sem dizer palavras, apenas sentindo aquilo que era novo e forte o bastante para fazer sorrir mesmo sem dizer. Só era. Não sabiam explicar, apenas acontecia e era bonito e forte. Como uma águia a gritar no deserto, um tornado, o primeiro amor.

            Dom se descobriu feliz através dela e Beth, a menina que antes vivia triste por ser sempre a última a ser escolhida pras brincadeiras na escola, agora vivia sorrindo pelos cantos, escrevendo poeminhas em seu diário, e quando se olhava no espelho de manhã para escovar os dentes, já não se achava um monstro como antes; pelo contrário, ela dizia

            “Azar dos que não me quiseram antes, porque eu sou linda”.

            Linda, porque era assim que Dom a chamava e era assim que ele a via. Seu olhar singular trazendo a beleza das entranhas para o lado de fora. Arrancando da pele o sangue só para convencê-la de que era mesmo uma garota especial. Nunca mentindo. Eles eram dois agora, não mais sozinhos.

            Mas houve um dia que Dom não pode levar flores à sua amada. Caiu de cama, não pode ir à escola aquele dia. Beth achou estranho que ele não tivesse aparecido e naquele dia ela fez o caminho da escola sentindo-se um pouco menos feliz que o habitual. Na ida correu tudo bem, chegou a escola, teve as mesmas aulas chatas de física e química e passou os intervalos lembrando de Dom, preocupada, o que teria acontecido? Ainda assim era feliz, não deve ter sido nada. No entanto no caminho de volta, pela primeira vez depois de um ano e meio, ela estava sem ele ao seu lado. E, por injustiça poética quem sabe, justo naquele dia ela cruzaria com um dos maconheiros que pregavam o terror no bairro, justo naquela rua onde não passa ninguém, onde não há ninguém a quem se possa pedir socorro.

            O sangue em sua roupa rasgada, a vergonha desfigurando seu rosto, seus olhinhos vermelhos de tantas lágrimas sobre o seu corpo agora marcado. Foi assim que ela chegou em casa.

            Dom só saberia do ocorrido três dias depois, quando sua enfermidade já estava curada. Era um sábado, ele foi até a casa dela, a irmã o atendeu com cara fechada.

            “Eu não sei se ela vai querer vê-lo depois da sua covardia”

            “Covardia?”

            Ele não entendia, não imaginava o que havia acontecido. E quando ele entrou no quarto de Beth, instantaneamente ela começou a chorar e a gritar e a acusar:

            “A culpa foi sua!”

            Do que? O que eu fiz? Ele se perguntava enquanto se esforçava para segurar os braços dela que batiam; cada tapa, cada soco, cada lágrima era um grão de areia do seu castelo que se desfazia. Por fim, depois de muita luta, ele conseguiu acalmá-la. Ela se sentou à beirada da cama e depois de um silêncio longo ela lhe deu o último golpe, esse mais forte que todos os tapas, os socos, ou mesmo chutes que havia levado ao longo da vida. Um golpe certeiro direto no que até então batia dentro do peito.

            “Eu fui estuprada”.

            Fúria cega, sangue nos olhos, dor incomensurável. Quis saber quem foi.

            Ela não quis falar.

            Ele insistiu, falando forte, cego, dentes cerrados.

            “Fabiano”, ela choramingou o nome no bastardo. Dom deu-lhe as costas e saiu de sua casa como numa locomotiva com destino à morte. Ácido sulfúrico na menina dos olhos, músculos recém-criados para a guerra, o sacrifício da besta por amor às causas perdidas.

            Mas ainda assim teve tempo para premeditar tudo,

cuidadosamente,

detalhadamente,

friamente,

trancado em seu quarto, esperando a hora certa para o ataque.

            Preferiu esperar até à noite. Era a hora dos vadios, dos lobisomens e dos loucos vagarem pelas ruas. Meteu uns óculos escuros na cara, uma touca na cabeça, jaqueta jeans, luvas de couro. Um cano de metal pesado com uma curva na ponta. Ele era um cara bom, um garoto que agora precisava crescer.

            Bom demais pra deixar que aquela data passasse sem celebração.

            Saiu à rua feito máquina,

sem olhar para os lados,

destino certo.

            Dobrando esquinas como quem quebra ossos,

Stone Cold entrando no ringue,

o sangue fervendo,

ele era um cara bom.

            Adentrou a bocada, lá estava o cretino no seu dia de azar, bem hoje resolveu fumar seu barato sozinho. Vai ser bem mais fácil, o último barato de um otário. De Dom, apenas o primeiro.

            Ao ver Dom se aproximar, Fabiano, o verme, foi se levantando, como se já prevendo a merda que ia ter de engolir. Mas o primeiro golpe o atingiu entre o pescoço e o ombro direito, o baseado voou longe, o imbecil foi ao chão, exclamando desesperado

            “Que isso cara, não perde a cabeça, eu nem te conheço!”

            E o cano desceu dessa vez com ainda mais força, acertando-o na boca, quebrando boa parte dos dentes. E mais uma vez sobre o joelho esquerdo. E outra sobre as costelas.

            E outra.

            E outra.

            E outra…

            O som dos ossos quebrando se misturavam aos gritos do verme. Sangue no asfalto, aquilo era bonito aos olhos de Dom, porque ele era um cara bom e o verme era mau. O verme merecia a dor. Um imenso sentimento de satisfação ia tomando conta do corpo de Dom à medida que quebrava o corpo do filho da puta. Variava entre o cano e os chutes, às vezes pisadas na cara. Mas o cretino era forte demais e continuava gritando e gritando e gritando…

            Até que os braços de Dom começaram a doer e, num ato definitivo, ele pegou um dos braços do verme e apoiou no meio-fio da calçada. Desferiu-lhe então um golpe com o cano, esse, forte o suficiente para que, ao quebrarem, os ossos do maldito saltassem para fora. E enfim, ele apagou.

            Dom sorriu.

            Foi embora para casa sentindo-se melhor do que nunca. Ele era um cara bom, e agora era melhor do que sempre fora. No caminho descartou o cano em uma lata de lixo. Entrou em casa como se não tivesse acontecido nada, cantando a música Don’t do Elvis Presley.

            Mas aquela menina que ele amava nunca mais falou com ele. Ela o havia culpado por não estar com ela no dia que mais precisou dele. Dom também se culpou. Sentia-se um monstro por ter ficado doente e, assim, permitido que um verme fizesse voltar à tristeza a menina que ele havia salvado de se afogar nas lágrimas.

           

            Os anos passaram e agora ele era um homem. Não se deixara corromper. Era um cara bom, um cara realmente bom e não abriria mão disso por mais que a moda fosse outra, que estivesse vivendo em meio a uma guerra e que os seus ideais o fizessem um inímigo público.

            Tão bom que pouco antes havia tentado pôr fim à própria vida pela primeira vez. Ainda se lembrando do ocorrido com seu primeiro amor, percebera que estava num mundo de gente má, e que dificilmente se adaptaria a ele. Mas não conseguiu morrer e se sentiu culpado, porque talvez não fosse bom o suficiente para morrer cedo.

            Seguiu adiante, sendo um cara bom, à procura de exceções. Vivendo e amando uma causa perdida, ser bom. Acreditar em valores como amor, lealdade, amizade… Ninguém acreditava, cuspiam na sua cara, o deixavam congelar de frio nas sarjetas, todo mijado, a carteira roubada, gosto de uísque barato na boca. Fazia parte do jogo, ele lutava a favor do inimigo.

            Ele era um cara bom e certa noite, quando andava pelas quebradas, encontrou um sujeito chamado Jesus. Um tipo esquisitão que andava com uma gangue de vagabundos e tinha como plano acabar com a rivalidade entre as gangues do bairro. E esse Jesus lhe disse

            “Ei brow, se você quer mesmo ser um cara bom e fazer bem às pessoas que encontra, aprenda a suportar. Suporte os maus tratos, as indiferenças, as rejeições, mas continue fazendo seu trabalhando que uma hora eles acabam percebendo que você está do lado deles e se aliam. Perdoe qualquer um que tentar feri-lo”.

            “Mas e se eles não perceberem?”, perguntou Dom.

            “É um risco, mas faz parte da escolha que você fez. Não é fácil ser bom numa terra de gente má”.

            Dom pensara muito a respeito. Jesus era um cara bom também. Pena que os bons morrem cedo, e, não muito tempo depois, esse Jesus foi fuzilado num beco, depois de ser traído por um dos membros da sua própria gangue. Contudo, aquilo que dissera a Dom naquela noite fazia sentido e fez com que ele se tornasse ainda melhor do que era. Chegou até a quase se arrepender de ter espancado aquele filho da puta alguns anos atrás, mas não tinha volta. Esperava que não tivesse morrido.

            Ele era um cara bom, um cara realmente bom procurando melhorar.

            Conhecera outras mulheres depois da primeira. Suzie era uma besta como os outros, mas ele sabe que ela já não era mais quando o fez em pedaços. Ela disse

            “Vai, porque você é bom demais pra mim, e eu ainda preciso melhorar”.

            Ela ainda precisava melhorar, o que quer dizer que havia iniciado a sua busca: uma vitória.

            Algo parecido aconteceu com Natália.

            Bruna o trocara por um dos caras da gangue do Jesus, mas era um cara de ideais iguais aos dele.

            E ele também havia conseguido mudar os amigos que o haviam abandonado.

            Dom tinha o dom de tocar o coração das pessoas e assim fazer com que se tornassem boas. O preço que pagava por isso era a solidão, simplesmente porque ninguém ficava. Ele era um cara bom, mas pagava o preço de viver só, se escondendo em cavernas, comendo cacos de vidro, chutando latas. Tinha o corpo e a alma marcados, cicatrizes profundas. Vezes demais pensava em desistir e se entristecia até a morte num boteco das biqueiras chamado Getsêmani.

            Mas não havia como mudar, nascera assim, bom apenas.

            Nos piores momentos tudo o que mais queria era ser como os outros.

            Não se sentir tão mal quando tropeçasse nas pernas da sua própria humanidade.

            Sonhava com um lugar de paz, onde as pessoas o aceitassem como ele era.

            Ou mesmo um lugar onde não existissem pessoas, um deserto onde não precisasse se preocupar em amar, porque não haveria ninguém para amar.

            Mas era impossível, estava cavado na carne feito túmulo. Viveria morto, pois, mas seria bom até o fim. Sofreria, mas sofreria bem.

            Era triste, sim, mas que diferença fazia se ele era bom? Pensar nisso lhe trazia um fôlego novo. Só assim conseguia prosseguir em sua luta. Atrás da sua causa perdida.

            Conquistando pessoas, mudando pensamentos errados, estendendo a mão e conseguindo vitórias. Porque cada uma delas era uma vitória. Ele não era um fracasso, ainda que sempre acabasse sozinho no final de tudo.

            Até o dia que conheceu uma garota chamada Olívia. Era uma garota má, nada comum. Ela disse

            “Eu sou má, não tenho como mudar, eu sou assim e gosto de ser assim”.

            Muito embora aquilo não assustasse Dom, que estava sempre pronto a enfrentar qualquer tipo de besta.

            Ele era um cara bom, e lutou com Olívia até que ela se rendesse.

            E exatamente como aquela primeira garota que ele amou, Olívia o amou.

            E ele amor Olívia.

            Contudo, Olívia não mentiu quando disse ter o caráter imutável, mas Dom só percebeu isso tarde demais. Quando o peso de todas as rejeições, do desprezo, das chacotas, quando tudo de uma vez caiu sobre ele até que não agüentasse mais. Ele disse

            “Pra mim basta”.

            Era a conseqüência de quem até hoje lutou por uma causa perdida. Por quem teve fé no que os errados diziam ser errado. E já não importava mais o que aquele seu saudoso amigo Jesus havia dito. Era preciso cortar o mal pela raiz. Do problema o começo.

            Ele era um cara bom e se lembrou da história de um mano dos becos chamado Adão que fora parar debaixo da ponte por causa da maldade de uma sirigaita.

            Lembrou das cuspidas que levara da cara ao longo da vida.

            Do bastardo que pisara no seu primeiro amor só pra satisfazer seu desejo momentâneo.

            Era preciso cortar o mal pela raiz antes que se alastrasse como um câncer.

            Ele só precisava de um pouco de paz, se ver livre daqueles que o odiavam.

            Dar um salto definitivo para eliminar pelo menos um pouco do mal do mundo; nessa guerra, seria o seu Monte Castelo.

            O dom de Dom já não era suficiente, usaria novas armas.

            Uma busca pelas vielas, coisa fácil de arrumar.

            A águia do deserto preparava seu vôo.

            Desert Eagle .44, pistola israelense, balas de leite magnésia.

            Colt AR-15 contrabandeado nas costas,

só pra dar garantia.

            Ele era um cara bom, um cara realmente bom.

            Ele entrou na escola, a mesma escola para onde ele ia todos os dias acompanhado daquela menina para qual ele dava flores, Beth, sua amada da adolescência.

            Caminhou em direção às salas da 5º série,

os mais novos,

ele ainda se lembrava de onde ficavam.

            34 tiros certeiros,

34 bastardos,

24 mortes instantâneas.

            Porque amanhã vocês seriam como todos os outros.

            Maria Eduarda se tornaria a puta vestida de vermelho.

            Luquinha estupraria Mariana, a menina que sentava ao seu lado.

            Clarinha trairia o marido com metade da cidade.

            Adriano se tornaria um cantor de música sertaneja de sucesso.

            Gabriela abortaria os 4 filhos que viria a ter, etc.

            Mas a águia do deserto gritou a tempo,

ele era um cara bom,

um cara realmente bom.

            E continuava sendo um cara bom.

            Tiros acertados,

o sangue escorrido

era mais bonito do que

aquilo que eles seriam amanhã.

            Um gole de água no bebedouro,

seguiu para a porta de saída.

            A polícia já o esperava.

            “Armas no chão, mão na cabeça, malandro!”

            Mas ele era um cara bom

e via a sua paz agora,

havia feito a sua parte.

            Não deu ouvidos,

apenas foi saindo,

andando

tranquilamente.

            O primeiro

o acertou

no ombro esquerdo:

            Glock .40,

foi só um pulinho.

            O segundo

na perna direita:

            5.56x45mm, Colt M-16,

entrou por um lado

e saiu pelo outro.

            O terceiro,

o quarto,

o quinto…

uma gargalhada:

            HK G36, carabina alemã,

tórax,

abdômen,

estômago…

            O sangue escorrendo pela sua boca,

ele sorria,

era um bom garoto num dia bom,

o seu melhor dia.

            Em breve estaria em paz finalmente.

            Em breve poderia fugir de tudo para sempre

e ser bom num lugar onde todos eram bons

e não o odiavam por ser assim.

            O último foi aquele que o acertou na cabeça.

            Desert Eagle .44, balas de leite magnésia, sangue vermelho. Mas não a sua, e sim aquela nas mãos do policial que se tornaria o herói daquele dia – “FABIANO”, o nome bordado em seu uniforme,

não de um cara bom,

mas o herói daquele dia.

            Quando a águia do deserto soltou seu grito definitivo.

            Era um cara bom, está em paz agora.

 

Andrew Clímaco; 11 de Dezembro de 2011.

La Mamma Morta

Postado em Contos com as tags , , , , , em dezembro 5, 2011 por Andrew Clímaco

Morto. O corpo do feto colado ao farto seio da mãe. Feito vício de mar, fato: onda que vai e volta ad infinitum. Outro parto, a mesma parte que se esvai pela porta da carne, o mais perto, talvez o terceiro ou quarto, tanto faz. A dor do caçula é equivalente à dor do primogênito. Roxo, sufocado no cordão umbilical, ou forca da desventura, força contrária. Natimorto, natissanto. O martírio da mãe dos seios intumescidos de alimento. Nutrição, desperdício, autocomiseração. Por que eu, Pai? ela perguntava na cruz do leito de hospital. Leito de morte, berço da loucura. Branco de leite sobre amarelo colostro, a vida do filho pródigo num afresco na parede do fundo. O azul gélido das lágrimas de vidro cortando a face do desgosto. Oposto da felicidade idealizada, família. Papai, mamãe, as crianças e coelhinhos de louça enfeitando a estante. No entanto, agora nenhuma estante e os coelhos são ratazanas nos subterrâneos túneis da alma. Papai foi embora, cansou da mamãe assassina. As criancinhas assassinadas pelo carnívoro ventre da mamãe coruja. Escuro vazio sem filho. Vermelho sangue que escorre da abertura do útero. Assassina assassinada pela incapacidade de dar vida à outra parte sua. Outra parte morta, um pedaço a menos, uma ausência a mais. Este recomeço terminado, sua terceira ou quarta vitória derrotada. Bancarrota de ilusões, consciência de estar para sempre só. Poderia até tentar outra vez, tanto faz, no fim dá tudo no mesmo: ad infinitum.  É a onda do mar. Amar aquele que ainda não veio e que provavelmente não virá. Ressaca de quatro filhos mortos, tão só. Só isso. Sem mais. Não pode mais, então espera, calada. No seio a pele fria do menino Jesus sem olhos, o que salvaria a sua humanidade, caso em vez de morrer ele tivesse decidido dar uma mamadinha no bico dolorido do seio farto de vida. Vida morta, farta, espera. Pelo que não sabe ainda. Talvez apodreça, talvez desista de si mesma e de todas suas outras metades amputadas. Pode ser até que deseje nascer de novo só para que, como o filho abortado, também nasça morta. Tanto faz, só sabe que espera. Espera pelo dia que não precisará esperar mais assim. Santa, madre, morta.

Andrew Clímaco

matemática

Postado em Poemas com as tags , , , , em dezembro 1, 2011 por Andrew Clímaco

um homem
duas mulheres

4,5 bilhões de possibilidades
e um único caminho
para encontrar

felicidade
ilusão
amor

válvulas de escape
crianças
abrigo

e um único caminho
para encontrar.

há pessoas demais
no mundo
para fazer
da vida
um risco
constante

cada escolha é um tiro certo
que pode levá-lo sem escalas
para o fracasso

cada fracasso é uma consequência
das escolhas feitas ao
acaso

quantos fracassos ocultos
nesses 4,5 bilhões de
possibilidades?

quantas histórias interrompidas
crianças não nascidas
desamores?

quando existe um úníco caminho
para encontrar

todo o resto
inspiração
transpiração

consciência
quociente da
divisão

indecisão

um homem
duas mulheres

e um único caminho
para encontrar.

você pode acabar
vivendo a vida
pelas metades

você pode acabar
se tornando só uma
das possibilidades

num mundo sem manuais
onde você é só
estatística

estático diante da bifurfurcação
4,5 bilhões de riscos
e a impossibilidade
do regresso.

 

Andrew Clímaco; 01-12-2011

das garotas que se foram

Postado em Poemas com as tags , , , , , , , , em novembro 30, 2011 por Andrew Clímaco

garotas vão embora
e deixam a tristeza
é a sua herança
como filhos que jamais chegaram a ter
e mesmo assim choram a noite inteira
em seu ouvido lamentando algo
que você já não tem
elas vão embora
como rios em busca
de um mar ilusório
elas apenas seguem seu leito estreito
ignorando a fome em suas margens
a sede que as águas não matam
elas querem ser livres

garotas vão embora
e não se importam
que um dia sonharam
seus braços quando estavam
e não eram de todo alegria mas
ao menos preenchiam aquele lugar vago
nas camas
nas mesas de jantar
nos seus porta-retratos
na sua vidinha besta demais
sua vidinha que era tudo o que pediam
sua vidinha breve demais como um último suspiro
e ainda assim longa o suficiente
para que uma delas
ficasse com você
até o fim

garotas vão embora
elas sempre vão
não importa o que você faça
outros homens
outros anseios
outro Deus que não o seu
elas sempre arrumam motivos
e partem partem partem
partem você ao meio
e saem sempre vitoriosas
porque enquanto você
ainda lembra
de cada uma delas
e sobre elas escreve poemas como este
há muito elas já o esqueceram.

 

Andrew Clímaco; 30-11-2011

Outro Poema de Charles Bukowski seguido de Outra Alfinetada de Andrew Clímaco

Postado em Crônicas, Humor, Nonfiction, Outros Autores, Poemas com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , em novembro 30, 2011 por Andrew Clímaco

Pro Zé do MCP

artista

 

de súbito me torno um pintor.
uma garota de Galveston me dá
US$ 50 por um quadro de um homem
segurando uma bengala doce enquanto
flutua por um céu escuro.

então um jovem com uma barba negra
aparece
e eu lhe vendo três por US$ 80.
ele gosta de telas grosseiras
nas quais escrevo coisas como –
“cague” ou “GRANDE ARTE É
BOSTA DE CAVALO, COMPRE TACOS”.

posso fazer um quadro em 5 minutos.
uso tinta acrílica, direto do
tubo.
pinto o lado esquerdo do quadro
primeiro com minha mão esquerda e depois
termino o lado direito com minha
mão direita.

agora o jovem barbudo
retorna com um amigo com um cabelo
todo espetado e eles trazem um loirinha
com eles.

o barba negra continua sendo o mesmo otário:
vendo-lhe um punhado de merda –
um cachorro laranja com a palavra
“CACHORRO” escrita ao seu lado.

o cabelos espetados quer 3 quadros
pelos quais peço US$ 70.
ele não tem grana.
fico com as telas mas
ele promete me mandar uma
garota chamada Judy
de cinta-liga e saltos altos.
ele já lhe contou sobre mim:
“um escritor de fama internacional”, ele disse
e ela respondeu, “oh, não!” e puxou
seu vestido sobre sua cabeça.
“eu quero isso”, eu lhe disse.

depois discutimos as condições
eu quero comê-la primeiro
e depois receber um boquete.
“que tal o boquete primeiro e
depois a foda?”, ele perguntou.

“isso não funciona”, eu disse.

então chegamos a um acordo:
Judy virá até aqui e
depois
eu alcançaria a ela as
3 pinturas.
e assim estamos:
de volta ao escambo
o único modo de vencer a
inflação.

apesar disso
gostaria de
iniciar aqui o Movimento pela Libertação Masculina:
quero uma mulher que me dê 3 de
suas pinturas após fazer
amor comigo,
e se ela não souber pintar
pode me deixar
um par de brincos de ouro
ou talvez um pedaço de orelha
em homenagem àquele que era
era capaz.

 

Charles Bukowski (in O Amor é um Cão dos Diabos; L&PM, 2007; tradução de Pedro Gonzaga)

 

Ok, estou de acordo com o Velho nesse negócio de Movimento pela Libertação Masculina. Eu até andei pregando por aí uma ideia que tive sobre todo ano fazer uma Parada do Orgulho Macho pelas ruas de São Paulo igualzinho os gays fazem (tenho certeza que o Gustavão do MCP entraria nessa comigo). Afinal de contas, as mulheres estão mesmo querendo tomar o lugar dos homens em tudo, não? Pelo menos nas coisas boas elas vêm com esse papo de direitos iguais. Certo, por isso digo que estou esperando uma mulher que escreva um livro ou pelo menos um conto e meia dúzia de poemas sobre mim depois que eu a levá-la pra cama, como forma de agradecimento. Uma mulher que me pague uma bebida e um jantar pra me conquistar, que banque a “cavalheira” quando a conta do restaurante, do bar ou do hotel chegar. Uma que pague o táxi. Que me traga café na cama. Isso também são direitos iguais e, sendo assim, vocês, meninas, já me devem uma nota preta por todas as vezes que tive de arcar com as despesas sozinho. Cadê as feministas numa hora dessas? Aposto que saíram correndo. Estão atrás só da coisa boa do bagulho, porque quanto as dificuldades de ser um homem aparecem enfiam o rabinho por debaixo das pernas e saem correndo. Mas eu, que sou um cara legal, continuo à favor de vocês, queridas: vamos trocar de lugar. Não se esqueçam que eu sei cozinhar muito bem e posso até lavar a roupa.

 

Andrew Clímaco; 30-11-2011

UM GIRASSOL DA COR DA SUA ESPERA

Postado em Contos com as tags , , em novembro 26, 2011 por Andrew Clímaco

Ela entrou em casa às 7:13. Era terça-feira, um dia cansativo no trabalho e ainda tinha mais da metade da semana pela frente. Colocou a bolsa na mesa da sala e dela tirou o maço e do maço um cigarro, o primeiro do finalmente em casa. Agora aceso, era o prêmio merecido após longas horas sufocada nas burocracias do escritório e o horror cinzento dos prédios de São Paulo que tanto a incomodava. Poderia tomar um banho, mas antes era preciso vê-lo, seu projeto de felicidade – ou feliz-cidade, posto que São Paulo só seria feliz se ele soubesse, de alguma maneira, arrancar girassóis das esquinas e com eles substituísse as flores artificiais que enfeitavam as estantes do seu apartamento ou mesmo as rosas vermelhas mal colhidas que vez por outra no trabalho ela recebia sem saber de quem eram.

            Ela que não gostava de rosas vermelhas porque eram cafonas e ordinárias, sendo assim, passara boa parte da vida esperando um homem que soubesse lhe dar girassóis. Nem precisava ser um buquê, um só já estaria de bom tamanho. Girassóis eram mais verdadeiros que as rosas, sempre voltados para o sol havia neles, apesar da imperfeição estética, uma espécie de alegria que a atraia para eles. Pensara, certa vez, até em pintar o cabelo de loiro só para que a música cantada por Lô Borges fosse ainda mais dela. Girassóis não eram ordinários. Contudo os homens que conhecera não falavam a mesma língua, só a linguagem burra das rosas que não falam, rosas que ela recebia de bom grado, mas quase ansiosa pelo momento que elas murchassem e morressem. Um buquê de rosas mortas não era um girassol, mas, como a gaivota de Tchekhov, poderia conter algum significado em oculto que justificasse sua atenção para aquele que as enviou. Esperança tola, ela sabia, mas como poderia suportar viver num mundo onde os homens não sabem dar girassóis se não conseguisse, a sua maneira, fazer apologia das rosas cafonas? Embora estivesse cansada. Cansada de tanto trabalho sem motivação ou mesmo do descanso que nunca era suficiente para aliviá-la da rotina, cansada daquela cidade opaca e vazia cheia de rostos iguais e rosas descartáveis, cansada de ter de inventar desculpas para as rosas que não eram girassóis, de sonhar girassóis, de esperar.

            Esperava. Nas últimas semanas não uma espera em vão, mas uma espera com rosto, pêlos e cheiro. Esperava por aquele que sempre se atrasava, mas nunca falhava. Por aquele que nunca havia lhe mandado rosas, mas, a seu modo, jamais se esqueceu de lhe dar flores. E as suas flores não eram mudas como as dos outros. Imperfeitas, elas falavam de coisas que só ela com o seu coraçãozinho cansado de tanto bater e apanhar (o qual, num sarcasmo doído, ela passou a chamar de podre) poderiam entender. Não era um ser perfeito, sequer o achava bonito, mas ele tinha as flores e ela precisava vê-lo. Abandonaria qualquer compromisso noturno que pudesse vir a surgir para passar algumas horas com ele. Porque ele era o seu projeto de feliz-cidade.

            Caminhou para o quarto quase apressada. Sabia que sem estar, mais uma vez atrasado, ele estaria esperando por ela. Sentou-se na cama e tirou os sapatos deixando-os cuidadosamente sob a cama. Enfiou-se por debaixo dos cobertores fofinhos, abriu um sorriso e pôs-se a conversar com ele por horas e horas até que o sono os pegasse de jeito e se despedissem entre flores e corações trocados. Um último beijo, até.

***

            Havia sido assim nas últimas semanas. Semanas que se emendaram e se fizeram meses. Ele estava sempre atrasado, mas nunca deixava de vir. E nesse atraso constante, a cada noite passada com ele, cada noite dormida com as suas palavras sussurrando ao pé do ouvido, cada florzinha imaginada que ela recebia dele em seus delírios de mulher sozinha, mais e mais ela o sentia perto, quebrando paredes, derrubando portas, quase dentro. Só ele sabia que o podre daquele coração era só uma máscara para enfrentar o mundo e poder engolir todas aquelas rosas mal colhidas sem precisar tirar os espinhos. Rosas que ela já não engolia mais, porque não precisava. A solidão dos dois combinava e enquanto juntas elas reclamavam da vida, eles, do outro lado, eram quase dois.

            Dois. Porque dois era melhor do que um. Nós no lugar do nó em sua garganta.

            Vou dar nós em nós, ele dizia.

            Ela sorria, imaginando que ele tivesse um sorriso bonito.

            Imaginando que ele combinaria bem mais em sua estante que aquelas insossas flores de plástico que não falavam e nem sorriam.

            Seu único defeito é que sempre se atrasava. E nos seus atrasos São Paulo continuava cinza, o trabalho cansativo e o descanso nunca bastava. Ele estava atrasando seus sonhos de feliz-cidade, e às vezes chegava até a odiá-lo por causa disso. E quando o odiava, só pensava em fugir; levantava-se da cama irritada, jogava pra fora os cobertores, os travesseiros, o notebook e saia do quarto batendo a porta quase na cara dele – quem dera acertasse. E corria para a sala, louca, desbaratinada, engolindo cigarros acesos e cacos de copos de gim inventados, até tropeçar em alguma coisa no chão e cair em meio a um pranto quase absurdo, posto que ele não era nada.

            Mas no chão, em lágrimas, ela olhava para o que a havia feito tropeçar: um buquê de rosas de um vermelho vivo que chegava a doer nos olhos. Eram rosas, não girassóis. Estúpidas rosas que de nada serviam a não ser para que ela se sentisse um lixo. Porque a sua vida havia sido até então um mar de rosas. Era isso, havia vivido toda a vida num mar de rosas e o que poderia ser o sonho de muitas mulheres não era o dela. Ela odiava rosas e havia passado toda a vida afogada nelas, desde que, quando menina, um vizinho de óculos fundo-de-garrafa e aparelho nos dentes resolvera lhe dar uma rosa tirada do jardim de sua casa dizendo que ela era a menina mais bonita do bairro. Ficou encantada, menina. Mas em poucas semanas o menino cresceu e as rosas murcharam, só deixando como lembrança seus espinhos cavados em seu coraçãozinho de menina que ainda acreditava em príncipes encantados e nas músicas do Bon Jovi montado num cavalo branco. Depois daquela, vieram outras rosas, uma atrás da outra, uma chuva delas até que em sua vida se fizesse um mar. Rosas com promessas mudas que morriam na primeira ou na segunda noite e nem se preocupavam em telefonar depois para saber se ela estava viva. Ela estava, mas as rosas, há muito, haviam murchado. Como muitas de suas esperanças de encontrar um girassol nas esquinas cinzentas daquela São Paulo fria.

            Era depois do tropeço que o ódio passava. E ela se lembrava que ele não era feito de rosas, ainda que tivesse as suas, as que falavam não do verão, mas do que virá, atrasado, mas virá.

            Fazia, então, do tropeço um passo de dança e voltava pro quarto abraçando travesseiros com seu sorriso de girassol a pedir desculpas. Abria novamente o notebook e lá estava ele, paciente (em sua imaginação sorridente) vindo em sua direção, os braços para o alto, quase entregue.

            E mais uma noite terminava com as suas palavras de travesseiro sussurrando ao pé do ouvido, suas florzinhas imaginadas e outro último beijo, até.

***

            Até que um dia, em mais um de seus atrasos, ele falou uma palavra nova. Palavra essa, que nos últimos anos ela havia desacreditado, já que todas as vezes que a havia escutado, a palavra viera acompanhada das mesmas rosas que sempre murchavam. E agora vinha dele, que dizia que essa palavra não se diz, só se sente. Ou se diz, diz-se no silêncio que fala muito mais do que a boca que também serve para dizer mentiras. O silêncio que não mente. Mas ele ousou quebrar as regras e disse. Quando nela, aquilo doeu mais do que qualquer um de seus atrasos.

            Quis fugir, sim, como sempre pensava em fugir quando aquilo parecia-lhe irreal demais para caber em seu sonho. Mas, dessa vez, ao correr não tropeçou. Passou pela sala desvairada e parou diante do corredor que divide a sala da cozinha.

            Eu não caí, pensou. Seus olhos grandes e amendoados serviam agora de pretexto para o pânico estampado em seu rosto. Eu não caí, seria mesmo a hora certa de fugir? E ao deparar-se com essa possibilidade, teve vontade de chorar, não pela queda, já que esta não aconteceu, mas porque pela primeira vez não encontrara a armadilha que a fazia sempre voltar correndo para as florzinhas imaginadas e a realização dos sonhos de feliz-cidade que ele dizia ter para ela. Logo agora que ele resolveu chutar o medo pro espaço e subiu da escada o último degrau, ainda que atrasado. Logo agora que estamos tão perto de ir além do quase, que ela perdeu a vergonha e contou para todo mundo que o seu coração não era podre e sim cor-de-rosa, quando ela havia se adaptado tanto à presença dele que havia até comprado uma cama maior, já que a que tinha antes era de solteiro, para que ele se sentisse mais confortável ao lado dela. Logo agora ele disse: eu te amo.

            As lágrimas rolaram sim, porque talvez ele fosse só um igual aos outros – e quem sabe até inventasse agora de lhe mandar rosas vermelhas para tentar impressioná-la. Talvez fosse isso que ele tivesse planejado desde o começo, fazer da sua vida um mar de rosas, quando mar de rosas já era e ela não agüentava mais. Que me ama, por que tinha que dizer? Por quê?

            Decidiu-se então que não mais o procuraria, que aceitaria todos os convites e compromissos que tivesse para a noite, dormiria mais cedo, qualquer coisa, mas não falaria mais com ele. Ela o esqueceria, fingiria que fora delírio, que jamais aconteceu. Voltaria para sua vidinha de rosas mal colhidas, mas que ela sabia que eram rosas e não precisava sonhar girassóis para engolir seus espinhos.

            Contudo, antes de ter a chance de pôr em prática seu plano de esquecimento, ali mesmo, parada em frente ao corredor que divide a sala da cozinha, ela se lembrou que não havia trazido para casa as rosas vermelhas que havia recebido hoje no trabalho. E se lembrou que andava fazendo isso a mais de uma semana, talvez duas, pois ela sabia que aquelas rosas mal cheirosas não a interessavam. E se lembrou do quanto sem estar ele sempre estava e não falhava e tinha uma palavra certa para cada uma de suas frases inacabadas. Raciocinando melhor, chegou à conclusão que a liberdade da fuga até tinha o seu sentido, já que o amor por ele descrito não era uma coisa que se pedia enquanto ela, por sua vez, vivia a repetir que só aceitava o que queria; logo, ele havia feito do jeito dela, deixando-a livre para aceitar ou não o amor que ele havia lhe oferecido. Raciocinando ainda, pensou que para o amor, posto que é sentimento louco, não existem regras, sendo assim, dizendo, ele havia quebrado as regras que ele mesmo havia imposto, mas não as regras do amor que é ausente de regras. Ela havia esperado pelo que, senão por aquilo?

            Respirou fundo, deu meia volta e caminhou para o quarto, não sem deixar de, no caminho, lançar um sorriso sarcástico para o lugar de seus tropeços.

            Abriu o notebook.

            Ela: Eu aceito.

            Ele: Que?

            Ela: Eu te amo.

***

           Ela entrou em casa por volta das sete. Deixou a bolsa na mesa da sala e disse que o dia mais uma vez havia sido estafante, embora produtivo. O cigarro, agora aceso, não era um prêmio, pois não podia mais se contentar com tão pouco. Talvez uma bebida não fosse de tão mal, amanhã é sábado e estará de folga. Seu primeiro sábado desde que ele chegou de seus atrasos para ocupar espaço entre os móveis de madeira cuidadosamente encerada e os abstratos coloridos nas paredes. Caminhou para a cozinha tirando os sapatos, permitindo-se pelo menos desta vez não ter o cuidado de guardá-los, abandonando-os ali mesmo, no corredor que divide a sala da cozinha. Voltou descalça, em uma das mãos uma garrafa de gim pela metade; na outra, a direita, dois copos. Seguiu para o quarto e o encontrou sentado na cama com seu cigarro entre os dedos e um sorriso de criança de orelha a orelha. Por um instante parou e o olhou como se no gesto de olhar fosse capaz de transmitir a ele todos os desejos que a caixinha de pandora dentro do seu útero escondesse. Essa curva nos lábios sob o olhar de ressaca é quase uma entrega, um pedido, um sorriso tímido para aquele ser que esteve atrasado, ainda que ali sempre estivesse. Olhos fundos de pouco sono e muito trabalho medem a profundidade nos copos cristalinos como quem pergunta: até onde?

            Ela diz que é melhor ele não beber muito gim, mas ele retruca dizendo que é a nossa primeira noite e podemos comemorar. Ela o olhou como que insatisfeita, mas derramou o líquido no copo até quase enchê-lo. Ele bebeu.

            Bebeu tudo num só gole. Porque só a bebida é capaz de fazê-lo sentir-se menos nervoso, afinal, assim como ela o havia esperado, aquele homem passara noites em claro a imaginando, juntando seus pedaços, costurando tudo para que uma hora ela estivesse completa. E ali estava ela, completa e sem quebra-cabeças. Pronta e dele.

            Ele enche outro copo, bebe. Ela diz que desse jeito ele vai acabar passando mal.

            E, de fato, depois de algumas horas ele está bêbado. Sorri, diz que é tarde demais e, em meio a um cabaleio, vomita um girassol. Um enorme girassol amarelo cheio de dentes. Diz: “é pra você”. E, ao ver a surpresa, ela pula nos seus braços dizendo que sempre esperou por aquele momento. Ele a beija, ela o beija.

            Seus olhos de ressaca buscam a cura nos olhos dele enquanto a boca dele mata a sede na boca dela. Ele a faz cair na cama e a cobre, ela o sente, firme, vivo, nada ordinário. Continua a beijá-la da boca ao pescoço ao colo e, enfim, diz que é a hora, agora, sem mais atrasos.

            E ainda entre beijos, ele tira seu vestido da cor do girassol que os assiste ao lado da cama, o sutiã, a calcinha e, quando percebe, também já não tem mais roupas. A pele dela toca a pele dele e o silêncio que grita de seus corpos fala bem mais do que aquela palavra que hesitaram tanto em dizer. É quando ele apaga as luzes e diz: boa noite.

            E ela responde: Boa noite.

            Eles dormem, os dois, enroscados feito gatos em noite fria com o girassol vomitado voltado para os seus corpos.

            São Paulo parecia mais feliz.

 

Andrew Clímaco; 26 de Novembro de 2011

MEMÓRIA INVENTADA DE TRISTE PUTA

Postado em Outros Autores, Poemas com as tags , , , , , , em novembro 9, 2011 por Andrew Clímaco

[Certo, eu nunca fiz isso, mas tem sempre a primeira vez. Esse texto foi deixado como comentário no meu “ERÓTICA V” pela nossa amiguinha Arabel (vamos chamá-la assim, ok?) e é tão docaralho que eu não podia deixar de repostar aqui, na página principal. Talvez ela me processe por não pagar os direitos autorais, mas ta tudo bem: vai valera pena. Espero que gostem.]

Vou usar minha melhor roupa, aquela inda impregnada com o teu cheiro, que é pra modo dele se misturar com o cheiro novo, o dele, o Ele com quem eu hei de trombar. E então me prostrarei de novo como puta, de quatro, nua, só de salto, vou deixar ele morder. Arrancarei os pêlos pelos pêlos, rasgando roupas, pele e restos, deitando tudo num canto de chão – minhas preces e pregas, lá bem no meio do meu todo arreganhado, feito vadia num quarto inda mais sujo que os que costumávamos trepar. E trepar, palavra linda que você me dizia, pois agora é que vou usá-la, fornicá-la, fornecê-la ao primeiro metido a escritor que aparecer. Ai, as palavras! As que a gente inventava, as que eu gostava de te dizer, todas elas, palavras lambidas de orelha a não-saberes, palavras molhadas e remolidas, aquelas todinhas, pois vou deixá-las serem por outro escrevinhadas, enfiadas nos meus buracos, meios, médias, frestas, rasgos, quereres. Palavras que eram destapadas, incautas, mambebes. Elas todas, aquelas, baixas, vis, intensas, incontidas, elas vão agora é servir para dar muitos nós em nós. Eu vou é te foder, dar pra outro comer. Todo dia, o dia inteiro. E rir às gargalhadas, promover meu cio de encruzilhada, aquele que te fazia chorar, gemer, implorar, lamber, ceder. A curvatura do rio agora vai ser é pra outro, o que há de aparecer, o Ele que vai beber nos meus dentros a cachaça barata que você não levou, esqueceu. E enquanto ele me fode, mandando: engole! eu juro que vou te esquecer. E no entusiasmo da metida, no quando do roçar do corpo entregue à esfolada e à estoquida, acontecer d´eu chorar um pouco e isso me fizer lembrar de você, eu vou é fingir ser a chegada de mais uma gozada. Vou pedir para ele meter mais, depois engolir o choro e o derramado dele, e jurar, de novo, já ter esquecido você.

Arabel.

De Sarjetas e Estrelas (o teatro das sobras) [excerto]

Postado em Citações, Contos, Nonfiction, Uncategorized com as tags , , , , , em outubro 26, 2011 por Andrew Clímaco

Como prometido, segue aquele excerto do meu romance De Sarjetas & Estrelas, que eu acabei de escrever, mas deixei de lado para trabalhar em CULT.

Ato II

.um

       Ficava na Bela Cintra.

       Finalmente havíamos chegado ao prédio onde mora o primeiro amigo que Ela queria que eu conhecesse. Pode ser que ele nos arrume um cantinho para passar a noite. É bicha, Ela me preveniu antes de entrarmos.

       Nunca entendi por que mulheres gostam tanto de ter amigos gays. Minhas namoradas todas tinham pelo menos um. Ela tem vários. Não que eu tenha alguma objeção. Amigo gay é bom, melhor que hetero-gavião. Melhor que nêgo babando minha carne. Melhor que filho da puta a fim de papar meu barato.

       A porta se abre. De fato é viado, só não esperava que o cretino falasse daquele jeito. Em falsete, igual o Freddy Mercury Prateado. Muito embora não seja forçado. É a voz dele, desde criança, me informou Ela.

       Penso que algumas pessoas já nascem com vocação para dar o rabo. As pernas de suas calças têm a espessura do meu dedo indicador. Parece uma garça. Não faço ideia de como conseguiu se enfiar ali dentro. Usa blusa de mulher. Seu nome é Grilo. Provavelmente, seu primeiro nome deve ser Bicho.

       Bicho-grilo Leite Aquino Rego.

       Seguro para não demonstrar que por dentro estou rindo.

       Ele aperta minha mão com uma leveza exagerada demais para um homem. Me olha com ar de curiosidade. Sua voz aguda me faz cócegas. Quero rir, mas me contenho.

       O apartamento é bacana. Bem arrumado. Um monte de discos e dvds na estante. Coisa fina, MPB, Jazz, cinema europeu. O sofá é vermelho. Macio. Bom pra trepar. Do outro lado da sala uma mesa com um iMac dos caros. Tela grande. Uma cadeira que parece confortável. É onde o bicho-grilo se senta.

       Ela no sofá ao meu lado. Fala mais que o normal. Fala igual um papagaio hiperativo que tomou benzedrina. Fala como se tivesse feito download de algum espírito maldito. Mais que o Homem da Cobra. Mais do que na noite do vinho. Palavras vazias. Piadas sem graça. Um trompete free-jazz num sequenciador ritmo psytrance.

       Com o viado, não comigo. Eu não existo. Deixei de existir a partir do momento que adentrei este recinto. Estou sozinho. Sou um móvel. Sinto vontade de tirar minhas meias e enfiar na sua boca. Ou então atirar a bichinha pela janela. Seria mais divertido.

       Não que eu queira falar. Não tenho muito que dizer. É gente demais. Mais de dois é tumulto. Somos dois mais um. E ainda disseram que outro está para chegar. Outro viado. Então serão dois mais dois. Ou melhor, três menos um. Porque eu não existo.

       Ele até que tenta puxar papo. Mas aquela voz me tira qualquer possibilidade de falar a sério.

 

       Grilo – Eu li as coisas que você escreve. Você é bom.

       O Personagem – Bom que tenha gostado…

       Ela – Eu não falei que ele era bom? Pois é, amiga, nem te conto, a gente tava…

 

       Não. Ela não quer que eu fale.

       Ela sempre me interrompe.

       Estou sobrando.

       Estou de fora observando.

       Eu sou o olho da câmera, cinema mudo.

       Ele insiste.

 

       Grilo – Você não fala muito.

       O Personagem – É que…

       Ela – Ai amiga, ele é escritor. Escritor não tem que falar, escritor tem que observar…

 

       De fato Ela não quer que eu fale.

       Esse não é o meu mundo. Eu sou um intruso.

       Outra vez, me sinto tentado a estrangulá-la.

       Depois jogar a veadete pela janela. Ver se bicha sabe voar ou se vira purpurina antes de tocar o solo.

       Antes o interfone toca. Só o que faltava. É o outro viado. Estou em desvantagem. Sou minoria.

 

       Entra um cara com pose de galã de filme dublado. Barba na cara. Olhar papa-moça e olheira de charme. Meio Mickey Rourke de cabelo ondulado. Um brilho esquisito ao apertar minha mão e me abraçar que.

       Não pode ser. Não é possível que esse cara seja. Não condiz com a espécie. Tem até barriga de chope. Mas.

 

       Ela – Amiga, quanto tempo!

 

       Ela o chama de amiga também. É o viado mais macho que já conheci. Escuto seu nome no ar, Kiky. Ou qualquer coisa terminada em KY. Talvez Riky. É isso. Seu nome é Riky. É mais chato que o outro. Mais simpático. Não me deixa quieto. Quer que eu fale. Senta à nossa frente, no chão, em posição de semi-lotus. Grilo também está mais perto, numa cadeira próxima à estante de discos. Riky quer me fazer falar. Quer me arrancar da paz de minha inexistência. Quer vasculhar o meu mundo.

 

       Riky – Me fala sobre o que você faz. Você é escritor, né?

       O Personagem – É. Eu escrevo.

       Riky – Ela falou tanto de você. Nem imagina.

       Ela – Também né? Desencalhei. Mó partidão.

       Riky – Pois é. Além de escrever, o que você faz?

       O Personagem – Eu bebo e fumo. Fumava. Ela não gosta dos meus cigarros.

       Riky – Liga não. Com o tempo você se acostuma. Ela é chata assim mesmo.

       O Personagem – Isso eu já comprovei.

       Ela – O que? Me respeita. Me deixa viver, garoto!

 

       Ela me dá uma cotovela e uma gargalhada.

       Todos riem, menos eu. Não gosto de palhaçada.

       Esse mundo não é meu. Esse é o mundo dos outros. O inferno são os outros. O inferno não sou eu.

 

       Riky – Já que falou em fumar, vou acender um baseado. Fuma maconha também?

       O Personagem – Não. Não gosto.

       Riky – Se quiser, disponha.

 

       Jamais fumaria maconha com alguém que eu não conheço. Menos ainda com alguém que parece estar me investigando.

       Riky acende o baseado. Nem precisou enrolar, já tinha um preparado dentro do maço de cigarros. Ouvi dizer que aqui em São Paulo todo mundo fuma maconha. Outra vez quero contrariar as massas.

       Fumaria um cigarro tivesse eu um cigarro para fumar.

       Fumaria um cigarro se eu não fosse contra pedir cigarros.

       Fumaria um cigarro Ela não fosse uma chata.

       Se eu estivesse em casa. Ou ao menos me sentisse em casa nessa casa que é só deles. Os outros. Quero trazer Ela de volta para o meu mundo de dois. Olho-a no olho, expressão grave como se pedisse: vamos embora. Ela não escuta. Continua a matraquear.

       É quando olho para Grilo. Ele lambe a tampa de alumínio do iogurte que toma. Lambe me olhando, me secando, como se lambesse a cabeça de um pau. Ela também vê e solta uma gargalhada.

 

       Ela – Que isso, Grilo. Secando meu namorado?

 

       Todos riem. Eu rio forçado. Não vejo graça. Não estou à vontade. Sou um pé-no-saco. Gosto de ser um pé-no-saco. Mas aproveito a deixa pra me livrar dos encostos.

 

       O Personagem – Depois dessa, só tomando uma. Que tal irmos prum bar?

       Riky – Tem bebida aí, pode beber o que quiser.

 

       O desgramado aponta para a estante cheia de bebidas.

       Porra. Será que ninguém vê que não quero ficar?

       Vou ter que apelar para a desfeita.

 

       O Personagem – Prefiro ir prum bar.

       Ela – Sim, vamo todo mundo pra Augusta.

 

       Pela terceira vez, sinto vontade de esganá-la.

       Desta vez, a vontade é quase insuportável.

       Por que tinha que convidá-los?

 

       Riky – Vamos sim. Vamos, Grilo?

       Grilo – Vamos. Só trocar de roupa.

 

       Merda. Toparam. E ainda vou ter que esperar a bicha se trocar.

       Odeio esperar. Deve demorar pacas.

       Talvez até dê tempo de esganá-la antes dele voltar.

       Me sinto aviltado.

 

       Entramos no elevador. Riky tentando posar de mais macho que eu. Grilo viado pelos dois. Ela rindo como o Pica-pau depois de sacanear o Buzz Buzzard. Depois de me sacanear com suas brincadeiras nada engraçadas. Eu impaciente esperando a porta abrir para dar o fora.

       Todos falam besteira. Tanta bobagem que aos meus ouvidos escapa. Não quero escutá-los. Não me interessa o que falam.

       Só volto ao meu corpo quando a porta do elevador enfim abre. Grilo sai correndo, dando pulinhos na ponta dos pés e segurando a bundinha.

 

       Grilo – Toda vez que eu dou meu cuzinho sangra, não sei por quê?

 

       Ela cai noutra gargalhada.

       Riky olha para Grilo com carranca de macho. Falo grosso.

 

       Riky – Isso é porque você ainda não tá acostumado.

 

       De fato. Tomar no cu não é tarefa fácil. Começo a entender por que Riky bota toda essa panca de macho. É viado há mais tempo. Deve nem fazer careta na hora de dar o rabo.

       Me pergunto o que faço aqui, entre esses cretinos?

       E Ela, como pode andar com esses sujeitos e ainda assim ter tantos pudores? Sequer deixou que eu comesse seu cuzinho, disse que nunca tinha feito, mas que um dia seria toda minha. Disse que fui o primeiro a gozar na sua boca. Devo ter caído igual um patinho. Conto do vigário. Moeda de vinte centavos.

       Sinto vontade de comer o rabo d’Ela, como um despacho. Um livramento. Descontar n’Ela meu desconforto por Ela ter me apresentado às pessoas erradas.

       Só que a noite ainda não acabou. Sequer conseguimos um lugar pra ficar. De qualquer forma, na casa deles não fico. Prefiro a rua a ter de dormir sob o mesmo teto que esses imbecis.

 

       Ela – Preciso passar em casa antes. Quero pegar uma blusa e já aproveito pra tranqüilizar os meus pais com alguma desculpa.

 

       Na Consolação, espero do lado de fora do prédio onde Ela mora.

       Se não bastasse, Ela insistiu para que Grilo subisse com Ela, deixando Riky para me servir de agradável companhia.

 

       Riky – Não é fácil a vida aqui em Sampa. Tem que ralar muito.

 

       O imbecil fala como se eu não soubesse.

       Fala como se eu fosse um retirante iludido.

       Fala como se eu não tivesse morado aqui antes.

 

       Riky – Se não tiver uma grana guardada, aí fode ainda mais.

       O Personagem – Eu sei como é, já morei aqui.

 

       Falo ríspido. Como quem não quer continuar o papo. Ele ignora.

 

       Riky – E namorar Ela também não é tarefa fácil. Você deve saber que Ela não tem muita responsabilidade, não se prende muito a namorado.

       O Personagem – Eu sei. Não ligo.

 

       É claro que eu ligo.

       Essas palavras me doem porque temo que sejam verdade.

       Que outra vez eu esteja bancando o otário.

 

       Riky – Você nunca pensou que Ela pode estar usando você para alcançar uma coisa que Ela já queria há muito tempo, que é sair de casa?

       O Personagem – Não. Ela só está unindo o útil ao agradável.

 

       Defendi. Mas no peito sinto a dúvida retorcer.

       Ele a conhece há mais tempo que eu.

       Ela sempre se vangloriou de só ter amigos leais.

       Aos poucos as máscaras vão caindo. Resta saber se são d’Ela ou se são dos amigos.

 

       Riky – Mas com o pai d’Ela você não vai enfrentar problema não. Ele vivia emprestando o carro pra Ela sair com o antigo namorado.

 

       Fico calado. Ele está jogando pesado. Quebraria sua cara se eu soubesse que o que ele diz não é verdade. Fico com raiva d’Ela. Não quero mais sair. Quero ir embora. Quero sumir.

 

       Ela volta. Meia hora depois de ter subido. Com a mesma cara de boba, como se nada tivesse acontecido.

       Eu já não finjo rir mais.

       Eu já não finjo que está divertido.

       Sequer me importo em bancar o amigo.

       Não me interessa o que eles vão pensar.

 

       Chego Ela num canto e digo que ainda precisamos procurar um lugar pra ficar. Que é melhor cancelar a bebida.

       Ela expressa surpresa, faz cara de triste, pergunta: por quê?

 

       O Personagem – Porque sim.

 

       Me limito a dizer.

       Ela fala de uma amiga, que podemos ficar lá.

       Eu digo que está tudo bem, mas a bebida ainda está cancelada.

 

       Ainda assim descemos os três até a Augusta. Onde nos separamos. Dois pra cada lado.

       No caminho, Ela continua com as brincadeiras sem graça. Pentelha. Me usando de objeto para fazer graça para os amiguinhos bichas. Pulando, correndo ao meu redor. Falando borracha. E quando tendo segurá-la.

 

       Ela – Me deixa viver, garoto. Me deixa viver!

 

       Se Ela soubesse que eu já estava com raiva dela, talvez não fizesse isso.

       Se Ela soubesse que o amiguinho querido d’Ela esteve fazendo minha cabeça contra Ela, talvez não fizesse graça pra ele.

       Se Ela soubesse que eu sinto vontade de estrangulá-la, talvez não deixasse o pescoço ao alcance das minhas mãos.

 

       O inferno são os outros. Sartre não tava errado.

       Melhor só do que mal acompanhado.

       Depois que nos livramos dos encostos emboiolados, eu sigo calado. Grave. Segurando firme sua mãe esquerda.

       Ela ainda ri como uma panaca elétrica.

 

       Ela – E então, gostou dos meus amigos?

 

       Não respondo nada.

       Deixo que o silêncio da minha cara fechada responda por mim.

       Ela nota. Percebe que algo está errado.

 

       Ela – Você não tá bem. O que houve? Tá sentindo alguma coisa? Tá bravo?

       O Personagem – Nada.

       Ela – Como nada? Está estampado no seu rosto.

       O Personagem – É claro que estou bravo, como queria que eu estivesse: sorrindo feito um retardado?

       Ela – Comigo?

       O Personagem – Claro.

 

       Aquilo a acertou como um tapa bem dado.

       Instantaneamente sua expressão de boboca dissolveu-se numa cara de cachorro esfomeado. Olhos tristes. Lacrimejantes.

 

       Ela – Por que? Que é que eu fiz?

       O Personagem – Acho que nem preciso responder, você sabe.

       Ela – Juro que não sei.

       O Personagem – Eu não sou um brinquedinho pra você usar pra fazer graça pros seus amiguinhos de merda.

       Ela – Mas eu…

 

       Blackout. Assim tivemos nossa primeira discussão.

       Ela tentando se defender. Eu acusando.

       Pra no final, feito romance barato, acabarmos nos beijando. Eu pondo de lado o orgulho e a desconfiança. Eu engolindo toda a merda que havia rolado naquela noite. Eu dizendo: também te amo.

O JEITO QUE ESCOLHI PRA PERDER O MEU TEMPO

Postado em Crônicas, Nonfiction com as tags , em outubro 17, 2011 por Andrew Clímaco

Não tenho tido sobre o que escrever. Tenho ficado em casa, dentro do quarto, sufocando na fumaça dos meus próprios cigarros. Demiti as namoradas, as noitadas, os baratos. Às vezes ligo o videogame (é, eu tenho um, admito), que é o jeito mais cruel de substituir os amigos — que eu também demiti. Olhando as paredes dentro do quarto, falando sozinho, tropeçando nos móveis. A melhor maneira de fugir do mundo dos outros, esses que só me incomodam quando estão há menos de cem metros de mim. Até já pedi demissão da vida, mas os sacanas não aceitaram; alegaram que o meu contrato é vitalício (viver é uma eterna redundância). O jeito é ficar por aqui mesmo, no meu porre de Coca-Cola ou Guaraná Antarctica, revisitando meus discos empoeirados do Elvis Presley que há muito o mau gosto das pessoas fez esquecido. Na maior parte do tempo eu finjo que tá tudo numa boa, mas confesso que sinto uma puta falta do meu tempo, de quando ainda existiam jovens no mundo pra dividir a solidão. Hoje só têm velhos, até as crianças são velhas, o rock and roll morreu. Hoje a turminha já nasce abortada num show do Luan Santana; o que às vezes me irrita pra caralho. Eu nem devia, eu sei, mas o problema é que a maioria desses filhosdaputa não sabe da existência dos headphones, então sou obrigado a acordar todo dia ouvindo esses porres de tabela, de camarote direto pros aparelhos de som dos meus vizinhos que também deviam ser jovens, mas nasceram abortados no mesmo lugar que os outros, aqueles que já morreram e nem se deram conta. A verdade é que eu tenho pena dessa gente (e eu sei bem que ter pena é bem pior do que odiar, mas eu não os odeio). Desses que quando eram adolescentes nunca pararam sequer um minuto pra escutar um Skid Row, nunca tiveram um momento em que pensaram em fugir de casa, nem nunca se deram conta numa tarde de domingo que a vida é blue demais pra passar em frente à televisão. Esses que nunca tiveram uma nostalgia de fim de noite. Tenho uma pena desgraçada dessa gente que nunca teve coragem nem de ir ali na esquina levando a própria cara, esses que andam pra tudo que é lado levando a cara que compraram na liquidação só porque a propaganda era bem feita, que nunca se perguntaram “que porra é essa?”. Desses caras que trocam o orgulho e o caráter e escutam Luan Santana só porque acham que é assim que as garotas gostam; eu tenho uma pena fodida dos caras que trocam o melhor que poderiam ter por uma foda suja com uma dessas biscates que não valem uma puta de vinte cruzeiros. Tenho ainda mais pena dessas pobres coitadas que já se esqueceram do que é ser mulher e se tornaram produtos baratos, suvenires ordinários, manequins expostos numa vitrine na qual num dos cantos se pode ler: 100% off. 100% off de tudo: ocas, podres por dentro, vazias. Tenho pena de todo mundo que acha que a vida é só sexo. Tenho uma pena filha da puta de quem nunca chorou por uma mulher ou um homem que foi embora, de quem nunca andou com All Stars furados e de quem prestou atenção demais nas opiniões impressas nas revistas que acabou se esquecendo de ter as suas. De toda essa gente que nunca rabiscou o próprio nome na página de rosto de um livro, mas tem um IPad sempre a mão só porque é legal ter um IPad, um IPod, um IPodre, um IPutaquemepariu. De quem nunca viu um filme do Jim Jarmush, de quem nunca ouviu falar em Jim Jarmush e nem procurou conhecer porque estava ocupado demais achando ducaralho o filme Closer ou qualquer bagulho que tenha passado na Tela Quente da Globo. Não tenho pena só dos ignorantes, mas ainda mais pena desses que pensam e mesmo assim agem pior do que os cabeças ocas. E vivem cheios de tabus, prepotências, lugares-comuns, que acham que sabem tudo sobre a vida só porque leram um ou dois livros de filosofia, mas nunca pensaram em viver pra comprovar se é mesmo daquele jeito. Tenho pena dos cults, dos hipsters, dos pseudointelectuais e também dos intelectuais, porque eles também precisam de uma válvula de escape, que é o ego. De todo mundo que falou bem ou mal sem conhecer. Tenho pena de quem nunca entrou numa igreja e pena de quem nunca saiu de uma. De quem nunca pisou na Praça Roosevelt em São Paulo porque tinha medo de ser assaltado ou levar quatro tiros e, em vez disso, acabou bêbado ao lado de uma garota chata no Bar do Netão ou em qualquer esquina da Augusta às 2h34 da madrugada. Tenho pena de quem vive se escondendo atrás dos limites impostos pela sociedade atual, que vive de modas, que não resiste a uma boa publicidade, mas não admite isso nem sob o cano de um M16, desses que são tão manipulados quanto os outros e nunca tiveram peito pra se atirarem do precipício quando a maldita dor na alma bate no saco. De quem nunca votou nulo ou justificou um voto e mais pena ainda de quem acreditou (ou ainda acredita) que o Lula é o Messias. De quem perde tempo levando a sério a politica do país. Pena de quem ainda se diz brasileiro e uma pena descomunal de quem se orgulha disso aqui. De quem nunca sentiu vergonha. Eu tenho pena de quase todo mundo que rasteja por esse mundo sem nunca olhar pra trás pra ver quem vem vindo. Tenho pena de quase todo mundo… Enquanto isso, procuro paliativos pro desespero. Qualquer coisa que me tire da cabeça a ideia de que nada disso vale a pena e que se eu morresse amanhã não faria a menor diferença pra ninguém, muito menos pra mim mesmo. Só que ainda que eu morra (como tantas outras vezes morri), sou burro o suficiente pra ressuscitar depois pedindo bis. Bebendo Coca-Cola, escutando Elvis, escrevendo sobre coisas que não interessam a ninguém, porque na verdade ninguém sabe ler hoje em dia. Tudo é feito de imagem e se dá bem melhor aquele que coloca na internet um vídeo de si mesmo estuprando sua filhinha de 5 anos do que alguém que já perdeu madrugadas inteiras lendo livros e escrevendo. Não tô reclamando, longe disso. Só acho que tô perdendo meu tempo. Apesar de tudo, eu sei que eu não vou parar. É a vida: tempo não se ganha, tempo se perde e cada um escolhe perder o seu tempo de um jeito — uns escutando música ruim, outros vendo reality shows ou tentando a todo custo provar a não-existência ou a existência de Deus. Eu prefiro perder o meu tempo assim, acreditando que os meus planos de menino ainda são possíveis, chorando com livros e músicas antigas, escrevendo pra enganar a solidão dos meus 24 anos que logo serão 25 ou 65, não faz diferença. E na verdade eu nem ligo pra essa solidão, afinal de contas, fui eu que escolhi estar assim. É o meu inferno de cada dia, o inferno no qual escolhi viver: meu inferno particular. E ele é pequeno demais; infelizmente não têm lugar pra todo mundo e a maioria vai ficar de fora. Atualmente não há ninguém lá, só eu sentado numa cadeira mastigando azeitonas. O meu sorrisinho debochado no espelho da minha avó que já morreu, mas que se estivesse aqui eu queria fazê-la acreditar que está tudo bem: tá tudo bem, vó, não precisa se preocupar. E do lado de fora, uma garota esmurrando a porta tentando entrar, mas eu já sei que não vai dar em nada. E eu nem vou chorar, porque já me acostumei. Apenas dou de ombros, finjo que nem ligo só pra manter a minha pose irresistível de Tom Waits em Dawn By Law, quando tudo o que importa na minha vida são os meus sapatos que, pela graça do tempo, ainda não estão furados. O resto pode ficar pra depois.

Andrew Clímaco; 09 de Outubro de 2011.

Pergunta:

Postado em Uncategorized em outubro 5, 2011 por Andrew Clímaco

Existe, por acaso, nesse mundo pelo menos uma garota que não tenha medo de se atirar das alturas sem antes fazer um milhão e meio de objeções? Uma que ao chegar perto do penhasco não desista, não olho pro outro lado, não peça arrego? Existe uma que nem pense se tem medo ou coragem, apenas faz porque sabe que aquilo fará bem a ela e ela se arrisca simplesmente porque é melhor se arrepender do que fez do que viver o resto da vida amargando aquilo que não realizou por medo, existe?

Quero muito acreditar nisso, mas não está fácil…

Escrevi novos trechos de CULT. BabyBlue, minha personagem lírica-louca, finalmente entrou. E acabou se tornando uma personagem fundamental do livro: é ela que liga a linha do começo e do fim costurando os capítulos.

Não tenho um texto novo pra postar aqui. Logo venho com algo melhor que o último.

Andrew Clímaco.

ERÓTICA V [She was dressed in black]

Postado em Contos com as tags , , , , , em outubro 3, 2011 por Andrew Clímaco

ELA ESTAVA VESTIDA DE PRETO, numa das mesas, com dois caras. Dizia: vai pro inferno, enquanto ria, talvez sincera, das piadas que eles contavam.

          Entro em cena, cigarro no bico, cagando nas leis de São Paulo. Eu vim do inferno, não faz diferença, contudo, entre o sexto e o sétimo passo, um segurança que não presta nem pra fazer o papel de um gorila me aborda.

          Não pode fumar aqui, senhor.

          Assim mesmo, todo educado, senhor. Mais um trouxa pra acabar fodido. Mais um fodido nesse mundo tosco. Jogo fumaça em sua cara, o cigarro no chão, piso. Ele me olha com cara de sopa fria. Dou de ombros, sigo até a mesa. Ela ri, nem percebe que estou ali.

          Não rio, em vez disso seguro um de seus braços que encontro no ar: Você vem comigo, sentencio. Ela me olha com cara de que porra é essa? Um dos cretinos se mete, diz pra soltá-la. Lanço lhe um olhar; acerto em cheio, ele cospe sangue, chia igual rato. O outro, mais esperto, nem quis se meter. Repito: você vem comigo, aperto seu punho.

          Pra onde?

          Não importa.

          Enfio Ela num táxi. Digo o endereço ao chofer, um hotel. No caminho Ela me enche de perguntas. Finjo que não escuto, seguimos. Ela perguntando. Meu silêncio. Chegamos.

          No quarto, Ela entra. Entramos, tranco a porta; fico com a chave. Acendo um cigarro. Entre a fumaça Ela me olha como se tivesse entendido.

          Então é isso?

          É isso que você quer?

          Isso. Diz, até se aproximar. Até ficar perto o suficiente pra tentar desabotoar minha camisa. Até ser empurrada. Ela faz cara de cachorro esfomeado. Vou pro outro lado, sento na cadeira.

          Então o que?

          Silêncio. Grave. Trago. Por que me trouxe aqui, Ela quer saber. Como se o que eu dissesse servisse para curá-la. Por quê? Ela insiste, se faz de doce, sorri. Não me convence. Então me lança aquele seu olhar superior, se esforçando pra me diminuir. Controlo o tesão, Ela volta a se aproximar. Se abaixa, toca o zíper da minha calça. Como se o meu pau em sua boca fosse suficiente pra calar o que dentro dela grita. Empurro. Levanto. Ela zomba.

          Pau pequeno, é isso né? Sou sensitiva.

          Boa jogada, belo jeito de se levar um homem pra cama: faça-o provar. Não ligo. Apago o cigarro no cinzeiro sobre a mesa, volto ao lado oposto do quarto. Ela me segue, feito cachorro esfomeado. Quer uma resposta. Sou mudo. Ela está vestida de preto, um vestido. Veio pra matar. Fica irritada. Quase estrangulada. Quer me derrubar.

          Você é um louco. Por que me tirou dos meus amigos se não tem coragem? Perdedor. Vai fugir agora, vai?

          Ela segura meu ombro, paro. Saco outro cigarro do maço, engatilho, de costas pra Ela. Miro as paredes. Acendo. Grave. Trago. Um tiro. Volto-me pra Ela, que me olha. Com raiva. Quase chora. Quase ri. Quase implora. Pelo quê?

          Acho que sei o que você quer, fala amolecendo. Mas isso eu não dou, está podre, não vai servir pra você.

          Jogo fumaça em seu rosto, sorrio em escárnio. Idiota, Ela me acusa sobranceira, a tentativa desesperada de quem já perdeu o controle. Falsa segurança: teatro cego. Nem ligo.

          Você é um cretino, Ela insiste, sempre soube disso. Você não serve pra mim. Me deixa ir embora!

          Continuo imóvel, o mesmo sorriso de lado. Ela fala que isso é tortura, que eu não a conheço, que eu sou psicopata.

          Eu não tenho nada pra acrescentar à sua vida. Sou só corpo, por dentro vazia. Coração podre. Desiste. Eu não tenho nada pra acrescentar à sua vida.

          Quase chora. Mas tem orgulho. Se revolta. Pula sobre mim, meu cigarro voa sobre a cama, tenta pegar a chave em meu bolso. Sorrio. Ela me xinga, tenta me jogar pra baixo, me humilhar. Sorrio. Ela insiste, no tempo exato…

          Com uma das mãos seguro um de seus braços. Com a outra, seu cabelo. Pressiono-a contra a parede. Olho em seus olhos. Ela diz: Não, está podre! Quase chora. Com a mão solta me bate.

          Solto seu braço, continuo a segurando pelo cabelo. Toco seu peito: ainda bate. Você não pode ter, não importa o que faça: eu já construí o muro, você não pode atravessá-lo.

          Sorrio. Deslizo a mão pela barriga, as nádegas, as pernas. Ela insiste: você não pode ter, há um bloqueio.

          Brusco, levanto o vestido com a mão que pressiono entre suas pernas. Com força. Ela geme, me come, implora. Balanço a cabeça negativamente. Aquilo você não pode ter, está podre, não tenho nada a acrescentar à sua vida.

          Pressiono a mão com ainda mais força entre suas pernas, para que doa. Dói. Sinto meus dedos úmidos, Ela geme. Há um muro…

          Não importa, falo. Eu entro dentro de você (forço ainda mais os dedos, quase penetrando-a por sobre a calcinha) e arranco com os dentes cada um dos tijolos desse muro. Derrubo tudo e depois marco meu território no seu corpo com o meu sêmen. No seu ventre, na sua pele, na sua boca.

          E antes que Ela tenha tempo de falar, dou um puxão em seu cabelo e a atiro sobre a cama, agora em chamas. Ela cai de bruços, avanço: sem medo, sem pudores, sem calças. Levanto o vestido preto, rasgo fora a calcinha, a assassina despida e tudo se abre para mim.

          Ela grita: Sim.

Às 23h42min os bombeiros são informados sobre o incêndio no hotel.

 

Andrew Clímaco, 01 de Outubro de 2011.

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ERÓTICA
ERÓTICA II
ERÓTICA III
ERÓTICA IV 

Ciranda 15

Postado em Poemas em setembro 15, 2011 por Andrew Clímaco

Muitos me chamam de chato
Poucos são aqueles que se enganam
Eu deveria escrever um poema sobre a moça nua na peça
Beber um copo do corpo o vinho que escorre
Ser mais sensível sonhar menos socos
Sem desdém desenhar um verde retrato de Baby Blue
Mas é que eu ando sacocheio desse mim mesmo que fala
Desse interlúdio interno que incha meu peito e extravasa
Sinto vontade de comer minhas metades minhas meias inteiras
Como sempre fosse feriado acordar segunda-feira planejo
Amanhã debaixo das saias saio de fora do mundo mudo de rumo
Esse pedaço de mim que não cabe em mim e procura refúgio
Fujo Juliana desvestida dança Elvis on Velvet sobre lagartixas
Eu me sento ao centro dessa solidão sonambula
Acendo um cigarro finjo que esqueço de tudo que jamais esqueço.

 

Andrew Clímaco; 15 de Setembro de 2011.

SinCity blues [arpejos]

Postado em Contos com as tags , , , em setembro 9, 2011 por Andrew Clímaco

Blues…

        Escuras são as ruas.

        Os corredores são longos.

        Este quarto abafado.

        Chamo esta garota de Suzie Q, mas nunca perguntei seu verdadeiro nome. Estamos vivendo num Hotel de pulgas no extremo da downtown. Putas e bichas são nossos vizinhos, os cães fazem a guarda tombando latas de lixo. Os viciados comem o lixo dos outros. Sarna para os inimigos. Não há amigos. Cada um com seu próprio tipo de inferno. Cada inferno com seu tipo de demônios. Não se meta em trapaças que não são suas, mama said. Não fale com estranhos.

        Meu inferno é sartreano. Um dia ponho fogo neste hotel com as bichas e as putas dentro. Um dia ponho meu pé na estrada outra vez. Pra nunca mais, falo bem alto pra que as bichas escutem, pra nunca mais ouvir falar.

        Mas hoje é o blues que estala nos corredores vazios. Minha cama de gato desarrumada, os lençóis cheios de manchas de porra. Os outros rindo cada vez mais alto nos corredores que nunca acabam, que nunca chegam às ruas escuras.

        As ruas que não dão em lugar algum.

 

——

 

        Há um trezoitão na gaveta da escrivaninha.

        O problema é com você, grita Suzie Q, fica aí sentado com essa cara de trouxa e não reage. Qualquer hora dessas as bichas vão estar cagando na sua cabeça e você ainda vai estar aí com a mesma atitude perguntando cadê meu cigarro, cadê a porra do meu cigarro…

        Acendo o cigarro. Finjo que a coisa não é comigo, mas ela sabe que eu estou escutando tudo, então continua:

        Eu disse pra você dar um jeito, se arrumar, saca? Eu disse pra você abandonar essa pose de lado e encontrar outra coisa pra fazer que não seja ficar aí sem fazer nada. Outra forma de viver, qualquer coisa menos desonesta que a bebida e os tacos de bilhar…

        Pausa. Meu sorriso é sem graça, meio de lado.

        Mamãe já dizia, filha minha, toma cuidado com esses homens que aparecem por aí cheios de sorrisinhos. As pessoas mentem, as pessoas lá fora mentem, meu anjo, era assim que mamãe dizia. Mas eu me calei quando você veio pro meu lado, eu é que fiquei cheia de sorrisinhos pro seu lado quando você chegou falando mansinho… tão mansinho. Ah, mulher é muito burra! Olha aí, olha o que é que eu fui arrumar pra minha vida…

        Balanço a cabeça afirmativamente, não digo nada. É sempre assim, todo mês, cada tpm um novo show — daqui a pouco ela vai começar a atirar minhas roupas pela janela.

        Você é um filho da puta! É isso que você é sabia? Um filho da puta sem tamanho. Eu te pedi, cara, eu pedi não pedi? É claro, é claro! Você não escutou. Você nunca escuta nada do que eu falo. Você… Ah, quer saber? Não agüento mais. Eu vou embora, cara, vou fazer minha vida noutro lugar. Pode ser qualquer lugar, portanto que seja um lugar onde você não esteja. Eu vou, já estou indo. E olha o que eu faço com as suas coisas…

        Isso não, grito tentando impedi-la. Mas antes ela já tinha atirado meus livros pela janela.

        Há um trezoitão na gaveta da escrivaninha.

        Balanço a cabeça — agora inconformado.

        Ela diz que vai embora.

        Penso que depois dessa ela pode ir pros quintos dos infernos.

        Levanto pra dar o fora.

        Baby please don’t go, ela pede.

        Bato a porta na cara dela.

 

——

 

        Na rua um noiado me aborda.

        Perdeu, parceiro, passa tudo que eu sei que cê tem aí.

        Meto a mão no bolso da jaqueta. Tremo.

Anda logo, antes que eu te fure, passa tudo que cê tem aí, ele insiste.

        Tiro a mão do bolso enfiada num soco-inglês. Dou a ele tudo que eu tenho, bem no meio da cara. Quando ele cai, continuo a bater. Amasso sua cara como se fosse barata. Até que o concreto do asfalto fique vermelho e viscoso.

        Sigo meu caminho tranqüilo como sempre, afinal de contas não fui eu que perdi a cabeça.

        Um verme a menos na sociedade.

 

——

 

        No bar peço um gim. Mando o barman descer logo a garrafa que hoje a fossa vai ser longa. A bebida desce suave como um gato de unhas afiadas a escorrer pela garganta. Torno a encher o copo — bebo.

 

——

 

        Pelos corredores, as bichas me provocam — dentre tantos pardieiros no mundo, tinha eu que cair justamente num que serve de puteiro de travestis? A vida às vezes é engraçada. Só eu não acho graça. Dizem que eu não tenho humor. Meu humor é caro.

        Então como é que vai ser hoje bofe, Chico Doce me empurra na parede e mete a mão entre as minhas pernas, cê sabe que procê eu faço é por puro prazer, né?

        Qual é, bicha? Por que não procura outro pra azucrinar? Meu inferno já está superlotado.

        A gente sempre arruma um cantinho, onde cabem dois…

        Empurro a cabeça de Chico Doce contra a parede. Ele cai rogando pragas. Me faz ameaças, diz que as coisas não vão ficar assim de graça. Diz que vai me dar o troco. Dou de ombros. Bato a porta do quarto morrendo de vontade de dar um tiro naquele viado.

        Um dia, um dia ainda boto fogo nisso tudo.

 

——

 

        Meu filme favorito, Suzie Q me espera pelada na cama.

        Nosso quarto não tem cortinas. Só isso pra me acalmar.

 

——

 

        Há um despacho na porta do meu quarto — galinha preta, velas vermelhas, farofa. Suzie Q ri deitada na cama. Eu não acho graça. Lembro do revolver na gaveta da escrivaninha. Ainda encho o cu daquela bichinha de bala. Antes que Suzie Q diga qualquer coisa, boto minha jaqueta e vou dando no pé. Ela ameaça, diz que não vai estar quando eu voltar — eu não escuto, sei que ela me ama, sei que vai estar no mesmo lugar. Caio fora.

 

——

 

        No corredor, escuto ela correndo atrás de mim. Me espera, ela diz — e eu espero.

 

——

 

        Naquele tempo, eu vivia a desenterrar velhos livros da poeira das bibliotecas públicas. Naquele tempo eu ainda era um bebê. Eu não havia sido tocado pela angústia de viver, eu não havia pirado, eu ainda tinha futuro — naquele tempo. Mas aquele tempo passou e as coisas mudaram, tudo desandou, as fantasias foram substituídas por uma realidade áspera demais para ser engolida sem sentir ânsia de vômito. A realidade que eu tenho bebido todo santo dia — sem gelo.

        Esse cara pára na minha frente. Ele me olha com cara de pastel de feira. Eu não digo nada porque eu não tenho coisa alguma para dizer e não imagino o que esse cara queira, caso ele queira alguma coisa. Se quiser, está procurando no lugar errado — eu não tenho nada, nunca tenho nada. Mas ele apenas me olha e continua me olhando sem dizer palavra.

        Viro a cara, finjo que não é comigo, tiro do bolso um maço, do maço tiro um cigarro que acendo — trago olhando pro outro lado. O movimento está fraco, não há vivalma a não ser. Torno a olhar o sujeito — ele continua no mesmo lugar, a mesma cara de bolacha traquinas, o mesmo silêncio. Lanço-lhe um riso forçado como se dissesse cai fora. Ele meneia a cabeça e finalmente fala: Você não devia andar com a braguilha aberta na rua. Ok, está certo, ainda mais com malucos como este soltos por aí.

        Subo o zíper — torno entrar no bar.

 

——

 

        Com o sol batendo na cara acordo na rua. De ressaca outra vez e outra vez a carteira já era. Suzie Q não está por perto, deve ter sido seqüestrada. Não é uma boa garota, mas é o que posso ter. É tudo o que me permito amar. Me levanto — a cabeça fica no chão. Abaixo para pegá-la com as mãos, minhas costas doem. Torno a botar a cabeça sobre o pescoço. Pesa uma tonelada. Sigo o caminho de casa, em ziqueziquezague. Me agarro num poste — num segundo e num terceiro. Chego.

        A porta do quarto está trancada. Ao meu redor algumas bichas e putas riem em coro. Me aprontaram uma.

        Onde é que ela tá? pergunto.

        Sei lá, se cê não consegue cuidar das suas mulheres, acha que a gente é que vai cuidar?

        Mando ir à merda. Dou meia volta — saio.

        Na entrada da espelunca encontro Lucille, uma putinha que vive me dando bola.

        Ela saiu com umas bichas aí, Chico Doce e tal, diz Lucille, acho que foram pralguma balada.

        Balada? Mas achei que ela tinha deixado essa coisa de balada no passado…

        Pois é, paixão. Fica andando com esse tipo de mulher, dá nisso.

        Logo com as bichas, logo com essas bichas.

        Logo com essas bichas, concorda Lucille.

 

——

 

        O quarto de Lucille é mais arrumado que o meu. Nem toda grande mulher é uma puta, mas toda puta é uma grande mulher. Ela fez café pra ajudar com a ressaca. Ela me deu docinhos. É mais atenciosa do que minha mãe jamais foi — essa puta vai pro céu, penso.

 

——

 

        Bright Lights Big City. Suzie Q não deu as caras. Minha paciência já foi pro saco. É tudo uma merda. Não tem mais jeito — eis o momento do inevitável acontecer. É hora da revelação. Ninguém haverá de dizer que ela não procurou.

        Você já tá pronta?

        Lucille diz que sim. Peço pra ela esperar um pouco.

Caminho pelos corredores até alcançar o meu quarto — arrombo a porta. Junto algumas coisas, meto na mochila. Na escrivaninha o trezoitão — pego. O resto que se foda. No corredor uma bicha me aborda — não estou pra papo. Nunca estive pra brincadeira sem graça. Aponto o trezoitão na cara da bicha — ela fica caladinha.

        Lucille ainda me espera no quarto. Entro — saímos.

 

——

 

        É num boteco que vemos na tevê a notícia de que o Hotel das bichas pegou fogo. Lucille e eu engolimos nosso café em silêncio. Fico imaginando a cara que Suzie Q deve ter feito quando chegou lá e viu que a espelunca virou fumaça — bem feito, quem mandou me trocar pelas bichas.

 

——

 

        A vida é mais dura do que mostra a novela das oito.

 

Andrew Clímaco

 

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Vamos Sair da Chuva Quando a Bomba Cair

Postado em Artigos, Crônicas, Nonfiction com as tags , , em setembro 8, 2011 por Andrew Clímaco

Mário Bortolotto salvou minha vida esta noite. Ele me salvou trazendo de volta à vida uma coisa dentro de mim que andava adormecida (para não dizer morta): a autoestima. Eu, que andava tão desligado de tudo, tão apático, tão distante das coisas que um dia fizeram o sangue nas minhas veias terem uma razão para continuar correndo, agora me sinto finalmente pronto para mais uma dose. O Mário Bortolotto salvou minha vida. E ele fez isso sem nem se dar conta.

          Deixe-me explicar melhor: foi através de uma peça que eu li e que talvez ele nem se lembre de tê-la escrito. Eu estava sentado na minha cama, notebook aberto, me preparando para assistir pela centésima vez o filme Táxi Driver, quando resolvi dar uma olhada nesse texto que está aqui faz alguns dias. Foi quando me deparei com esse cara, Hassim, que… Porra! Sem firulas de linguagem desta vez: eu simplesmente me vi representado em seu personagem. Cada diálogo, cada gesto, sua visão peculiar do mundo, seu gato comedor de azeitonas — não havia a menor dúvida: era eu. Não um amigo, não uma caricatura, era eu e ponto. A única diferença era a idade: ele com 32 e eu com meus 24. Tudo bem, pode ser que ele seja eu amanhã. E é exatamente aqui que começa a entrar o negócio que salvou minha vida, mas ainda não vou falar sobre isso.

          Fato é que essa identificação com o turco porto-alegrense do Marião foi virando um nó que começou a apertar a minha garganta e me sufocando cada vez mais à medida que eu avançava as páginas. Até que chegou um momento que eu simplesmente não aguentei mais e joguei (ou melhor, puxei) o lenço: chorei como um derrotado deve chorar ao tomar consciência da batalha perdida. A verdade é que ele tocou em pontos que eu mesmo não me permitia mais tocar e, consequentemente, me levou a tocar em outros. O conformismo explícito e a inércia de Hassim serviram de chave para abrir portas dentro de mim que eu mesmo havia trancado, e quando passei por elas, me vi caindo em abismos que eu, por autodefesa, havia esquecido. Eu apenas caí.

          E o que isso tem a ver com salvar a vida de alguém? Alguém pode estar me perguntando, e eu já respondo: tudo. Para curar uma ferida, é preciso que esta deixe de sangrar. Hoje, por causa dessa peça, eu me permiti sangrar até a última gota, sangue este que já devia ter corrido há muito tempo, mas que, por imaturidade (admito), eu preferi esconder sob um band-aid e então continuei vivendo na ilusão sincera de que não havia nada, como se nunca tivesse me ferido. Mas aí veio esse cara, Hassim, e arrancou o curativo expondo aos meus olhos o corte ainda aberto. E doía pra caralho.

          Só agora vejo que esperei tempo demais para colocar as cartas na mesa diante de mim mesmo e me perguntar: qual é que é, meu irmão? Penso que não quero chegar aos 32 assim, igual ao Hassim (foi mal, mas não pude evitar a rima besta); não quero acordar amanhã sendo o fracasso que me tornei hoje.

          Desde que meu último relacionamento (com a Patrícia, aquela atriz que, acho que escrevi numa crônica daquela época, deu um Halls pro Mário Bortolotto depois saiu falando pra todo mundo: “o Marião chupou meu Halls”) acabou, sem perceber, eu acabei me tornando um vegetal. Mais especificamente um jiló bem amargo que só fazia reclamar de tudo e lamentar saudoso do passado sem nunca botar a cara para agir. Abandonei (com exceção de alguns poemas e um conto que levou 3 meses para ser finalizado) a escrita, o teatro, meus planos, abandonei meus anseios e a minha coragem. E quem já me conhecia no final do ano passado sabe bem o quanto eu andava empolgado com a montagem da minha primeira peça e com a evolução do meu primeiro romance, CULT, o qual eu abandonei depois que virei um jiló.

          Agora, depois de ler a peça, me pego escutando Asa Morena, a música mais bonita da MPB (Música Popular Brega) e que havia se tornado proibida em qualquer playlist minha ou de meus amigos simplesmente porque doía demais em mim escutá-la. E confesso, ainda dói. Dói pacas. Mas é pra doer mesmo; escuto pra sangrar, quero sangrar, preciso sangrar tudo pra tirar de vez a sujeira das minhas veias e enfim poder receber sangue novo, um novo blues pra estalar nessa madrugada que está só começando.

          A primeira coisa que fiz ao acabar de ler a peça foi procurar em minhas coisas a minha peça, CHET BAKER NUMA MADRUGADA FRIA, porque de sopetão eu havia me lembrado das coisas bacanas que escrevi com paixão (a paixão que andava perdida nesses últimos meses), as coisas que me davam a garra de viver mesmo em tempos difíceis e atribuíam algum sentido a essa vida tão sem sentido na qual fui deixado para viver. Infelizmente eu não encontrei a peça: a versão impressa ficou com a minha (já citada) ex-namorada, e os rascunhos devem estar no meu outro computador estragado (vou dar um jeito de conseguir uma cópia para voltar a trabalhar nela). Mas isso é o que menos importa, pois agora estou de volta à ativa para criar outras coisas e não só isso, eu me lembro agora do quanto é preciso dar o sangue, suar a camisa, tapar os ouvidos pras críticas sem fundamento e mandar tudo pra puta que os pariu se quero mesmo mexer com arte. Uma bobagem que todo mundo sabe, mas que eu, confesso, na minha lassidão de espírito havia esquecido.

          É aqui que o Mário Bortolotto entra, e foi nesse ponto que ele salvou minha vida esta noite. Eu andava morto, então leio um texto como esse e toda a vontade e a autoestima voltam, porque ele veio como o soco que eu precisava levar para perceber que o mundo, a vida e todo o resto não acabaram só porque os meus planos originais não deram certo. Perdi tempo demais dando ouvido a pessoas que, iguais ao Hassim, chegaram aos 32 (ou às vezes nem a essa idade) tendo desistido de tudo. Tá certo que a ideia central da peça pode não ser bem essa, mas esse foi o sentido que ela teve para mim nesse momento.

          Isso me faz lembrar do Mirisola dizendo que um escritor jamais deve lançar um livro não-fundamental. Sendo assim, digo que, a meu ver, esta é uma peça fundamental, pois, afinal de contas, o que é fundamental senão aquilo que tem a capacidade de modificar o destino das pessoas? Foi o que esta peça fez esta noite: modificou meu destino, salvou minha vida da desistência e eu quero poder me lembrar desta noite daqui a dez ou vinte anos. Quero um dia chegar à idade do Mário e me lembrar da epifania causada por esta peça e pensar comigo mesmo: “Ainda bem que não desisti”.

          Eu nem vou me importar se, depois deste texto, alguém me acusar de puxa-saco do Marião, como já fizeram outras vezes. Entra por um ouvido e saí pelo mesmo. É a minha vida que está em jogo e os que me criticaram jamais me ajudaram em nada. Já esse cara (assim como os outros — Bukowski, Kerouac, Dostô, Fante… — com os quais faço questão de pôr os livros dele no mesmo nível da estante) com quem eu sequer tenho uma relação muito próxima, fez sem sequer ter tomado consciência disso. E eu tenho fé que ele, sem saber, já deve ter salvado vários outros garotos perdidos da Terra do Nunca como eu, porque ele é um cara que ainda não tem (por excesso de humildade ou simplesmente por não estar nem aí mesmo) consciência da importância que seus textos têm para o debilitado teatro brasileiro — e, principalmente, esse país onde ele, eu e todos nós nascemos (e que precisou que acontecesse uma desgraça para fazer o nome dele conhecido — e mais uma vez eu me orgulho de não tê-lo conhecido através dos noticiários policiais) ainda não tomou consciência da importância desse cara para nossa arte e teatro debilitados.

          Nós deixamos o Plínio Marcos morrer sem as devidas honrarias e muitos de nós só o respeitamos porque ele está morto. Porque esse é um país que ama os mortos e ignora os vivos. Sendo assim, penso que a maioria estaria bem mais satisfeita se o Marião tivesse morrido naquele infeliz incidente na Praça Roosevelt. Eu não. Eu agradeço a Deus por tê-lo livrado da morte e permitido que eu o conhecesse e assistisse a suas peças, as quais vão ficar na minha memória para toda a vida.

          Espero, sinceramente, que o Mário não leia esse texto, porque eu escrevi isso para vocês e não para ele. Os elogios eu já fiz pessoalmente, já passei as piores (e mais erradas) imagens de mim para ele e não é preciso mais. Foi com ele que aprendi que o melhor admirador é aquele que admira calado, assim me calo.

          Deixo a dica: o nome da peça é o mesmo que dá título a esta crônica: Vamos Sair da Chuva Quando a Bomba Cair. Vocês podem encontrá-la na internet para download (já que os livros de peças do Mário são um bocado raros) da mesma maneira que eu encontrei. E quando tiverem a oportunidade, levantem essas bundas apáticas de seus sofás e não pensem duas vezes antes de ir ao teatro assistirem a uma peça desse grande cara. Garanto que não irão se arrepender.

 

Andrew Clímaco; 07 de Setembro de 2011.

Minha Melhor Decepção [versão definitiva]

Postado em Contos, Crônicas em agosto 31, 2011 por Andrew Clímaco

Felicidade. Tênue como fios de cabelo dentro dos meus livros. Ruivos em Mutarelli. Chocolate em Sabino. Loiros em Thiago de Mello. Quando não quero lembrar e procuro outra coisa, uma distração: ligo a tevê, abro um livro e Anna está lá — viva?

           Porque Anna não é o toco do cigarro no qual eu pisei depois de ter fumado naquela noite na Praça Roosevelt, em São Paulo. Talvez o câncer que bate no lado esquerdo do meu peito, uma herança (ou ressaca) do prazer efêmero da Sexta-feira da Paixão, na qual eu me mostrei um bunda-mole ao me apaixonar pela fraqueza de Anna, mas jamais o cigarro descartado. E ainda hoje, mesmo que o Daniel Johns com seu infatigável vigor adolescente continue insistindo irritantemente em cantar please die, Anna…, eu não aprendi a pisá-la com meus sapatos furados. Eu acabei me tornando um adepto ferrenho do masoquismo e passo as madrugadas a martelar a cabeça do meu caralho toda vez que, numa demonstração franca de autodesprezo, me obrigo a lembrar dos olhos oceanados de Anna, trazendo-a de volta para a vida das minhas entranhas fatigadas, só porque acho isso bonito.

           Certas alegrias me derrubam mais rápido que um porre de cicuta. Aqueles olhões oceanados, os mamilos de borracha, o riso bobo. Seus fios de cabelo (loiros, desta vez ouso dizer) tênues como o fôlego de nosso affair, se fazem cabos de aço e enlaçam meu pescoço para a morte, então passo a relembrar tresloucado de tudo e escrevo, ainda que a contragosto. Um Dom Casmurro carregado de casmurrice num confessionário de paranoias. Porém, lembro-me que já não tenho esse livro. Que sempre escrevi (e vivi) memórias póstumas, embora seja tempo de ressurreição posto que há muito o terceiro dia (aquele que não chegamos a ter) é passado.

           Deste então, tenho estado a maior parte do tempo adormecido. Acordar só me causa cansaço desde que pisei na bola murcha chamada mundo: caí e quebrei a sétima cervical na esperança de ter um feliz ano velho mais feliz. Acordei num blecaute e já não tenho mais as madrugadas para satisfazer meus caprichos de macho e os meus devaneios de titia. Olhei para trás e só Anna e eu não viramos estátuas de sal. Virei um otário na eterna busca pelo amor louco inexistente, cheio de lembranças…

           Quando a conheci, eu usei vomitar coelhinhos só para fingir que conhecia Cortázar. Que as minhas boas (ou más, o que não faz diferença quando se trata de sexo) intenções não proviam de um pós-amadurecimento em Mirisola, espaços alternativos de teatro e igrejas. E que eu não passava de um analfabeto com pose de escritor que não tinha outro objetivo senão o mesmo de todos os outros animais machos saudáveis: encontrar uma fêmea para acasalar: deixar herdeiros malditos para sofrerem neste mundo não menos maldito.

           Anna é a fêmea que eu havia escolhido para dar continuidade à espécie, a putinha dos meus melhores contos eróticos. Eu havia esperado demais desde que nos conhecemos por intermédio da melhor amiga da solidão pós-moderna: a internet. Quando eu achava que Anna não passava de mais uma sapatinha gostosa: um corpão de Afrodite curitibana desperdiçado por uma mente de macho. Mas Anna se tornou minha fantasia; se fosse mesmo lésbica, eu estava disposto até a sair no tapa: voltaria a ser mulher na porrada, mas seria minha.

           Todavia, a confissão de seu bissexualismo tirou a ação do enredo; Anna seria minha: “Uma garrafa de vinho barato e um quarto de pardieiro e eu sou toda sua”, foi o que ela me disse um ano antes do nosso primeiro e único encontro.

           Uma garrafa de vinho barato e um quarto de pardieiro. Nem precisei do vinho. Um ano depois do convive, pouco depois que sai desfigurado de um relacionamento com um anjo ruivo (que me tirou do inferno, que era o único lugar no qual eu sabia viver, para uma temporada frustrante no Paraíso do Apóstolo Hernandes), Anna e eu combinamos de nos encontrar em São Paulo: “no seu mundo”, ela disse.

           Era a primeira vez que uma garota viajava para me encontrar; eu que havia passado a metade da vida de pau duro dentro de um ônibus. Assim chegou o meu dia de noiva, uma Sexta-feira da Paixão, momento em que eu oficialmente abandonava minha carreira promissora de pastor evangélico e voltava cabisbaixo para o meu inferno particular. Costurei as meias e os olhos para voltar a pisar em cacos, para não ver mais os fantasmas e ser só de Anna. Então escrevi poemas eróticos para burlar as preliminares, mas no fim de tudo acabei bebendo do seu sangue, o mesmo sangue que matou o meu filho que ela levou enterrado no ventre para Curitiba. Numa tarde cinza, contando a cinza das horas que a levariam para fora de mim, eu vomitando coelhinhos para que ela desse risada. Anna e os seus mamilos de borracha, os quais eu apertava e apertava e ela não sentia nada (como fui me esquecer de levar meu alicate de estimação?). Da parte de dentro, o coração que não justificava os olhos que choravam as lágrimas pelas quais eu havia me apaixonado. Dois dias com Anna e depois uma eternidade sob efeito da ressaca da novela das 7 só porque a atriz Caroline Abras, quando chora, me faz lembrar de Anna.

           Quando eu acordei, uma semana depois, e percebi que o coração dela era feito dos mamilos, senti falta dos meus coelhinhos vomitados. Não é melodrama, contudo as lembranças que me envolvem estão carregadas de pieguice radiguenesca. Me aproximo do ridículo, simplesmente porque não consigo mais ser qualquer personagem. Desde que ela resolveu jogar sujo quando ainda na primeira hora do nosso encontro vi seus olhos oceanaram depois que expressei o quanto suas cartas significaram para mim. Cartas que me faziam lembrar Ana C. coçando o hímen inflamado e escrevendo lindos poemas com sangue de menstruo. Quem deveria chorar seria eu, mas Anna pulou no bonde e eu fiquei ali parado naquela estação esperando por um ano inteiro para no fim das contas acabar percebendo que novamente cometi a besteira de me apaixonar pela mulher errada. Outra vez. Porque ela sabia o que queria e não era eu.

           Já não consigo saber com certeza quantas vezes estive dentro do corpo de Anna. Sem nenhum orgulho machista ou vaidade, certo de que estive mal. No entanto estive, e isso mudou tudo. Num tempo que amor & sexo não é mais assunto para uma mesma mesa. Quando amar e suar ao mesmo tempo é besteira. Se eu tivesse algum estômago dentro do peito eu também poderia fazer disto um livro fundamental. Mas só resta a carcaça, a ferrugem acumulada na maquinaria do tórax ossudo e espancado e meia-dúzia de lugares-comuns revisitados centenas de milhares de vezes até a saturação. Nada mais. Nenhum âmago ou dínamo estrelado. Apenas um câncer.

           Mas tanto faz, eu não havia amado Anna e sim as suas lágrimas. E para amar lágrimas não é preciso coração, só o câncer basta. Quando os seus olhos se encheram delas, logo na primeira hora do nosso encontro e acertaram em cheio a minha virilidade fazendo um homerun histórico com as minhas bolas. Eu apaixonado por um punhado de lágrimas. Que mal há nisso? Mutarelli não se apaixonou por uma bunda? O Brasil inteiro não sonhou com a Mulher Melancia só porque ela tem as ancas largas? Eu me apaixonei pelas lágrimas de Anna. E se, por acaso, algum filósofo (ou bundófilo) tenha dito que a bunda é uma expressão de alegria, representada em excelência pelos bimbons niilistas de João Gilberto, se assim for, eu amei mais a dor extravasada de Anna do que aos cus sorridentes dos viados da peça 120 DIAS DE SODOMA, que eu assisti ao lado dela no Espaço dos Satyros. E amando sua dor, eu quis ser seu carrasco, seu objeto mais obsceno de tortura, seu pau-de-arara, seu chico-doce. Porém, a queda do Paraíso (no qual eu havia estado por quase um ano) havia me exaurido as forças, e ainda que eu tivesse me concentrado bem mais no cu de Anna do que no dos viados (ou mesmo das atrizes tesudas do elenco), Sodoma afundou nas areias do Satyros.

           Dois dias que eu não quero lembrar, Anna. Destes, o incompleto. Mas eu me lembro, está tatuado nas minhas tripas: seu sorriso, seus mamilos, joelhos, mãos, unhas, sangue, suas lágrimas de mulher vivida. Anna, que não era uma mulher de cinema. Não um anjo, mas humana o suficiente para me botar numa cova. Quando eu desisti de tentar o paraíso só para tê-la um pouquinho comigo. E ela veio, não como uma princesa, mas a mulher mais linda da cidade. Para andar do lado desse saco de ossos e arrancar sorrisos dessa velha caveira mal-amada. Para beijar minhas feridas ainda abertas, como eu ousei beijar as suas.

           Quando acordei na manhã seguinte, o gosto de seu sangue na ponta da minha língua era a evidência de que a nossa ilusão não fora sonho. Que no meu pretérito imperfeito, eu estivera com Anna numa pieguice mais-que-perfeita. Assim, meio Blue in Green ao contrário. E eu não quero lembrar que você, Anna, foi embora levando derramada dentro do ventre a esperança cega dos meus filhos seus. E que o meu mundo, no qual eu lhe aprisionei, ficou mudo e estático enquanto você dizia: me come, como se eu fosse o seu homem. Você dizia: eu sempre esperei por esse momento, e eu repetia. Como um homem de sessenta anos depois de duas décadas sem tocar no corpo de uma mulher: o adolescente embriagado sem jeito na minha primeira vez. Porque eu estava tão ansioso que sequer me lembrei de levar as camisinhas, o KY, meu alicate. E, consequentemente, trepei melhor com as suas lágrimas do que com o corpo.

           Ah, escritores de botequim em todo o mundo perdoem-me, pois de fato estou sendo melodramático, confesso. Eu que há tempos não falo russo, mas permaneço morando em subsolos e atravesso a rua para não cruzar com alguém conhecido. Sigo passo a passo meu silêncio de olhos baixos, solitário amante dos magnetismos humanos (especialmente os do gênero feminino). Dos seus joelhos e pés beijados, Anna. Ou as suas pernas fortes quebrando as minhas costelas, suas unhas rasgando a minha pele até o osso, e mesmo o calor vermelho do seu sangue menstruado a tingir de vida o meu corpo cinza. Eu amo…

           Não. Eu não amo. Estou apenas obcecado pelo fantasma das suas lágrimas. É preciso manter o foco, porque neste mundo eu moro de favor. As regras são claras, sou um homem inquebrável. Porque nós nunca podemos querer o que ainda não somos, foi o que me disseram. Apesar de já me sentir como se tivesse sessenta anos, uma criança arrancando os cabelos para entender os discos do Arcade Fire de Anna. Eu que só escuto Chet Baker e música para ninar dinossauros.

           Agora que virei um otário na eterna busca pelo amor louco inexistente, não é o fato de ela ter me esquecido o que me mata. É ela não ter chorado o suficiente, não ter deixado nenhuma lagrimazinha apaixonada para ser a mãe dos meus filhinhos bastardos. Sequer deve ter chorado depois, sem que eu tivesse visto. Junto a isso, o clichê de não ter me enviado a foto que tiramos juntos.

           Eu poderia suportar tudo, mas como engolir um clichê vindo de alguém que chorava lendo poesia, uma mulher que sabia chorar, que chorava e transpirava poesia pelos olhos e pela boceta depilada à moda antiga? Não, Anna, como poderia perdoá-la se até então você era a minha personagem mais perfeita, a qual faria John Fante esquecer de Camilla? Você caiu no maldito clichê da mulher mal comida e estragou aquilo que seria a minha obra-prima.

           Confesso que usei de todos os meios para poder livrá-la de sua sentença. Eu tentei culpar a pizza gordurosa que ela comeu numa espelunca da Augusta. Tentei culpar o esfomeado que não tinha nem voz e pedia um pedaço. Culpei a atendente do hotel que nunca aparecia para nos entregar a chave. Culpei o Bukowski que dizia que o amor é um cão dos diabos e o Thiago de Mello que a havia feito chorar. Culpei as mulheres de São Paulo por serem todas menos bonitas que ela naquela noite. Culpei meu filho incapaz de ser gerado numa mulher menstruada. Culpei o David Bowie no rádio do táxi que nos levou para o epílogo. Culpei até o cu dos viados da Praça Roosevelt que hoje já devem estar casados enquanto eu não consegui sequer culpar uma mulher que só pedia para ser condenada. Eu vomitei coelhinhos, dinossauros e o meu coração junto, mas não consegui vomitar Anna.

           Anna, meu câncer, acabei cumprindo sua pena. Que não é a morte, o que seria bem mais fácil, mas sim viver a vida olhando para trás e vendo os seus pedaços numa tela de Picasso. O sangue de Anna, seus olhos menstruados, seus mamilos de borracha, os pezinhos e joelhos beijados, meu filho não gerado, a bunda sorridente e o cu não comido vão ser meus carrascos até o fim dos dias.

           Minto e finjo que você é apenas essas coisas, digo que você não significa nada e que não quero nunca mais vê-la, mas tudo isso faz parte do inferno no qual eu mesmo escolhi estar, e você, Anna, foi a mulher que eu escolhi para me levar para esse inferno. O que faz de você uma mulher mais que especial, mais até do que a que um dia me fez homem, pois desta vez eu me enterrei consciente e sem remorso.

           Acendo cigarros e relembro que eu vou pro inferno por não saber me comportar no paraíso onde de fato eu estive, mas não com você, Anna. No nosso inferno eu perdi o medo da morte. Quis estar ao seu lado, entalhado no seu epitáfio: felizes depois do fim. Porque o para sempre é melhor que o até a morte. Se isto fosse um conto de fadas e não um lamento piegas ao garçom do botequim…

           Eu te odiei e odeio com todos os meus poros salpicados pelo teu suor. Quando o tempo te faz a minha certeza mais errada. Eu te odeio como te amei como a uma mãe, a uma noiva, a uma puta, a uma filha, a uma fêmea… Pelo batom no meu caralho cansado, o teu sangue compartilhado feito entrega, in limine da intimidade. Não como um anjo, porque nunca quis ter um anjo acordando ao meu lado na cama como a mulher que você é, Anna, acordou.

           Por culpa de Anna, Cristo não ressuscitou, porque jamais existiu um terceiro dia. Fui crucificado na páscoa. Me dei mal com Anna até no The Sims, onde eu criei o seu clone para me fazer companhia nas minhas tardes cinzas e frias. Simplesmente não consigo encarar seus mamilos de borracha como uma derrota, mas eu sei que fracassei. Eu já sabia desde o começo, mas o que eu não sabia era que quem estava morto sou eu. Morto demais para olhar em seus olhos e, num clichê de Luan Santana, dizer: que se foda o mundo, quero ficar com você. Num filme noir, numa ilusão, em qualquer fim de mundo: te beijar com fúria, sede, fome. A minha língua como uma navalha. E eu, súdito, a dizer que te amo: te amo! Invadindo seus maiores segredos, orifícios, esconderijos. No escuro do mundo, quando desde o começo tive vontade de beber as suas lágrimas porque eram feitas de sangue e poesia. Sua emoção, seus olhinhos oceanados. Corpos colados, pele a pele, fundidos. Na cama, minha, você dizia: eu sou sua. E eu renascendo na sua sorte.

           Agora já era; Anna se vingou com o maldito clichê da fotografia e sumiu. “Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar”, como está escrito no livro que veio da cabeceira de Anna para a minha. E dói, deveras, quando a odeio por saber amá-la apenas com meu câncer e não com a vida. De que é impossível sair do chão no breve espaço de tempo que existe entre o não-existir e o não-ser. Agora que ela deixou de estar para ser a saudade que me sufoca, a minha esperança mais bonita, meu consolo desesperado, a mãe desaparecida do meu filho não gerado.

           Naquele quarto de hotel onde eu não consegui fazer Anna gozar. Quando eu mesmo quase não consegui. Contudo era um orgasmo tê-la nos braços depois de tanta espera. Tanto desespero. Anna sempre mais paciente que eu. Eu querendo cada vez mais e mais antes de parar para acertar os ponteiros da ficção com a realidade.

           Se em vez de tantos lugares comuns (sim, porque sou hipócrita e também caio em clichês), eu tivesse ousado quebrar as regras da boa literatura para fazer disto um conto erótico. Tive vontade. Tenho ainda mais agora, confesso. Mas não, Anna, você é humana demais para que eu lhe desperdiçasse em uma só noite. Logo percebi que você era matéria-prima para mais de um conto, mais que cem poemas ou clichês: um romance.

           O romance que jamais escrevi porque não tinha um final, só o maldito clichê da fotografia. Sequer um terceiro dia, uma lágrima de consolo, uma última carta. Ela afogou nosso filho no sangue de suas entranhas. Me enforcou em seu cabelo loiro e me fez menos homem: uma mulher que não tinha nem tamanho. Anna me venceu com a sua fraqueza.

           Mas ainda é cedo. “Você ainda tem umas coisinhas pra resolver na vida antes”, Anna me dizendo. E são tantas coisinhas que já não cabem mais no meu quartinho alugado com vista para as estrelas. É preciso chão. É preciso acordar e ser valente para me levantar e desligar a porra dessa tevê e cair na real que essa Caroline Abras não é você, Anna. De abrir a janela e deixar que a chuva me molhe. Olhar para os céus e pedir para Deus uma folguinha nas tristezas.

            “Toda a tristeza, escarnecendo em correnteza”, como no livro da minha cabeceira para a sua.  A correnteza das suas lágrimas ao ler o poema: do seu sangue misturado ao meu esperma desejoso do nosso primeiro filho (ou amor natimorto, tanto faz).

           Anna, eu inventei você escrava, agora é você quem me açoita nas madrugadas do sem-fim. Eu que já não escrevo minhas palavras com esperma, nem com sangue e sequer tenho uma alma para usar como tinteiro, apenas cuspo no papel tudo aquilo que pode me incriminar no desejo carnívoro de punir a mim mesmo até que não haja mais culpa. Até que tudo se reduza a cinza só para que eu não tenha mais de renascer do cu dos viados da Praça Roosevelt contente por ter estado ao lado da mais linda mulher da cidade. Para não precisar mais ter de me sentar frente à tevê e ligar na hora da novela das 7 só para ver a Caroline Abras, a mulher mais linda da tevê, mas não tão linda como você, Anna.  Minha melhor decepção. Nem me importo se peguei AIDS, a cara no muro valeu a pena. A ressaca é que está me matando.

ENCONTRE ANNA TAMBÉM EM:
DRIVE
ERÓTICA
 she 
a mulher mais bonita da cidade
declaração de amor psicopata
nota C
Das insignificâncias omitidas nas correspondências
Marcha do Amor em Compasso de Desilusão
Pretérito Perfeito: Mais-que-perfeito
Sufocação
E em outros textos não mencionados aqui, mas publicados no blog.

Tom & Jerry

Postado em Poemas com as tags em agosto 30, 2011 por Andrew Clímaco

ela me olhou uma única vez
como um rato
surpreendido por um gato
e depois passou
o resto da noite
satisfeita
por saber que eu
jamais faria parte do seu paraíso
e muito menos
me aproximaria do seu inferno.

ela dançou a noite toda
feito bailarina ou borboleta sexual
com sua pinta à Cindy Crawford
e os seus gestos de Penélope
eu a secá-la com meu olhar carnívoro
beijando meu copo de cerveja
como se bebesse da sua virilha.

mas ela estava mais preocupada
em agradar o viadinho sorridente
de cara depilada somente
porque ele era um viadinho sorridente
de cara depilada e dançou a noite toda
como uma rainha gazela no cio
fazendo amizade
com todos os panacas da eternidade
sem fazer muito esforço
só com seu sorrisinho de rainha
e o seu papinho enlatado.

eu nunca tive cabeça pra isso.
eu nunca tive cabeça pra isso.
eu nunca tive cabeça pra isso.

sempre desisti antes de bancar o panaca
: nenhuma mulher vale a perda da masculinidade
: nenhuma mulher vale mais do que o orgulho.
eu preferi ficar com a barba
e a minha cerveja choca
feliz por não ser um rato.

contudo acabei aquela noite
na mesa de duas mulheres abandonadas
meu amigo tentando bancar o cara engraçado
eu assistindo a tudo com meu silêncio assassino
e no fim de tudo
eu sei que falei muito mais do que ele.

fui embora pra casa sem saber o nome dela
com o telefone de uma mulher que não me interessava
como um gato
acuado pela chuva.

Andrew Clímaco; 30 de agosto de 2011.

Facebook (ou Homenagem Merecida)

Postado em Poemas com as tags , , , , , , , em agosto 30, 2011 por Andrew Clímaco

Eu não falava com ela há meses
mas ela disse: “Estou nua
me arrumando pro trabalho
mas como você está aí
eu não sinto vontade de me vestir
eu sinto vontade de
olhar pra você e me despir até a alma
abrir bem as pernas num toque
e deixar o melado do gozo escorrer”

“Você adora me derrubar
ao mesmo tempo que me levanta”, eu disse.

Mas ela me quebrou num silêncio de minutos,
eu fiquei ali olhando pras paredes
como se nada tivesse acontecido
até que ela disse: “Gozei, agora estou atrasada,
preciso me vestir pro trabalho, ciao”.

Boas mulheres são aquelas que gostam de homens de verdade.
Felizmente só os homens de verdade gostam dessas mulheres.

Andrew Clímaco; 30 de agosto de 2011.

Improviso em Billie Holiday

Postado em Poemas em agosto 27, 2011 por Andrew Clímaco

“Você não sabe o que é o amor”, assim cantava Chet Baker quando ela disse “Eu vou embora”. “Pra onde?”, eu perguntei. “Eu não sei: pra fora da sua vida”. Eu já esperava: a mulher perfeita é a que mais perfeitamente irá lhe derrubar. Então ela desapareceu, como a fumaça dos cigarros que eu apagava no cinzeiro. Um pedaço de mim que ela sempre odiou. Junto com todas as abóboras que eu puxava nas costas. Nas pontes que eu cruzava sem receio, os ossos sempre treinados pra qualquer suicídio fora do trajeto. Meus trajes de palhaço encantado manchados no armário. De fantasmas, happy endings mal acabados, eternidades atrofiadas. O meu sangue, não o seu. Como as lágrimas do meu primeiro filho abortado nos lençóis do Rio num janeiro tão distante. Eu agora andando cabisbaixo na beira da Praça Roosevelt como se nada tivesse acontecido. Como se fosse normal andar assim de coração quebrado, sem ela ali reclamando ao meu lado. Como se fosse normal viver abortado pensando nos filhos meus que ela matou com a descarga. Eu fugindo do inferno e ela criando o seu, no seu lamento Billie Holiday à luz de Brecht. Uma voz de trompete improvisando outro solo: adeus. E os meus lábios desmamados cantarolando “The End of a Love Affair” como se dissessem: “Eu não gosto de você o suficiente pra chorar”. Mas eu chorava de volta ao orfanato dos bêbados. A cara feito vidraça de banheiro público. O peito um regaço, o resto em carne viva. O que sobra pro outro dia é só ressaca e a vontade de mandar tudo pro raio que o parta. Ela, todas elas e junto a vida que já deu no saco. Como se fosse preciso tocar a Terceira Sonata Elétrica pra descobrir que o amor tudo ferra. Tem cara que já nasce abortado, tomando sopa de placenta usada na lata de lixo. Entre espinhas de sereia, unhas esmaltadas, absorventes sorumbáticos e um livro dado de aniversário. Não, eu realmente não queria ter essa chance de me mostrar desmontado. Eu tentei de tudo, mas depois dela anda faltando umas peças.

Andrew Clímaco; 21 de Agosto de 2011

a mulher mais bonita da cidade

Postado em Poemas com as tags , em agosto 27, 2011 por Andrew Clímaco

“Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la” [Charles Bukowski: “A mais linda mulher da cidade”]

entrando ao meu lado
no Satyrus

a mulher mais bonita da cidade

andando comigo na rua
de mãos dadas

a mulher mais bonita da cidade

com seu olhar engraçado
fixado em rímel
seu sorriso perturbador
dentes brancos

a mulher mais bonita
da cidade.

uma vez eu sou o rei entre os ratos
e você só uma putinha que eu
sequestrei
dos meus sonhos
acordado.

nenhum dos seus delírios psicóticos
seus truques de Lorelei arrependida
nem a sua ninfomania romântica
de garota de quinze esperando
o Bon Jovi montado
num cavalo

nada disso vai
me assustar
essa noite.

uma vez eu sou o rei entre os ratos
e eu não vou matá-la se é o que você espera

mas vai chegar o dia
que algum cara de sorte conseguirá
furar os air-bags
e quebrará
seu coração em dois

e você entenderá de uma vez
tudo aquilo que eu deixei tão claramente
subentendido
no meu silêncio
falado.

Andrew Clímaco; 22 de agosto de 2011.

declaração de amor psicopata

Postado em Poemas em agosto 27, 2011 por Andrew Clímaco

você é uma puta
mas eu lhe entrego todos os ases
não porque você mereça
você é uma puta e eu lhe quero aos pedaços.

saio em disparo
corro pra lua
pra cozinha (tanto faz)
só pra cortar as asas alienígenas dos meus inimigos
formigas de seis patas no meu copo de coca-cola
no meu corpo de esqueleto
vazio

como seu peito
sob os seios fartos
                                    nada
mulher de meia idade
cara de boneca & lágrimas de quebrar
qualquer vaga
                        bundo ao meio.

penso nas crianças mortas
                                           em vasos de flor
nos amores mortos que cobri de enlevos
e você estará sentada
na sua velha cadeira de mulher empregada
sonhando com o príncipe encantado
que o tempo              seu amigo
lhe fará arrependida.

a solidão das filas de banco
lhe faz lembrar do perfeito extravio
                            das ruas de São Paulo
                            das nuvens de cinza
dos futuros do pretérito sussurrados
                                                        ao pé do ouvido
quando você valia a pena quando
não era uma pena
voltar as páginas e dizer que
                                                   já era

como se eu fosse um milionário
e não sofresse a sua morte de coração oco
ou um assassino levanto do meu trono
e aperto seu pescoço dizendo:
                                                ame
ou
                                                morra

porque você é melhor que essa dor de cabeça infernal
ainda que seja uma puta quase uma santa
cheia de escrúpulos
                                   e culpa
uma perdedora num corpo de princesa
         meretriz dona do mundo
                                           e não vale nada.

eu conheço todos os seus segredos
                                         esconderijos
                                         orifícios
meus olhos tocam seu íntimo
toda vez que você se despe para o banho

não há ponto
de fuga
eu sou seu carrasco
sua sombra
seu medo
eu sou a certeza que treme em seu peito
porque eu sou aquilo que lhe faz desistir
                       aquilo que ousa
fazer feliz
                       o que quer chorar

eu a amo ainda mais porque não devo
                                  porque você é uma puta
                                  e eu estou bêbado
e amarei ainda mais quando estiver sóbrio e entristecido
                        por saber que você é uma puta
e estará morta

eu continuarei sentado na minha velha cadeira de assassino
rindo de tudo
como se você fosse só mais uma
                                           e não tivesse estragado tudo.

 

Andrew Clímaco; 15 de Agosto de 2011.

nota C (um bilhete colado na porta da geladeira)

Postado em Poemas em agosto 27, 2011 por Andrew Clímaco

[pseudopoesia]

eu não vou ficar correndo atrás de você como um desesperado
você sabe o que faz
eu não vou ligar se você não ligar
nem vou me derramar em lágrimas quando fingir que nada aconteceu
tanto faz
já passei dessa idade
eu não vou implorar por uma fotografia esquecida no fundo da sua gaveta que poderia significar muito pra mim se você quisesse
você sabe o que faz
eu não vou tocar a primeira nota do piano pra lembrar do seu nome
nem vou arrancar meus cabelos
ou perder minhas únicas duas horas de sono pensando em você
e se eu tomar um porre
não vai ser por sua causa e sim porque eu o tomaria de qualquer jeito
com ou sem você
que sabe bem o que faz
e nada faz apenas espera de mim que eu esqueça
eu faço o que posso.

Ass. Andrew Clímaco; 06 de junho de 2011.

CANTIGA PARA NÃO MORRER

Postado em Outros Autores, Poemas com as tags em julho 28, 2011 por Andrew Clímaco

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar (do livro Dentro da Noite Veloz, 1975)

Novo Post em “Cartas Numa Garrafa”

Postado em Uncategorized em julho 28, 2011 por Andrew Clímaco

Mit durchaus ernstem und feierlichem Ausdruck (numa garrafa: carta #7)

link: http://cartasnumagarrafa.wordpress.com/2011/07/28/mit-durchaus-ernstem-und-feierlichem-ausdruck-numa-garrafa-carta-7/

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