“um outro tempo, ainda este, o tempo, o outono, a tarde, o mundo, a esfera, a espera em que estou para sempre presa” (Caio Fernando Abreu: Fotografia).
sentado num banco de bar, gosto amargo de cachaça barata na boca, copo sobre a mesa, numa solidão dessas de fim de noite. só que não era noite. nem fim. só o meio de uma tarde ensolarada de quinta-feira, sem dormir há três dias, empanturrado com um vazio inominável proveniente de um tédio qualquer e, sendo assim, qualquer hora lembrava o fim de alguma coisa. acabado, pensava. parece que estou destinado a sempre perdê-las; outra, que diferença faz afinal?
curtindo uma fossa. cansado da mesmice, de sempre acabar tudo igual, cheio das indecisões femininas, da covardia, das desistências. daí acabar num bar, sozinho, sonhando com o improvável. era um desejo louco de qualquer coisa, queria assim tentar o fantástico, o absurdo, provar o gosto selvagem do viver em absoluto. não precisar mais me empenhar tanto, dar o melhor de mim com palavras, sorrisos, cartas de amor de doze páginas para no final acabar assim: quando der a gente se fala, estou confusa, você já não é tão essencial para mim como era dois meses atrás porque descobri que no mundo existem outros dez mil homens além de você que poderiam me fazer uma mulher feliz. esse é o problema, elas nunca sabem o que querem e desperdiçam as melhores chances por causa de critérios que mesmo elas, no fundo, não entendem.
bebi outro gole da cerveja. voltei o copo pra mesa. foi quando uma borboleta pousou no copo, como se quisesse me dizer alguma coisa com as cores de suas asas. roxo, verde, vermelho, cinza. lembrei que havia lido em algum lugar sobre uma garota que havia comido borboletas e que elas tinham um gosto indigesto. discordei, elas podem ser bem saborosas quando apreciadas moderadamente. eu não comi a borboleta, mas é possível que eu a tenha vomitado — algum resquício de paixão antiga, mal curada, que agora agonizava em meu copo frente aos meus olhos. fiquei olhando para ela, suas cores fizeram-me lembrar de uma época perdida, qualquer coisa perdida da qual eu já não sabia bem como era, mas era tão parecido com o agora. o presente imitando o passado ou a vida sempre igual? um estranho sentimento de efemeridade percorreu meu corpo. pensei, tudo que era belo durava pouco, ficando só as cinzas de tudo e a solidão. sim, nascer sozinho, crescer e reencontrar a solidão. não; jamais me acostumaria a conviver com ela, mas ela sempre volta.
eis que começo a sentir alguma coisa me apertar, como paredes ao redor do meu corpo, paredes do bar, da rua, da cidade, do estado, do país, paredes do mundo e do tempo e da vida, limitando meus movimentos feito camisa de força. uma sensação claustrofóbica de sufocamento me impelindo para um estado inevitável de pânico. era o casulo. uma camada espessa de cinzas separando as pessoas do que eu tenho a lhes oferecer.
sem asas, jamais saí. tudo o que vi foi por uma fresta, um buraco aberto com as unhas no invólucro do casulo. ou se saí, movido por uma paixão, voltei correndo assim que o amor acabou e eu me vi novamente só. tinha sido confortável até então, mas lembrei que algumas lagartas, devido a eventualidades do mau tempo ou por maldade dos garotos que destruíam os casulos, jamais chegavam a tornar-se borboletas. tive medo de ser para sempre lagarta. e tive medo de que o amor que eu não temia jamais acontecesse. e tive medo de jamais aprender a voar como voava em meus sonhos de criança.
e num ímpeto de coragem, me vi forçando as paredes, me debatendo feito feto que rebenta a placenta em busca da luz. rompendo as paredes do casulo, esticando as asas, as pernas, os braços ao máximo. forçando, forçando, forçando. até que consegui abrir os olhos e vi a mesa, o copo, o interior do bar e, entrando pelas janelas e portas, a luz. e vi as pessoas, as mulheres, milhares de possibilidades em vinte e quatro horas de vida. mas no instante seguinte percebi que a maioria das pessoas ao meu redor também estava trancada em casulos, fazendo festinhas, sorrindo amarelo para não se deparar com a infelicidade que os persegue noite e dia. descobri que a solidão também existe aqui fora, que os outros também eram covardes mascarados. pensei nas mulheres que haviam me deixado, lembrei da mais recente e soube naquele instante que todas também eram covardes. tomado de revolta, abri as asas e voei,
voei,
voei até chegar no ponto mais alto de uma montanha onde ninguém me vê mas eu vejo a todos, lá embaixo: um aglomerado de casulos com lagartas olhando a vida através de ínfimas janelas. passo meus dias sozinho a observá-los, primavera, inverno, verão, sempre outono, folhas caindo e eu esperando que a qualquer hora algum se abra e dele nasça uma bela borboleta que voe até mim para me fazer companhia.
09 de Novembro — 2009


Confluência. Lábios em lábios, corpo a corpo, a luz baça do abajur brilhando no suor da pele e o toque. Um balé de cheiros que enlouquecem, calor de sol em noite fria queimando e queimando de dentro pra fora. O fluxo contínuo de beijos à procura de beijos, fogaréu de estrelas num desejo de lua, toda a noite num instante de nós. Sem alma, sem calma, sem dor, apenas a força do instinto. Magnetismo inconseqüente de gestos, atração e impacto. Dreno você até não agüente mais e simplesmente me peça. Mais, quer que eu vá além e eu vou. Persigo as curvas de seu corpo, me escondo nas dobrinhas, faço alpinismo no bico do seu seio e me alimento da sua endorfina. Euforia, vermelho, mais forte e profundo. Entro em você e já não quero mais sair: a solidão é bem melhor a dois. Nós dois e a fúria insensata da vida, eletricidade da sua pele para a minha. Seus sussurros, gemidos, sim!, sim!, sweet surrender. Você me permite, eu lhe permito, respiramos um ao outro e nos deixamos cair juntos. Possua, possuo, nos possuímos. E nossa disritmia é tempestade que não se acalma, e acelera mais e mais e mais e nunca é demais. Pés, mãos, pernas, lábios, sexos, pele, entrelaçados num laço porque somos uma só coisa e precisamos chegar juntos. Você, impaciente, chega um pouco antes e explode em milhões de faíscas; o quarto se ilumina, a casa se ilumina e até mesmo o céu se ilumina quando você me arranha as costas com as unhas. Sangro por prazer e desejo beber um pouco de sua vida. Você me espera, você me incentiva, estou vindo ao seu encontro. Sede, você tem sede, você pede, implora de joelhos, por favor me dê!, você diz. E numa fração de segundo inundo você com o meu ser e assim renascemos afogados num mar de fluidos e contentamento. Você me engole sem mastigar; se sente satisfeita. Dou-lhe um último beijo e espero até que adormeça e então morro, agradecido.
esse desejo de nós
para Kellek
Lembro de uma noite muito triste. Eu estava dentro de um ônibus, deixando Florianópolis, cidade em que eu havia apostado as minhas expectativas para no fim conseguir apenas mais uma desilusão. Pouco antes, na rodoviária, eu havia chorado como há muito tempo não chorava, e quando entrei no ônibus o nó na garganta persistia. Assim, liguei meu mp3 player para tentar me acalmar com as músicas que tanto gosto. Ao passar as faixas, encontrei um disco que me tocou tão forte naquele momento que eu simplesmente voltei a chorar, sozinho, no banco do ônibus. Por qué la noche és tan larga? Era a primeira vez que eu escutava aquele disco e também aquela cantora (havia carregado o disco no mp3 antes de viajar) e naquele momento soube que aquela era a coisa mais linda que eu já havia escutado.
se eu pudesse lhe falar, quanta coisa eu lhe diria. ou talvez, se como humano me restasse algum orgulho, o mais certo é que não lhe dissesse nada. mas dizem por aí que eu não tenho amor próprio só porque não sei guardar rancor por muito tempo, o que é uma grande bobagem. quando conheci você talvez eu fosse assim, mas de lá para cá tanta coisa mudou. só não descobri ainda a vantagem que há em guardar rancor de quem um dia eu já quis para toda a vida. se eu pudesse, o que lhe diria primeiro? devia lhe dizer: você é uma idiota, mas se não me falha a memória, eu já lhe disse isso — e disse até coisa pior. sei lá, mas em determinado momento passamos a agir feito crianças, você não acha? eu querendo matar seu namorado — ele querendo o mesmo — e você se afastando de mim como se tivesse medo que alguma merda acontecesse. muita gente me disse que você devia ter medo é de uma recaída, de voltar pros meus braços magoando o cara. nunca acreditei nisso, mesmo assim sempre fui o canalha da história — pelo menos foi assim que você fez eu me sentir. hoje sei que eu não era, só não queria perder tão facilmente o amor da minha vida. perdi, mas todo mundo um dia acaba perdendo; comigo foi apenas rápido demais. se você me perguntasse o que mudou em mim de lá pra cá, eu diria que você foi a ultima. a ultima que me viu pleno, cheio de vida e acreditando que era possível tornar tudo belo apenas com o ato de amar. hoje ainda creio que o amor existe, só que acho que ele não é nada legal. para não usar mais uma vez a frase da Clara (aquela mesmo que eu odiava e que me ignorava quando estávamos juntos, a do h e da carta que te fez chorar e ver que eu era diferente dos outros, pois é, depois ela virou uma estranha amiga, agora voltou a me ignorar) que diz que “o amor só fode no rabo”. me apaixonei por outras depois de você, namorei, amei uma, com outra tive um casamento relâmpago e depois virei amigo da única ex-namorada minha que eu odiei (aquela que veio antes de você, se lembra?) e por um motivo estranho não esqueci você. até criei uma personagem inspira em você, a Amanda, lembra que eu estava escrevendo uma novela? pois é, eu terminei, e a Amanda era a personagem principal. só que essa novela não existe mais, eu deletei depois que você pela enésima vez decidiu não mais falar comigo. agora a Amanda só aparece em alguns contos que escrevi, alguns deles em meu blog e em meu e-book. sim, eu editei um e-book de contos, se chama Estação Paraíso e nas dedicatórias não consegui deixar de pôr o seu nome em primeiro lugar, afinal, você possibilitou meu desenvolvimento me dando combustível para escrever. você sabe, as melhores palavras nascem da tristeza. naquele tempo, quando você me lia, eu escrevia mais poemas, hoje acho que poemas não servem para muita coisa e que sou bem melhor na prosa. como gostaria que você lesse coisas como Vice-versa, Rosas Amarelas, Estação Paraíso e Ausência — a Amanda só aparece em Ausência, mas sei que de alguma forma seu espírito também está nos outros. tem também Outros Olhos e nele você é você mesma (não posso citar seu nome), não a Amanda, nele eu descrevo aquela cena na praia do Leblon, te contei isso, não? e o garotinho das jujubas, lembro que você não ligou muito para isso, sua preocupação aquele dia era me ignorar e me magoar. apenas três garotas com quem me relacionei me viram chorar, sabia? você foi uma delas. acho que sua vida deve estar mais bonita que a minha; não invejo você, pois já me conformei que uns nascem para ser felizes e outros não. queria ao menos que as coisas não fossem tão complicadas, que você falasse comigo de vez em quando nem que fosse apenas para dizer um oi e contar como está a vida. mas não, você só olha o meu orkut sempre e não diz nada. eu também não digo: da ultima vez que disse você brigou comigo e disse que eu estava tentando estragar seu namoro. confesso que no começo eu queria era isso mesmo e eu não negava, mas hoje tudo o que eu queria era que você esquecesse toda essa bobagem e se lembrasse quem eu sou — aquele cara que te tocou apenas com as palavras. isso é sonho, você tem orgulho, é diferente de mim, você aprendeu a me ver apenas como ameaça. nestas horas, não queria estar na minha pele. você foi o meu sonho mais bonito e quando acordei descobri que a vida era bem mais feia do que nos livros. agora seu aniversário está chegando, outro outubro em minha vida e este ano talvez eu não possa nem lhe dar os parabéns. ano passado eu lhe dei, não? acho que sim, eu já estava morando no Rio, mas foi pela internet. e agora, de volta ao Rio, como vai ser? não vai ser, acho que nunca mais vou encontrar você, talvez jamais fale novamente contigo, contudo, deixo expressa a minha vontade nesta carta que provavelmente você não vai ler. se eu pudesse lhe falar…
a medida que o tempo vai passando a tristeza fica mais lenta, a alegria é breve e inconstante. à noite a lua já não é novidade nem inspira poesia ou algo que afaste este vazio de ser tão só.
