Dos poemas inéditos

Escrevi um monte de poemas pra você, mas vou guardar tudo pra mim. Pra quando você deixar de ser essa esperança burra que me aporrinha desde a infância. Pra quando você perder esse seu jeito de coisa sonhada e começar a ser o que eu espero de você. Pra quando você perceber que a minha literatura nada tem a ver com essas novelas no Manuel Carlos que você assiste escondida de mim. Pra quando você entender que eu já vendi meu amor por esfirra do Habibs, mas que você eu amei de graça – e teria até pagado se eu tivesse dinheiro e você fosse um pouco mais puta. Pra quando você descer desse seu pedestal e vier andar descalça & nua no meio da minha sala como se fosse a coisa mais bonita do mundo. Pra quando você aprender a suar comigo sem pensar em outra pessoa. Pra quando você esquecer de limpar o meu sêmen derramado no seu corpo. Pra quando você descobrir que comer um prato de miojo comigo vale mais que um jantar 5 estrelas ao lado de outro.

Andrew Clímaco

heaven beside you/heavier than hell

E botou aquele velho blues pra rolar na vitrola só pra lembrar como era. Com a tranquilidade de quem já esteve no sétimo céu fez cair quente o café na xícara, a fumaça a subir e formar um espiral suave com a fumaça do cigarro agora aceso. Sentou à escrivaninha como um rei, quem sabe um poema para a eternidade ou a força do hábito já que passara metade da vida diante daquele móvel antigo escrevendo obras mais pesadas que o inferno. No chão um porta-retrato quebrado, uma foto sem rosto, alguma coisa vivida ou morta ali da qual não se lembrava mais, não agora. Sorrira, chorara, agora era tempo de serenidade. O último gole da xícara, o último trago no cigarro olhando as paredes azuis, verdes, rubras. Paz, apenas a guitarra do BB na penúmbra e o estampido do tiro a quebrar o silêncio que em sua vida tanto falara.

UM POUCO DE BLUES

shadow

Toquei um pouco de blues num violão desafinado pra me aliviar dos espinhos afiados demais dentro da carne. Toquei um pouco de blues, o violão estava desafinado e eu imaginei que fosse 11hs da noite quando o sol me arrancava o couro como se fosse uma lua linda daquela que só os poetas chineses sabiam descrever sem que soassem como xaropes. Toquei – e como toquei! – um belo blues naquele velho violão desafinado, tanto tanto que senti vontade de aprender a nadar numa banheira cheia de gelo com um copo de gim do lado e a sombra de uma mulher pelada me oferecendo um quarto conjugado com uma pia e um travesseiro de penas na rua dentro das suas entranhas. Ela me deu um cigarro, eu toquei um pouco de blues num violão violentado, a caixa oca, as cordas tortas como a vida e eu disse a ela, baby, a vida é como morar na praia e você sabe que na praia às vezes chove e todo dia tem uma noite e a água fica fria demais como a morte ou seus olhos frios a me observar enquanto seu corpo sua nos lenções da sua cama. Toquei um blues até o violão ganir um pranto negro de uma geração de escravos antepassados sob o jugo da ventura, toquei seu corpo até o violão ficar desafinado e cantei com a voz de mil gatos solitários vagando dentro da madrugada fria, mil homens desesperados no minuto que antecede o fim da guerra, mil anos à espera de um milagre. Toquei um blues até que a morte nos separe, desafinado e sentido quanto a dor de um parto ou uma perda, um gozo estranho e uma solidão de pescador que sonha o peixe de Hemingway, mas teme e teme e sempre teme que os tubarões venham nadando nos ventos da aurora feito um fado.

Andrew Clímaco, 01 de Fevereiro de 2014.

THE SADDEST LETTER

pésAdmitir que o destino errou seria como dizer que Deus errou,
que você errou e sobretudo eu errei quando não fui capaz de prender você,
de controlar Deus.
Admitido o fato eu diria que poderia ter te amado mais
se quando começamos você não tivesse cometido o erro de deixar pra depois –
como todas as coisas importantes na vida que você deixa pra depois
(como se fossem banalidades)
num se-é-pra-ser-será, chavão barato usado como desculpa pra quem tem medo.
Fato é que você sempre deixou todas as coisas grandes & pequeninas pra depois;
todas elas, inclusive eu,
e Deus ouviu as suas preces e não as minhas
(porque às vezes até Deus tem que escolher e quem sou eu pra dizer que Ele escolheu mal?)
e no fim das contas eu acabei perdendo você e a mim mesmo,
porque eu mesmo há tempos já não sei quem ou o que sou
vagando nessas incertezas sem ter norte,
cheio de sombras e segredos que eu mesmo desconheço e engulo como se fosse vida,
quando nem te procurar eu procuro , quando finjo que está tudo bem ou te ignoro,
quando eu preferiria estar morto só de pensar que não tem volta,
que o começo é passado, que estamos cansados e eu não consegui ainda acertar as minhas contas com Deus
que não quis me escutar naquela hora mais absurda
só porque desisti de amá-Lo por um instante para amar uma mulher impura.
Ouso dizer ainda que talvez tivesse te amado mais se não tivesse te conhecido,
nem tocado seu cabelo, nem beijado seus pés como se fossem os de uma rainha –
essa rainha estúpida que jamais soube encontrar seu lugar
no trono que eu construí com as minhas próprias mãos – estas mãos
hoje ensanguentadas de recolher cacos que na tristeza servem-me de alimento –,
nem sonhado ter com você o seu filho indesejado, eu teria amado mais
porque não existiriam lembranças de expectativas a perturbar meu sonho,
nem essa sede de Saara de olhar para os momentos que não vivemos
só porque você estava preocupada demais com coisas mais importantes do que eu
(e você fez questão de colocar um mundo inteiro nesse grau de importância)
e Deus, ciente apenas dos meus pecados de morte e não dos seus, ouviu todas
as suas preces e não as minhas, e Ele te deu uma vida que você não tinha
e que por mérito era pra ser minha, porque somente eu olhei pra você como se fosse
mais do que uma mulher comum.
E é nessas lembranças, que, por ironia, admito que te amo ainda mais,
numa espécie de sonho perfeito ou catatonia, esse lugar dentro de mim que diz
que se as coisas fossem de outro jeito e eu fosse menos humano e mais esse ente
superior que você sempre esperou que eu fosse, se eu pudesse ter dado uma de Deus
e feito uma meia-dúzia de milagres pra modificar a insignificância do meu ser,
e tivesse tirado de você alguns anos, trazido você pra mais perto antes, sem dúvida
nós teríamos formado um casal perfeito e eu não teria me perdido assim
nessa estranha forma de viver, olhando pro passado, assombrado por fantasmas,
imerso em pesadelos sem nunca amanhecer.

Andrew Clímaco; 14/12/2013

explícita

nuaO berço do meu desejo é o teu corpo desenhado em giz na lousa de uma cama. Nu, imagino teu hálito de gim, tua cara de inocente (quase de puta), o atrito das tuas coxas no meu corpo e o suor escorrendo pela lousa como lágrimas de uma pedra. Imagino tudo, as partes mais belas e limpas do teu corpo como pétalas que o acúmulo dos anos é incapaz de murchar. Imagino também a sujeira mais bela, os fluídos dos lábios vaginais que quase esboçam um sorriso safado quando me aproximo, teu cu cheio de pudores, tuas dores, teus pés no meu rosto como se eu fosse um capacho. Imagino o cheiro de cigarro misturado com perfume, a tua voz no escuro a implorar por qualquer raio de luz que parta de mim, te imagino num parto de mim, parte de mim, sem receio, sem roteiro, sem rastro para que a solidão do ser jamais venha a nos encontrar, e no teu sorriso de satisfação o meu corpo esvaído de mim escorrendo para dentro e fora de ti só para que num instante me faças sentir o homem mais feliz. Todavia, é apenas um desenho mal traçado e eu permaneço aqui coberto de cal enquanto a escuridão da lousa pouco me diz, apenas o giz e o meu desejo estrangulado na forca da minha imaginação.

Andrew Clímaco; São Paulo, 12/10/2013

entre trevas

solitude

quem seria louco de encontrar-se com a solidão no meio da noite?
embora seja inevitável desta que nos persegue e é nossa fugir
quem então, posto que já somos todos loucos na própria solidão,
ousaria ir além e no meio de uma noite escura procurar encontrar-se
com a solidão de outro e desta compartilhar uma silenciosa lamúria?
um canto, um acalanto, uma palavra qualquer de ternura e encanto,
um tato que baste a fome de tato, um hálito quente ao pé do ouvido,
um encontro suave de pés e mãos e um diálogo de silêncio sob sombras frias,
quem ousaria? A morte, talvez, ou dela o inimigo maior chamado amor,
mas por onde anda o amor enquanto a morte me chama nos sonhos?

Andrew Clímaco; São Paulo; 09/10/2013