poetical love affair

Postado em Contos, Poemas com as tags , , , , em Novembro 22, 2009 por Fernando Albuquerque

tão serena enquanto dorme; a calma do seu sono é o vento que descabela as árvores nos sonhos meus. noutra hora eu ousaria captar o anseio do seu olhar e permutar por insônia para seu corpo. no entanto, você repousa com um ar de princesa sem olhos e assim, quero ser apenas o conforto do seu sossego. quando desperta, me observa indiscreta e eu sou vastidão de horizonte engolindo por inteiro a sua presença — meu sentimento é o seu instante de abismo. a neblina dos seus pulmões perturba meu astral. resisto. mantemos nosso silêncio de olhos. mas persiste ainda um desejo de saber o que de fato somos. então caio do espaço em devaneios, faminto de pétalas de rosa e mel. busco um vazio menos vazio sentindo um desejo de contar as ondas da praia do Leblon noturno quando você é todo o mar. no calor da sua sede que me esgota, na insanidade dos lábios que procuram, percorrem corpo a corpo, pele na pele, suor por suor, saliva em saliva, e flamejantes dedos que na nudez fria afundam, escuto seu arrepio mais selvagem e meu corpo brota na flor que enche de orvalho suas pernas agora trêmulas: fazemos verão, somos sóis estrelas a-mares e transpiramos nuvens de chuva, quando apagamos as luzes e o mundo inteiro se apaga diante de nós.

dica — caso tenha gostado do texto, leia também aqui no blog:

VICE-VERSA

ROSAS AMARELAS E JUJUBAS COLORIDAS

(reforma ortográfica)

Fabulário do Tédio e o Inevitável (de ratos, buldogues e bonecas suicidas)

Postado em Contos com as tags , , , , , , , em Novembro 17, 2009 por Fernando Albuquerque

para Fê
agradecimento especial à Paula Fernanda

 

(para ler ao som de Blitz)

— Como assim?

— Sei lá, foi outro dia, me deu vontade de ficar mais perto das estrelas.

— E subiu numa árvore?

— É.

— Começo a acreditar que você é mesmo doidinha.

— Por que subi numa árvore? Vai dizer que nunca fez isso quando era moleque…

— Fiz, mas eu sou homem e…

— Ah, vai dar uma de machista agora. E os direitos iguais?

— Não é isso.

— Foi o que você disse.

— Não foi. O que eu quis dizer é que eu era menino, e subia em árvore por razões de menino, não para ver estrelas.

— Machista! E além disso não tem poesia.

— Pra ser poeta não é preciso subir em árvore.

— Mas já que subia…

— Eu era criança, não tinha dezenove anos como você.

— E agora, com seus vinte e um, parece ter sessenta.

— Agora quem está sendo preconceituosa é você. Tem muito coroa por aí que aproveita mais a vida que a gente.

— Ah, nisso eu concordo.

(pausa)

— Ando pensando; como é que vai ser quando a gente ficar velho?

— Sei não. Quero nem pensar.

— É provável que você comece a ver novela.

— Ah! E você vai ser um velho resmungão, furando a bola dos meninos que estiverem jogando futebol na porta da sua casa.

— Acho que até lá não vai ter mais isso.

— Isso o que?

— Menino jogando bola na rua. Hoje quase já não tem, só querem saber de videogame, computador… é triste.

— Tá falando como um velho de novo mas eu concordo: é triste.

(pausa)

— Tu jogava bola quando era moleque?

— Não, eu era ruim pra caralho, daí nem jogava.

— E o que você fazia?

— Sei lá, nem lembro…

— Você não teve infância.

— Claro que tive.

— Então me diz do que brincava.

— Não lembro, já disse.

— Claro que lembra!

— Diz você primeiro.

— Dizer o que?

— Aff! Do que brincava, ora!

— Ah, eu brincava de tudo: tinha minhas bonecas, eu tinha um Topo Gigio que era marido de uma Barbie.

— Um rato e uma mulher?

— Pois é, desde pequena respeitando as diferenças.

— E dava certo isso?

— Dava sim, e eles viveram felizes até que a morte os separou. Meu cachorro Roger, lembra dele?

— Aquele buldogue com cara enfezada?

— Pois é, um dia eu deixei o Topo Gigio no sofá da sala e ele fez miséria do coitado. Tentei salvar, operei ele, mas ele não resistiu, morreu, coitado. A Barbie ficou viúva.

— E o buldogue também morreu depois…

— É. Atropelaram ele.

— Quem dirigia o carro, a Barbie?

— Ah, não seja sacana. Tadinho do Roger.

— Ainda acho que foi a Barbie.

— Não foi, já disse! Na época que o Roger morreu, a Barbie já tinha morrido.

— Morreu, também?

— Sim.

— Em que circunstância?

— Suicidou. Não agüentou viver sem o Topo.

— A Barbie suicidou? Explique.

— Ah, uma dia eu fui viajar com meus pais pra Cabo Frio e a gente foi de ônibus, daí levei a Barbie, só que quando passei perto daquele rio fedido que tem em frente à rodoviária, ela se soltou do meu braço e pulou lá dentro.

— Que morte triste.

— Pois é, chorei muito.

(pausa)

— Do que mais brincava?

— Ah, coisas de menina, casinha, fazer comidinha…

— Não sei o que menina vê em brincar de dona de casa.

— Pois é, só quando a gente cresce que vê a merda que é.

(pausa)

— E você, já lembrou do que brincava?

— Coisas de menino, polícia e ladrão, Power Rangers, rodar pião…

— Rodar pião? Pô, tô começando a desconfiar que você tem mesmo sessenta anos.

— Ih, não enche, eu também jogava muito videogame.

— Já existia?

— Não fode! Tenho vinte e um aninhos só, esqueceu? Você é muito chata.

— Não fica bravo não, só tô brincando com você neném.

— É, eu sei, mas…

(pausa)

— Quer escutar música?

— Hã?

— Música, quer? Tem um cd da Blitz aí, você gosta né?

— É, eles são engraçados.

— Então você quer?

— Não.

— E ver tevê, quer?

— Não. Odeio televisão, você sabe.

— Então quer comer alguma coisa?

— Comer o que?

— Não sendo euzinha, pode comer qualquer coisa. Tem biscoito, quer?

— Quero não.

— Pô, então o que é que tu quer, homem?

— Quero não envelhecer.

— Ah, meu bem, mas essa fórmula mágica eu não tenho. É inevitável. Preocupa não, ainda vai demorar pra acontecer.

— Humm… O que é que tem além de biscoito?

— Tem torta de maçã, acho, se meu irmão não comeu tudo. Vou ver.

(pausa)

— É, ainda tem torta de maçã, quer?

— Não. Isso é coisa de americano.

— Mas é gostoso, foi a Margarida quem fez.

— Quem é Margarida?

— A empregada, ora!

— Ela é americana?

— Não, é paranaense mesmo. Não precisa ser americana para fazer torta de maçã, e a globalização?

— É, daqui a pouco a gente vai estar comendo bacon com ovos no café da manhã e torradas com manteiga de amendoim. Isso não é globalização, é americanização.

— Mas você queria o que? Que japonês começasse a comer feijoada?

— Pelo menos é melhor que arroz puro.

— Japonês não come só arroz. Comida japonesa é uma delicia.

— Prefiro cheeseburger.

Cheeseburger é coisa de americano.

— Mas eu não como no McDonalds, os brasileiros são mais gostosos.

— Pois é, glo-ba-li-za-cão, um produto americano abrasileirado.

— Por um lado é bom, mas por outro…

— Como assim? Ou é ou não é.

— Não! Liga o rádio, a música tem decaído cada vez mais por causa da maldita globalização americana. Daqui a pouco não vai ter mais MPB e sim MPG, música popular globalizada.

— A Tropicália já era música globalizada e era bom.

— Ah, garota, Caetano e Gil são mestres, não há o que discutir. Mas eu tô falando é da turminha de hoje viver imitando Madonnas e Timberlakes.

— Cara, você fala igual velho.

— Vai dizer que gosta dessas coisas?

— Não, mas… me revoltar resolve?

— Se todo mundo se revoltar, resolve sim. Lembra do que dizia o Camus? Que a gente tem que se revoltar, que isso mostra que a gente está vivo.

— É, pode ser, mas nem por isso vou virar vegetariana pra salvar as vaquinhas.

— Nem eu.

— Tem pizza fria também, é de ontem, quer?

— Não.

(pausa)

— Eu preciso é me mudar.

— Mudar?

— Sim, me mudar daqui.

— Acho que mudar de cidade não vai te privar dos problemas do mundo.

— E quem falou em mudar de cidade?

— De país? Não adianta também…

— Eu quero mudar é de planeta!

— Bom, aí sim. Para qual?

— Saturno, talvez. É bem longe e até que é bonitinho.

— Será que tem praia lá?

— É mesmo, preciso verificar isso antes de comprar a passagem.

— Me leva?

— E por que eu te levaria, guria?

— Porque eu sou sua…

— Minha…?

— Namorada.

— Você não é minha namorada, é minha amiga.

— Mas se me levasse pra Saturno contigo eu ia acabar virando sua namorada.

— Talvez eu leve, mas só se você levar na bagagem seus livros e os cds.

— Combinado. Mas me diz, tem tomada em Saturno?

— Acho que não, pra que tomada?

— Se não tiver não vai dar pra ouvir música.

— Dá sim, a gente leva pilhas.

— Você é um gênio.

— É, eu sei disso.

(pausa)

— Quer ir pra cama comigo?

— Quando?

— Agora.

— Não.

— Por quê? Você é gay? Nunca me contou isso.

— Não sou gay, mas conheço seu pai. Se ele chega e me pega na cama com a filhinha dele eu vou sem bolas pra Saturno.

— Ele não vai fazer isso, não sou mais criança.

— Aos olhos do mundo não, mas aos olhos dele você continua sendo uma menininha, ainda mais enquanto continuar a subir em árvore.

— Não me acha bonita?

— Não é isso, você é a garota mais inteligente e interessante que conheço; transava com você mesmo que parecesse a Hebe Camargo.

— Não respondeu a minha pergunta.

— Você é bonita.

— Não me acha gorda?

— Não, nem um pouco.

— Eu sou gorda.

— Não, não é, você só não é esquelética. Gosto mais de garotas assim.

— Então você é tarado por tecido adiposo, porque eu sou uma baleia.

— Não é não. Você é linda.

— Então porque não quer?

— Sou covarde.

— Tem tanto medo assim do meu pai?

— Um pouco, mas tenho ainda mais de que você se torne minha futura ex-namorada. Não quero perder você.

— Então você me ama?

(pausa)

— Não daria certo.

— Não perguntei isso, perguntei apenas se você me ama.

— Você é filhinha de papai, tem boa família e eu estou prestando vestibular para mendigo…

— Sim, eu sou a Barbie e você é um rato, já sei disso faz tempo, agora responde.

— Amo.

— Ah, que lindo! Também te amo.

— Não se diz assim: também te amo, se diz apenas te amo.

— Claro que diz.

— Sem o também parece mais sincero.

— Deixa de besteira e me beija.

— Não.

— Por quê?

— Não quero.

— Você é estranho.

— Obrigado, você também é.

— Não se diz também, se diz você é estranha e ponto.

— Você é estranha e ponto.

— Está sendo sincero então?

— Não. Você se parece comigo.

(pausa)

— Ih, meus pais chegaram.

— Tá vendo, eu ia morrer.

— Talvez, mas não valia a pena morrer por isso?

— Não.

— Chato.

(pausa)

— Hei.

— Que.

— Já reparou que seu pai parece um buldogue?

— Como assim?

— Sei lá, reparei isso agora.

— Você é louco, tá ficando paranóico já.

(pausa)

 — Peraí, vou contar pro meu pai que a gente tá namorando.

— Não.

— Vou sim.

— Não, ele vai me matar, quer que eu morra?

— Te amo.

— Não, a gente não tá namoran…

— Paaai! Vem cá cumprimentar meu namorado.

— Depois não adianta se atirar dentro do rio.

— Paaaaai!!! Meu namorado.

— Não!

— Paaaaaaaai!!!

12 de Novembro — 2009.

se gostou deste texto, leia também GODARD.

Motel ou… Táxi?

Postado em Contos com as tags , , , , , em Novembro 14, 2009 por Fernando Albuquerque
car-sex[conto erótico]

para N. P.

TÍNHAMOS PASSADO A NOITE toda num bar na Vila Madalena, bebendo cerveja e conversando sobre nossas afinidades, sobre literatura, música, jazz e sonhos, mas sequer um beijo havia rolado. ela parecia tão entusiasmada me contando suas coisas que eu, na iminência de um porre, não encontrei nenhuma brecha para avançar. eu bem que queria; tive vários momentos de tesão enquanto a escutava e no meio de tantas palavras imaginava o que aquela boca que falava era capaz de fazer, mas toda vez que eu tentava falar sobre isso, ela lembrava de outro livro que tinha lido, outro disco que amava, um filme que a tinha marcado, e eu voltava a encarar meu copo de cerveja e a escutar, escutar, escutar. quando o relógio marcou 4hs da manhã, eu já estava conformado que ela não sentira atração por mim, que aquela seria mais uma noite perdida, então perguntei se ela não queria ir embora. ela respondeu que sim e depois de pagar a conta, que estava lá nas alturas, fomos atrás de um táxi. encontramos um e pulamos dentro.

não havia muito mais a ser dito, assim seguimos as primeiras quadras em silêncio. encostei a cabeça no vidro e comecei a pensar que aquilo não podia acabar assim, já havia passado por tantas situações como aquela que, se eu quisesse, poderia escrever um livro inteiro só contando sobre as garotas que tinham tudo para dar e no final da noite não deram em nada. ao mesmo tempo ela ficava me encarando e sorrindo, eu a olhava, sério, escorregando meu olhar pelos lisos fios de seu cabelo preto, pelo pescoço, ombros, seios, as pernas cruzadas enfiadas na calça jeans. linda. senti vontade de tomá-la ali mesmo, não importava o que fosse pensar o taxista, já não importava mais nada, eu só não podia me ver enfiando a cara no travesseiro sozinho no quarto cheio de ódio por não ter sido capaz de encontrar os pontos fracos daquela garota. não com ela: ela era boa demais, bonita demais, sensual demais para ser desperdiçada.

paramos num sinal vermelho e ela finalmente falou.

“e agora, o que vai ser?”, perguntou ela.

não respondi. em vez disso agarrei sua nuca com a minha mão direita e dei-lhe o beijo que estava entalado na minha boca desde que a vi pela primeira vez. beijei-a com gosto, minha língua se entrelaçando com a dela feito serpente, como se morto de sede, encontrasse naquela boca uma fonte de água fresca. ela não tentou se esquivar, simplesmente aceitou minha boca deslizando suavemente os dedos pelo meu cabelo, nossos corpos se tocando, nosso cheiros se misturando, enquanto eu furiosamente matava minha sede com sua saliva adocicada.

aquilo foi o suficiente para me deixar animado. de repente foi como se toda embriagues cedesse lugar ao tesão, ao desejo louco de possuir aquele corpo o quanto antes. escorreguei minha mão para os seios e minha boca para seu pescoço — agora a saliva já não me satisfazia, eu queria seu sangue, seu calor, adentrar o seu fogo. não contente em apenas passar a mão nos seios sobre a roupa, enfiei a mão direita por baixo da camiseta alcançando, nas costas, o feixe do sutiã. sem muito trabalho o desabotoei e finalmente pude sentir aquela pele macia dos seios. toquei um dos bicos com o indicador, estava durinho, ao passo que minha outra mão se fartava em sua bunda. logo em seguida ela sussurrou em meu ouvido que me queria e com os dedos delicados e alguma dificuldade desabotoou minha braguilha e segurou meu membro ereto com firmeza, depois correu os lábios pelo meu pescoço, meu ombro, meu peito até alcançá-lo e abocanhá-lo com uma fúria parecida com a qual, instantes antes, eu havia lhe dado aquele beijo. aquilo me fez delirar, pude ver estrelas coloridas brilhando em frente aos meus olhos.

enquanto ela me chupava, resolvi dar uma olhada no banco da frente, para ver como andava o motorista. parecia normal, como se não visse nada ou, como é mais provável, fingisse não ver.

ela continuava a trabalhar, às vezes me lançando olhares que me faziam arrepiar inteiro, e eu também aproveitei para desabotoar sua calça e enfiar a mão dentro da calcinha. sua boceta estava encharcada, bolinei um pouco seu clitóris e depois introduzi nela meus dedos indicador e xingador, o que a fez soltar um gemido abafado e quase estrangular o meu pau com a mão. pensei: não vai dar pra esperar chegar em casa, vai ser aqui mesmo.

toquei seu ombro, ela parou de chupar e se sentou. num laborioso contorcionismo, consegui tirar sua calça e a calcinha. masturbei-a por alguns instantes e em seguida me abaixei e a chupei, lambendo-a com vontade, sentindo seu gosto, até gozasse, puxando meu cabelo como se quisesse arrancá-lo. já não podia esperar mais, nem um minuto, estava ansioso demais para penetrá-la. assim, fiz com que deitasse no banco e, depois de esfregar um pouco meu pau naquele grelinho molhado fazendo-a a gemer de êxtase, eu a penetrei e, segurando com uma das mãos na alça que fica em cima da janela, comecei meu vai e vem. vez por outra eu segurava e beijava a perna e o pé que estavam mais próximos, sobre o encosto do banco. depois tentamos mudar de posição, ela ficou de quatro sobre o banco, mas eu, sem ter onde me apoiar, me desequilibrei quando o carro passou numa lombada. desse modo, depois de fodermos um pouco com ela sentada em meu colo, voltamos à posição do início.

essa hora nós já nem nos lembrávamos mais da presença do taxista que provavelmente se fazia de voyer nos observando pelo espelho retrovisor. ela era puro tesão e esse tesão me incendiava por dentro, cada gemido abafado que ela soltava, cada mordida no lábio, cada gota de suor que escorria pelo seu corpo bronzeado, era como se mais lenha fosse jogada na fogueira dentro de mim. até que senti que ia gozar, tirei para fora e antes que eu começasse a me masturbar para gozar, ela mesmo o fez. foi um gozo intenso, senti cada milímetro do meu corpo estremecer enquanto meu corpo se derramava gota a gota numa explosão de prazer digna daquele belo corpo de mulher que segundos antes eu havia possuído.

eu havia descoberto todo o poder daquela boca, a pele, o corpo. ela havia me descoberto. mais tarde nós refletiríamos juntos sobre toda beleza daquilo que aconteceu naquele táxi, encantados com a força do nosso desejo incapaz de se conter ou esperar.

depois que vestimos nossas roupas, percebemos que o táxi já havia dado várias voltas pela cidade. quando paramos na porta do prédio onde ela morava, o taxímetro marcava 42 paus. pagamos, em silêncio, e nenhum de nós dois teve coragem de olhar na cara do taxista.

 

02 de Novembro — 2009

O Casulo

Postado em Contos com as tags , , , , , , , , em Novembro 9, 2009 por Fernando Albuquerque

casulopara Cassiana, pelas borboletas digeridas.

“um outro tempo, ainda este, o tempo, o outono, a tarde, o mundo, a esfera, a espera em que estou para sempre presa” (Caio Fernando Abreu: Fotografia).

sentado num banco de bar, gosto amargo de cachaça barata na boca, copo sobre a mesa, numa solidão dessas de fim de noite. só que não era noite. nem fim. só o meio de uma tarde ensolarada de quinta-feira, sem dormir há três dias, empanturrado com um vazio inominável proveniente de um tédio qualquer e, sendo assim, qualquer hora lembrava o fim de alguma coisa. acabado, pensava. parece que estou destinado a sempre perdê-las; outra, que diferença faz afinal?
curtindo uma fossa. cansado da mesmice, de sempre acabar tudo igual, cheio das indecisões femininas, da covardia, das desistências. daí acabar num bar, sozinho, sonhando com o improvável. era um desejo louco de qualquer coisa, queria assim tentar o fantástico, o absurdo, provar o gosto selvagem do viver em absoluto. não precisar mais me empenhar tanto, dar o melhor de mim com palavras, sorrisos, cartas de amor de doze páginas para no final acabar assim: quando der a gente se fala, estou confusa, você já não é tão essencial para mim como era dois meses atrás porque descobri que no mundo existem outros dez mil homens além de você que poderiam me fazer uma mulher feliz. esse é o problema, elas nunca sabem o que querem e desperdiçam as melhores chances por causa de critérios que mesmo elas, no fundo, não entendem.
bebi outro gole da cerveja. voltei o copo pra mesa. foi quando uma borboleta pousou no copo, como se quisesse me dizer alguma coisa com as cores de suas asas. roxo, verde, vermelho, cinza. lembrei que havia lido em algum lugar sobre uma garota que havia comido borboletas e que elas tinham um gosto indigesto. discordei, elas podem ser bem saborosas quando apreciadas moderadamente. eu não comi a borboleta, mas é possível que eu a tenha vomitado — algum resquício de paixão antiga, mal curada, que agora agonizava em meu copo frente aos meus olhos. fiquei olhando para ela, suas cores fizeram-me lembrar de uma época perdida, qualquer coisa perdida da qual eu já não sabia bem como era, mas era tão parecido com o agora. o presente imitando o passado ou a vida sempre igual? um estranho sentimento de efemeridade percorreu meu corpo. pensei, tudo que era belo durava pouco, ficando só as cinzas de tudo e a solidão. sim, nascer sozinho, crescer e reencontrar a solidão. não; jamais me acostumaria a conviver com ela, mas ela sempre volta.
eis que começo a sentir alguma coisa me apertar, como paredes ao redor do meu corpo, paredes do bar, da rua, da cidade, do estado, do país, paredes do mundo e do tempo e da vida, limitando meus movimentos feito camisa de força. uma sensação claustrofóbica de sufocamento me impelindo para um estado inevitável de pânico. era o casulo. uma camada espessa de cinzas separando as pessoas do que eu tenho a lhes oferecer.
sem asas, jamais saí. tudo o que vi foi por uma fresta, um buraco aberto com as unhas no invólucro do casulo. ou se saí, movido por uma paixão, voltei correndo assim que o amor acabou e eu me vi novamente só. tinha sido confortável até então, mas lembrei que algumas lagartas, devido a eventualidades do mau tempo ou por maldade dos garotos que destruíam os casulos, jamais chegavam a tornar-se borboletas. tive medo de ser para sempre lagarta. e tive medo de que o amor que eu não temia jamais acontecesse. e tive medo de jamais aprender a voar como voava em meus sonhos de criança.
e num ímpeto de coragem, me vi forçando as paredes, me debatendo feito feto que rebenta a placenta em busca da luz. rompendo as paredes do casulo, esticando as asas, as pernas, os braços ao máximo. forçando, forçando, forçando. até que consegui abrir os olhos e vi a mesa, o copo, o interior do bar e, entrando pelas janelas e portas, a luz. e vi as pessoas, as mulheres, milhares de possibilidades em vinte e quatro horas de vida. mas no instante seguinte percebi que a maioria das pessoas ao meu redor também estava trancada em casulos, fazendo festinhas, sorrindo amarelo para não se deparar com a infelicidade que os persegue noite e dia. descobri que a solidão também existe aqui fora, que os outros também eram covardes mascarados. pensei nas mulheres que haviam me deixado, lembrei da mais recente e soube naquele instante que todas também eram covardes. tomado de revolta, abri as asas e voei,
voei,
voei até chegar no ponto mais alto de uma montanha onde ninguém me vê mas eu vejo a todos, lá embaixo: um aglomerado de casulos com lagartas olhando a vida através de ínfimas janelas. passo meus dias sozinho a observá-los, primavera, inverno, verão, sempre outono, folhas caindo e eu esperando que a qualquer hora algum se abra e dele nasça uma bela borboleta que voe até mim para me fazer companhia.
09 de Novembro — 2009

obra-prima

Postado em Poemas em Novembro 9, 2009 por Fernando Albuquerque
suportando o calor e a chuva.
suportando o tédio.
suportando prisões e esperas.
suportando o peso de estar
vivo
neste mundo
onde milhares de indivíduos iguais a mim
fingem não ser mais do que mortos-vivos
escravos de si mesmos,
de seus sorrisos amarelos
e conveniências:
nas festinhas dos finais de semana,
nos automóveis,
nos shoppings,
no meio da rua ou
nos programas estúpidos da tevê
e suas ilusões de felicidade
e política.
suportando tudo
sem dizer muito, apenas
suportando…
mas é duro pensar que você
pode já não ser
diferente deles
que você já não existe
que não insiste
para que eu lhe mostre a fuga
na cama
ou no banco de um parque
na beira da praia ou
do desatino.

eu lhe desenhei com aquarela —
pintei o seu rosto, seus
olhos, sua boca,
contornei as formas do seu corpo
para que você se abrisse
para mim e me desse
qualquer coisa a mais
que as outras
não deram.

eu lhe fiz obra-prima
no entanto você
quis ser um objeto sem valor
coisa vulgar que agora se vira
contra o criador
até que eu
não suporte mais.
vai chegar um momento
em que você irá se lembrar
e o vazio entre suas pernas
e o vazio dentro do seu peito
pedirá por mim
pois eu me fiz seu deus
e fiz você no meu número exato —
nenhum outro encaixe
servirá.
só que até acontecer
outros irão decepcioná-la
outros irão chutá-la
e cuspir na sua cara.
para eles
você é só o objeto mais fácil,
coisa barata
sem sequer um vestígio
de todo o brilho
e a arte
que eu empreguei
em você.

 

09 de Novembro — 2009

canto de chuva

Postado em Poemas com as tags , , , em Novembro 3, 2009 por Fernando Albuquerque

quando a chuva parar
de afogar meus os sonhos
vou nascer do pó
como castelo de areia
de portas abertas
para que entre

e dizer que não tenho medo
que meu ser é sua casa,
abrir as janelas
ver o sol explodir no meu olho
ver você passar
sorrir e eu lhe buscar
para que entre
e encontrar

um canto de espera
sem esperar
um pouco de alivio
para seu corpo
que procura meu corpo:
seu corpo no meu
seu eu em mim
entrará

quando a chuva parar
de molhar o meu sonho
e você abrir sua vida
para que eu entre.

29 de Outubro — 2009

Pau no “Coogle”

Postado em Artigos com as tags , , , , , , , , em Novembro 1, 2009 por Fernando Albuquerque

“Sexo não é obsceno. Guerras são obscenas” (Henry Miller)

henry-miller

FOI POR CAUSA desta foto (acima) do escritor americano Henry Miller que os responsáveis pela censura no Google decidiram ser conveniente excluir meu perfil no Orkut. perfil que eu tenho há cinco anos, o qual nunca antes expôs foto de nudez e/ou pornografia. em que século estamos vivendo já que uma foto tão amena (que por acaso eu achei buscando no Google imagens) pode parecer tão ofensiva? o fato é que postei a foto num dia e no seguinte, quando fui acessar meu perfil, me deparei com uma tela branca e a mensagem informando que meu perfil havia sido excluído efetivamente sem grandes explicações ou qualquer direito de defesa. não mandaram sequer um aviso prévio: simplesmente excluíram. e isso é só um exemplo dentre tantos do quanto a nossa sociedade hipócrita, em pleno século XXI, ainda faz do sexo o maior dos tabus.

quanto mais explícitas as coisas ficam, mais as pessoas parecem se esconder atrás de um falso pudor puritano. há uma onda de repressão que vem sobrevivendo durante os séculos, e por mais que se repita por aí que hoje vivemos num mundo liberal, esta não é a realidade. as coisas parecem estar regredindo ao invés de progredir; de repente até um simples palavrão não nos é mais permitido porque ofende os bons costumes, não se pode falar merda na tevê antes das dez horas da noite. ao mesmo tempo, ironicamente a sexóloga Laura Miller (que tem o mesmo sobrenome do consagrado escritor aqui citado) fala, no programa Altas Horas, de sexo anal com a mesma naturalidade que uma nutricionista falaria dos benefícios de se comer alface no jantar. como desculpa, dizem se tratar de uma quadro educativo, mas num geral é pura hipocrisia. deixe-me ver se entendi direito: quer dizer que ensinar uma garota de quinze anos a dar o cu é permitido mas falar sobre isso não? ver a Mulher Melancia rebolar libidinosamente sua avantajada bunda ao som de músicas com letras de conteúdo duvidoso num programa de tevê na tarde ensolarada de um domingo pode porque é cultura? já pôr num álbum do orkut uma foto em preto e branco de mil novecentos e teia de aranha de um escritor com uma garota nua que tem mais pentelho do que boceta também não pode? é isso? pau no “Coogle”, se isso não é uma tremenda hipocrisia.

não sou do tipo que faz apologia à pornografia, nem sequer divulgo a nudez artística que eu, intimamente, admiro. mas afirmo que a censura a qual temos sido submetidos é antiquada e absurda. concordo que práticas como pedofilia, pornografia infantil, zoofilia, estupro e quaisquer outras atrocidades devem ser condenadas e punidas da pior maneira imaginável. no entanto, qualquer outra forma de repressão sexual é um insulto à liberdade das pessoas.

podem me dizer que essa censura existe por causa das crianças. eu digo: tudo bem, faz sentido, e eu não estou pedindo para que passem filmes do Tinto Brass na seção da tarde. mas é bom lembrar que a principal exigência contida nos Termos de Uso do site de relacionamentos Orkut é que o membro seja maior de dezoito anos.

deste modo, devemos considerar as seguintes afirmações:

# toda pessoa que tem consciência da coisa pensa em sexo.

# a nossa cultura, seja na música, no carnaval, nos livros ou nos filmes, e até mesmo a publicidade, usufruem, em algum momento, da sexualidade como forma de atrair o expectador.

# todo homem, maior de dezoito anos, já viu pelo menos uma vez uma mulher nua — e se não viu, procure ver, porque você tem um problema.

# toda mulher vê a própria nudez todos os dias, desde que se conhece por gente e toma banho.

# todo homem tem pau, toda mulher tem boceta e todo mundo tem cu e boca para falar pau cu e boceta.

# todo mundo nasceu pelado, e roupa só existe para diferenciar melhor as classes sociais (por mim, andava todo mundo nu com a mão no bolso).

assim, que mal há numa foto? que mal há em pensar em sexo? que mal há em se falar em sexo?

eu não estou aqui para entrar em confronto apenas com o maior grupo empresarial do planeta que é o Google, mas também com a nossa sociedade com todos os seus falsos pudores. senti que era preciso falar sobre isso, e o fazendo sei que algumas pessoas entenderão o meu raciocínio e, entendendo, espero que pensem sobre isso, reflitam e questionem se já não é hora de uma mudança radical para com esse tipo de repressão. caso contrário, se as coisas continuarem a seguir esse mesmo rumo, daqui a pouco vão querer censurar também este blog porque aqui se fala abertamente de sexo. depois vão querer costurar minha boca para que eu não fale mais em sexo peito bunda boceta meu pinto. por fim, vão querer cortar o meu pinto para que eu não trepe mais.

não sei se é por que vivemos num país católico ou se ainda não conseguimos nos livrar por completo dos “ensinamentos sagrados” da repressão dos tempos de ditadura militar, mas o fato é que somos castrados todos os dias e aceitamos tudo numa boa, como coisa natural. é comodismo demais, será que o povo brasileiro nunca vai evoluir e se espelhar em sociedades como a da Holanda? uma das pessoas com quem eu mais conversava pela internet e uma das principais admiradoras de meus textos mais sensíveis (que escreveu o belo texto em minha homenagem que está nas páginas deste blog)  parou de falar comigo sem dar nenhuma explicação e eu suspeito que tenha sido porque ela se ofendeu por eu ser supostamente muito obsceno em alguns textos que escrevo — e quem já leu Miller ou Bukowski, sabe bem que eu não sou. enquanto isso os noticiários continuam exibindo explicitamente a guerra do tráfico nos morros cariocas, a guerra no Iraque, a guerra na Palestina, a guerra, a guerra, A GUERRA… e ninguém censura.

o Henry Miller não estava errado quando disse que a única coisa realmente obscena são as guerras. são as guerras que devem ser reprimidas, assim como a desigualdade social, a fome, o desemprego, etc.

não existe liberdade nascida da repressão e nem razão fecundada na hipocrisia. essa é a minha humilde opinião.

“Hoje vai passar um filme na TV
Que eu já vi no cinema
Êpa! Mutilaram o filme
Cortaram uma cena…
E só porque
Aparecia uma coisa
Que todo mundo conhece
Se não conhece
Ainda vai conhecer
E não tem nada de mais
Se a gente nasceu
Com uma vontade
Que nunca se satisfaz
Verdadeiro perigo
Na mente dos boçais…
Corri pro quarto
Acendi a luz
Olhei no espelho
O meu tava lá
Ainda bem
Que eu não tô na TV
Senão ia ter que cortar…”
 (Ultrage a Rigor: Sexo!!)

01 de Novembro — 2009

se for preciso, eu colo na “testa” do blog esta imagem:
18_menores

DICAS DE LIVRO:

# Trópico de Câncer – Henry Miller

# Dias de Paz em Clichy – Henry Miller

# Mulheres – Charles Bukowski

# Casa do Incesto – Anaïs Nin

# A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera

 

DICAS DE FILMES:

# Henry & June – direção: Philippe Kaufman

# Crônica de um Amor Louco – direção: Marco Ferreri

# Faça Isto – direção: Tinto Brass

# Quills – Contos Proibidos do Marquês de Sade – direção: Philippe Kaufman

# Je Vous Salue, Marie – direção: Jean-Luc Godard

 

A PÁGINA CITADA NO TEXTO

[agradecimento especial ao blog Erótico Enrustido
(
http://eroticoenrustido.blogspot.com/
) pela imagem do Parental Advisory]

Possessão

Postado em Contos com as tags , , , em Outubro 30, 2009 por Fernando Albuquerque

corposConfluência. Lábios em lábios, corpo a corpo, a luz baça do abajur brilhando no suor da pele e o toque. Um balé de cheiros que enlouquecem, calor de sol em noite fria queimando e queimando de dentro pra fora. O fluxo contínuo de beijos à procura de beijos, fogaréu de estrelas num desejo de lua, toda a noite num instante de nós. Sem alma, sem calma, sem dor, apenas a força do instinto. Magnetismo inconseqüente de gestos, atração e impacto. Dreno você até não agüente mais e simplesmente me peça. Mais, quer que eu vá além e eu vou. Persigo as curvas de seu corpo, me escondo nas dobrinhas, faço alpinismo no bico do seu seio e me alimento da sua endorfina. Euforia, vermelho, mais forte e profundo. Entro em você e já não quero mais sair: a solidão é bem melhor a dois. Nós dois e a fúria insensata da vida, eletricidade da sua pele para a minha. Seus sussurros, gemidos, sim!, sim!, sweet surrender. Você me permite, eu lhe permito, respiramos um ao outro e nos deixamos cair juntos. Possua, possuo, nos possuímos. E nossa disritmia é tempestade que não se acalma, e acelera mais e mais e mais e nunca é demais. Pés, mãos, pernas, lábios, sexos, pele, entrelaçados num laço porque somos uma só coisa e precisamos chegar juntos. Você, impaciente, chega um pouco antes e explode em milhões de faíscas; o quarto se ilumina, a casa se ilumina e até mesmo o céu se ilumina quando você me arranha as costas com as unhas. Sangro por prazer e desejo beber um pouco de sua vida. Você me espera, você me incentiva, estou vindo ao seu encontro. Sede, você tem sede, você pede, implora de joelhos, por favor me dê!, você diz. E numa fração de segundo inundo você com o meu ser e assim renascemos afogados num mar de fluidos e contentamento. Você me engole sem mastigar; se sente satisfeita. Dou-lhe um último beijo e espero até que adormeça e então morro, agradecido.

 13 de Outubro - 2009

é o modo como você joga o jogo

Postado em Charles Bukowski: poemas e textos., Poemas em Outubro 30, 2009 por Fernando Albuquerque

chame-a de amor
coloque-a de pé sob a luz
imperfeita
ponha-lhe um vestido
reze cante implore chore ria
apague as luzes
ligue o rádio
acrescente-lhe enfeites:
manteiga, ovos crus, jornais
de
ontem;
um cadarço novo, e então
páprica, açúcar, sal,
pimenta,
ligue para sua tia velha e
bêbada em
Calexico;
chame-a de amor,
espeta-a bem, adicione
repolho e molho de maçã,
então a esquente primeiro
no lado esquerdo,
depois no
direito,
ponha-a numa caixa
livre-se dela
deixe-a nos degraus de uma
porta
vomitando como você fará
nas
hortênsias.

 

(Charles Bukowski)

ataduras

Postado em Poemas em Outubro 26, 2009 por Fernando Albuquerque

esses jogos de proximidade
essas loucuras auto infligidas
esses domínios de amor —
competição terrorista
e insensata

sua calcinha vermelha
tristemente abandonada
no chão da sala
no box do banheiro
na minha gaveta
porque você não precisava dela
quando estava comigo

:esses suicídios
:esse delírio

antes de nós
você esperava eu esperava
até que resolvemos dar-nos
nós
(você dizia: ata-me
mas jamais demos certo amarrados)

você me quis mais perto
eu fui morar dentro de você
e dia após dia
assistimos na nossa cama um naufrágio
e sabíamos:
éramos você e eu
                                os que a
                                                 f
                                                   u
                                                       n
                                                          davam…

e eu fui sua âncora
e você minha âncora
e juntos conhecemos o fundo
do fundo
do mar de nós mesmos
e morremos.

agora você não é mais do que um eco
ecoando ando
                ando
                ando
                através dos corredores escuros
dentro da minha cabeça cheia
de nós.

nos entendemos melhor à distância
você me entende melhor fora
da sua cama
da sua casa
da sua vida

e estamos novamente juntos
nesse oficio de (des)esperar
aquilo que não vem
                                        :nunca vem

— vou subir nos andaimes da noite
onde as nuvens se equilibram
e assim desligar as torneiras da chuva
para poder lhe dizer claramente:
obrigado pela companhia.

25 de Outubro — 2009

Bukowski cut-up

Postado em Charles Bukowski: poemas e textos., Poemas com as tags , , , , , em Outubro 23, 2009 por Fernando Albuquerque

buk_esperando_nataliaesse desejo de nós

para Natália Ponciano

sigo esvaziando garrafas à espera dos passos. posso senti-la no ar, posso senti-la na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas para seus pés caminharem, posso ver travesseiros para sua cabeça, posso sentir a expectativa da minha risada, posso vê-la acariciando um gato, posso vê-la dormir, posso ver seus chinelos no chão. pequenas gotas de você pingando na poeira. sei que alguma noite em algum quarto logo meus dedos abrirão caminho através de cabelos limpos e macios. quando me penso morto penso em fazer amor com você quando não estou por perto. é tudo tão confortável — esse fazer amor, esse dormir juntos, a suave delicadeza… outra cama outra mulher mais cortinas, outro banheiro outra cozinha outros olhos outro cabelo outros pés e dedos. essas orelhas esses braços esses cotovelos esses olhos olhando, o afeto e a carência me sustentaram. sou um bom cozinheiro, um bom ouvinte, mas nunca aprendi a dançar. me sinto bem melhor agora. dediquei-me ao sapateado e as palavras difíceis que sempre tive medo de dizer podem agora ser ditas: eu te amo como um homem ama uma mulher que jamais tocou, para quem apenas escreveu, de quem manteve algumas fotografias. eu poderia ter te amado mais se eu tivesse sentado numa pequena sala enrolando um cigarro e ouvindo você mijar no banheiro. mando a cerveja goela abaixo, peço uma bebida forte rápido para adquirir a garra e o amor de continuar.  eu sairei e esperarei por você.
versos: Charles Bukowski
cortes e emendas: Andrew Clímaco (F.A.)

poema torto

Postado em Poemas com as tags , , em Outubro 23, 2009 por Fernando Albuquerque

de vir só
      sem me apoiar
              acabei manco
assim:               meio torto

divi//dido
entre o SONHO
                          e o oposto.
um era desgosto
             o outro desencosto,
reto, optei pelo torto:
o peso do sonho
             que faz mais o meu gosto.

 

23 de Outubro — 2009

Desencontro

Postado em Contos com as tags , , , , em Outubro 17, 2009 por Fernando Albuquerque

lonely_dogpara Kellek

 

“claaaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sócio político artístico filosófico existenciais e bababá em comum só podiam dar mesmo nisso: cama”

(Caio Fernando Abreu: Os Sobreviventes)

  

NÃO VENHA me falar que não era para dar certo, eu disse, você já leu tanta coisa, tem conhecimento, não pode simplesmente parar e me atirar na cara um estúpido clichê como se isso fosse tudo o que tem a me dizer depois de tudo que vivemos aqui, neste apartamento. Ela franziu o cenho numa expressão ressentida, tragou o cigarro como se buscasse na fumaça inalada a palavra certa para dizer. Deste modo: nessas horas, ela disse, é o que a gente sempre diz, que não era pra ser, mas eu sei, você está certo, é uma bobagem, mas contudo é uma bobagem que tranqüiliza, sei lá, de alguma forma parece minimizar a culpa que sentimos por ter dado tudo errado… Mas eu a interrompi: quem foi que falou em tudo? de onde tirou que deu TUDO errado, não é bem assim, meu bem, e os bons momentos, esquece deles agora, assim do nada, só porque estamos num naufrágio? Não, querido, responde ela, eu não esqueço, só não quero lembrar, dá pra entender? é mais fácil pensar assim, que foi tudo um erro, que cometemos um grande engano e só. se eu pensar que poderia ter dado certo e que de alguma forma, por estupidez nós ferramos tudo, porra cara, eu vou me sentir muito mal, não vou conseguir tirar a cabeça do travesseiro amanhã, tenta entender o meu lado. Não existe essa coisa de o seu lado, estamos os dois na mesma fossa atolados na mesma merda e se fizemos juntos a cagada, tentar sair sozinha é burrice, eu disse enquanto ela apagava cuidadosamente o cigarro no cinzeiro. Eu não sei, preciso beber, você quer? E eu respondo que não, que prefiro olhar para isso sóbrio. Ela se levanta, vai até a cozinha depois volta com uma garrafa de gim pela metade e dois copos que coloca sobre a mesa para em seguida encher um deles e voltar a perguntar: tem certeza que não quer? vai te fazer bem, trouxe um copo para você. Mas eu não quero, me contento em acender um cigarro e, ao ver, ela faz o mesmo. Por uns instantes não dissemos nada, fiquei apenas a observá-la, seus gestos suaves, a maneira delicada como segura o copo com bebida tão forte e o modo como traga o cigarro depois tombando a cabeça para trás para expelir a fumaça azul formando uma nuvem no ar. Essa mulher, que agora noto como uma estranha, como pode ser a mesma que sorria comigo meses atrás quando saíamos juntos nos finais de semana? Seus olhos parecem tão diferentes, há uma sombra de cansaço sobre as pálpebras e aquele brilho juvenil que outrora me encantou cedeu lugar a um vazio fosco, doloroso. Mas continuava bonita, era só a passagem de uma grande dor, perdíamos, mas perdíamos o que senão algo que nós mesmos decidimos perder: um ao outro. A vida é uma merda, disse ela quebrando o silêncio, é isso, a vida é uma merda porque eu sei que você não queria nem eu queria que as coisas terminassem desse jeito. tínhamos tanta coisa, cara, você pode ver? pode ver tudo aquilo que a gente teve e tudo aquilo que a gente ainda ia ter se por causa dessa desventura ordinária a gente não tivesse fodido tudo como se a vida fosse uma puta, pode ver? Respondi que podia ver sim, naquele momento cada segundo que vivemos juntos se desenrolava na minha cabeça e se emaranhava dentro do meu peito até formar um grande nó. Pois é, continuou ela, eu também não consigo esquecer e isso dói. lembra daquela vez, pouco depois que nos conhecemos, que você me deu uma flor e eu disse que você era romântico e ridículo, deixando você sem graça? cara, eu não falei, dei uma de durona, mas aquilo me deixou encantada porque eu estava me apaixonando por você e a cada dia você se mostrava mais perfeito, do jeitinho que eu te idealizava em meus devaneios na cama, antes de dormir. Ela acende um cigarro na brasa do outro, seus pés descalços sobre a mesinha de centro foram os pés de uma rainha, pés que eu reverente e sem pudor beijei, agora eram os pés que sapateavam em cima do meu coração em frangalhos e eu permitia simplesmente porque eu ainda… Ameaço falar, mas ela me interrompe: e as nossas idéias, nossos planos, nossos anseios, tudo aquilo que tínhamos em comum, quando concordávamos que a melhor década que não vivemos fora a de oitenta e lamentávamos que todo mundo em nosso tempo era comodista e sem ideais e a cultura estava morta e ninguém mais se interessava por ela a não ser nós dois, quando víamos filmes italianos alemães franceses comendo pipoca e detonando hollywood, quando a gente ficava horas sentados no sofá discutindo se o melhor compositor era o Chico ou o Caê ou se o melhor livro do Caio Fernando Abreu era Morangos Mofados ou Inventário do Ir-remediável e você dizia que queria ser um escritor igual ele e que se escrevesse qualquer um desses livros já seria uma pessoa realizada, mas logo depois se retratava, dizia que não precisava tanto, que bastava ter a mim que já se sentia assim realizado e em seguida me beijava a boca com uma sede de mim que eu nunca tinha visto igual, e a gente transava ali mesmo no sofá carregados de uma paixão furiosa, e era sempre bom, mesmo quando eu não tinha orgasmo, porque eu também me sentia realizada, porque você era o meu homem. Nesse momento engoli seco; o nó do peito começava a subir para a garganta e o gim que ela agora bebia em grandes goladas parecia chamar por mim, mas resisti, não vou beber, mesmo que quisesse tinha medo que o simples gesto de pedir o copo me fizesse desabar em lágrimas. Acendi outro cigarro, estava fumando um atrás do outro, mas não adiantava, a angústia persistia. Agora me diz, continuou ela, acha que é fácil para mim, ter que relembrar isso tudo? não é, cara, é foda! você era perfeito, eu amava tudo em você, o seu olhar sisudo, seu humor corrosivo, até a sua tristeza eu amava, a forma como me punha num pedestal e se orgulhava em dizer que eu era a sua namorada, o jeito que me tocava diferente de todos os homens que haviam me tocado antes, amava como me comia com vontade e mesmo quando embriagado não conseguia, eu amava quando você sorria e amava quando não sorria, amava até o espaguete horrível que você cozinhava para mim quando eu chegava cansada demais do trabalho para fazer qualquer coisa, só que a convivência nos esmagou, esse morar juntos, talvez não estivéssemos prontos para nos tornar assim, de uma hora para outra, marido e mulher, você me entende? daí vieram as brigas e eu já não te tratava como antes e você foi se distanciando, ficando com medo de mim… eu sei que eu te feria, sei que doía em você mas também doía em mim, você achava que eu fazia por mal, mas na verdade eu só estava desesperada vendo meu sonho desabar sem saber como salvá-lo. Peguei o copo vazio sobre a mesa e despejei dentro um pouco do conteúdo da garrafa, ela me olhava com os olhos marejados e eu quase me afogava naquelas lágrimas que insistiam em não descer, então, depois de um bom gole na bebida que me desceu arranhando a garganta, eu pude falar, perguntei como vai ser daqui pra frente? vamos voltar à solidão de antes? logo nós que sempre dizíamos que a solidão era melhor a dois, e concordávamos que o mundo estava perdido e só nos restava fugir juntos para o nosso próprio mundinho, aquele que inventávamos na cama na sala na cozinha, no nosso dia a dia. eu me acostumei a viver à sua sombra, a ser sua sobra, a me esconder na sua boceta quando aqui fora me faltava o ar, dois pratos na mesa, duas toalhas no banheiro… Dois caminhos, completou ela, é assim que vai ser; eu também estou habituada aos seus hábitos, mas há de passar, vamos nos acostumar e uma hora voltar a fazer planos; vai ser melhor para nós dois. nossa vida não é um tango argentino, sempre fomos rock and roll, mesmo quando na vitrola o que rolava era Cartola e João Gilberto, sempre fomos rock and roll e rock and roll vamos sair disso. Sim, vamos, concordei. O cigarro dela acabou, me dá um cigarro, ela pediu. Essa foi a primeira coisa que me disse, quando nos conhecemos, me pediu um cigarro, se lembra? Lembro sim. Pois é, acho que algumas coisas acabam do mesmo jeito que começam. Você já está bêbado? Acho que não, por quê? Sei lá, acho que já estou, de repente senti saudade. Saudade do quê? De você. Ah, é? então qualquer hora dessas eu te ligo pra gente beber qualquer coisa. É, faz tempo que a gente não faz isso, posso te dizer uma coisa? Claro, diga. Se há algo bom nisso tudo, é que pelo menos podemos dizer: nós tentamos. Sim, havíamos tentado. Da poltrona onde eu estava não dava pra ver a porta por onde ela saiu, só deu para ouvir o barulho da chave e em seguida o grito silencioso que ecoou pelos cômodos do apartamento sem ela. Virei o copo, tornei a enchê-lo para em seguida tornar a virá-lo de novo. Foi então que adormeci, sem sonhos.

 

17 de Outubro — 2009

Noite de Núpcias

Postado em Contos, Humor, Outros Autores com as tags , , , , em Outubro 16, 2009 por Fernando Albuquerque

(livremente adaptado de um conto de Marquês de Sade)

 

Todo mundo que conhecia o Rodolfo lá de Caxias sabia que, na hora de ir pros conferes, ele gostava mesmo era de sexo anal. Contudo, sabe se lá por que diabos, ele inventou de se casar com a Aninha, a segunda filha dos Moreira, a família mais conservadora e puritana da Baixada. Eles viviam na idade média: sexo só depois do casamento e dentro de casa esse assunto era estritamente proibido. Deste modo, a moça era bobinha, não sabia nada sobre o assunto até o dia em que, na véspera do casamento, sua mãe, seguindo o costume e também por ter escutado fofocas a respeito da fama de papa-rabo do futuro genro, se pôs a instruí-la.
— Sem mais explicações, — disse a mãe — pois você sabe que sou uma mulher decente e isso me impede de dar muitos detalhes. Tenho só uma coisa para recomendar, preste bem atenção no que vou dizer: minha filha; não aceite, de maneira alguma, a primeira proposta que seu marido lhe fizer na noite de núpcias, escute bem, insista se for preciso. Quando ele tentar fale assim: “Aí não, querido, não é por aí que se aborda uma moça de família; eu deixo em qualquer outro lugar que o agrade, mas aí nem pensar”.
Chegada a noite de núpcias, o Rodolfo, querendo bancar o bom moço e respeitar a noiva virgem, pelo menos na primeira vez dela, resolve por fazer as coisas do “jeito certo”. Assim, ele abre as pernas da moça e quando toca sua boceta, a ingênua Aninha, lembrando de sua lição, o interrompe:
— Por favor, aí não. — diz ela — que tipo de garota você pensa que eu sou? Deixo em qualquer outro lugar que o agrade, mas aí nem pensar!
— Mas eu pensei que…
— Pois pensou errado, não adianta insistir, minha palavra é uma só!
— Pois bem, se é pra agradar a minha noivinha, — diz Rodolfo, com um sorriso malicioso, deitando a moça de ladinho — eu faço esse sacrifício.

14 de Outubro – 2009

O Milagre do Padre Tarado

Postado em Contos, Humor com as tags , , , , , em Outubro 16, 2009 por Fernando Albuquerque

(adaptado de uma anedota popular)

 

Um grupo de religiosos organizou uma expedição ao deserto do Saara, com o propósito de catequizar um bando de Beduínos. O grupo era formado por dois padres, quatro sacristãos e seis freiras, além de dois guias, divididos em sete camelos.
Depois de vários dias de caminhada sob o calor escaldante do deserto, com pouca água, à procura dos Beduínos, um dos camelos, que levava um padre e uma das freiras, já cansado se afastou do grupo.
Desse modo, padre e freira, percebendo terem ficado para trás, decidiram tomar o caminho de volta para o vilarejo de onde partiram. Sem conhecer a região acabaram perdidos no meio do deserto. Pra completar, passado um dia, o camelo, esfomeado e com sede, não agüentou e desabou, esperando a morte.
O padre, que nunca fora lá muito santo, vendo que provavelmente acabariam como o camelo, começou a repensar seu voto para com a igreja. A freira, que era muito bonita com seus vinte e oito anos, despertou no padre seu instinto libidinoso. Assim, o padre pensou: “Que castidade que nada, se eu vou morrer mesmo, antes eu como essa freirinha”.
A freira, desesperada, se lamentava.
— Ai meu Deus, como é que a gente vai fazer? — Disse ela. — A água está acabando e a comida também.
— Oh, minha filha, não se assuste, para tudo existe uma saída. Somos pessoas de fé.
E, ao dizer isso, o padre já estava com a barraca armada, a batina parecendo um sino, doido para comer a coitada. Daquele modo, achou conveniente não esperar mais, e tirou a batina, exibindo o cajado e os badalos do sino.
Ao ver aquilo, espantada, a freira exclamou:
— Meu Deus do cééééu! O que é isso?
Ao que o padre respondeu:
— Isto, irmã, é o milagre! Isto é a vida, é isto que dá a vida!
— Vai lá, então enfia no cu do camelo — respondeu a inocente freirinha.
 

13 de Outubro – 2009

Marina da Glória

Postado em Contos em Outubro 13, 2009 por Fernando Albuquerque
De caminhar assim, como se as ruas fossem traçadas à giz e em meu bolso guardasse o poder de mudar seus traços, imagino-me livre. Nesta paisagem, imagem do meu ser, liberto-me de outros quadros e me concentro no agora. Subtraio o medo e sigo: cada passo uma vitória, vencendo a insistência do fracasso — um mal de família, herança torta que me persegue. Me distraio um pouco olhando o balanço das águas e é como se nelas tivessem imersas meus sonhos de criança.
De caminhar assim, nunca paro. Meus sapatos velhos têm as solas já cansadas e desejam apenas poder chegar e repousar sob a segurança de uma cama quentinha; sabem eles que a estrada até aqui foi pavimentada com extravios e que juntos circulamos um destino. Ao menos chegamos no mar. Assim cheguei até aqui, passo a passo, lutando para não tropeçar nos erros dos outros. Ou em meus próprios erros, os quais não lembro onde deixei.
Acendo um cigarro para refletir melhor e as luzes amarelas dos postes e os faróis dos carros apressados me trazem uma imagem inesperada. Paro. Num momento me vejo num jardim que de tão grande não consigo ver onde acaba. Um sentimento de amor à vida me toma enquanto caminho para tocar as flores. Uma gratidão imensurável percorre meu corpo me causando uma espécie de formigamento. Êxtase por ter enfim chegado a algum lugar. Sorrio como não sorria há décadas.
Mas quando estendo a mão e retiro uma rosa do galho, o jardim subitamente desaparece e eu volto a ver a cidade anoitecida. O fluxo do tráfego escorre feito um rio, sem notar a presença furtiva deste corpo que me leva para lugar algum. Do outro lado, à minha direita, o mar salpicado de barcos e estrelas, um convite ao desatino. Quantos outros já não o procuraram em delírio? E de procurar sentiram-se barcos encalhados no deserto, porque o mar, mesmo este tão poluído, é para poucos. O mar que sempre foi meu amor distante, agora é parte desta ressaca da alma enquanto imploro por outro trago. Poderia eu beber o mar se fosse vinho?
Pergunto: de onde vim? Sempre me fazem essa pergunta como se fosse fácil para alguém respondê-la. Fato é que eu não sei nem de onde vim nem para onde vou. Talvez não saiba sequer para onde desejo ir. Até então a vida não fora mais do que uma fuga. E eu fugia de mim mesmo. Acontece que uma vez me contaram uma fábula sobre liberdade, e eu, ingênuo, acreditei que no mundo real era possível ser livre. Um dia fui criança e me disseram que os sonhos são só um esboço do mundo. Mera ilusão; o mundo é uma prisão cheia de sonhos impossíveis. Resta a fuga, para onde foi o meu jardim?
Nascer é estar disposto a superar. De uma hora para outra, todos os mocinhos se tornam vilões, e você, com sua imensa vontade de fazer um mundo melhor, acaba sozinho taxado de romântico. Solidão de barco à deriva, como pode parecer tão bela nos livros e tão feia na vida? Quando se é só, não há nada que preencha o vazio, você pode tentar a arte, a tevê ou até mesmo comer até engordar cada vez mais, mas no fundo sempre saberá que não passa de uma fuga que não traz alivio.
Sim, mar, é possível sentir pena de você, Você também tem a sua solidão e é cheio de máculas. Você não tem culpa, você escuta todos os dias as promessas das pessoas, elas dizem que tudo vai ficar bem, que vão consertar o estrago que fizeram com você, mas são apenas promessas. Você também está cansado, dá pra ver meu rosto refletido em suas águas. Não há expectativas, você também queria estar entre as flores. Mar, você também queria ser jardim. Nós somos iguais. O mundo nos faz assim.
Dizem: sorria. Dizem:
seja forte. Dizem:
tudo passa.
Mas não é para acreditar, é só para fingir. E eu finjo bem como quem finge a vida e inventa uma felicidade. De caminhar assim, cada passo uma vitória, não é assim que se diz? Quebro mau chapéu sobre os olhos e sigo em frente ignorando o tráfego. Traço um destino com meu giz e com meus sonhos tapo os buracos dos meus sapatos e calças. Tiro a rolha da garrafa, bebo um trago e, lúcido, me misturo ao sal e às ondas. Livre, me sinto assim, livre. E numa fração de segundo volto a ver meu jardim e nele penetro sem planos de voltar.
(O mendigo desaparece com um sorriso desdentado no rosto. Um gosto de vida e a Glória de uma cidade trágica. O trânsito flui bem até que o dia amanheça e tudo pare outra vez. E, na tarde daquele mesmo dia, uma garotinha, ao passar por aquele mesmo lugar, encontrará no chão uma rosa amarela. Para sua mãe ela dirá: “Parece um sonho, parece um sonho, mamãe”, e quem haverá de negar?).

 

07 de Outubro — 2009

Mercedes Sosa: Duerme La Negrita

Postado em Uncategorized em Outubro 12, 2009 por Fernando Albuquerque

sosa1Lembro de uma noite muito triste. Eu estava dentro de um ônibus, deixando Florianópolis, cidade em que eu havia apostado as minhas expectativas para no fim conseguir apenas mais uma desilusão. Pouco antes, na rodoviária, eu havia chorado como há muito tempo não chorava, e quando entrei no ônibus o nó na garganta persistia. Assim, liguei meu mp3 player para tentar me acalmar com as músicas que tanto gosto. Ao passar as faixas, encontrei um disco que me tocou tão forte naquele momento que eu simplesmente voltei a chorar, sozinho, no banco do ônibus. Por qué la noche és tan larga? Era a primeira vez que eu escutava aquele disco e também aquela cantora (havia carregado o disco no mp3 antes de viajar) e naquele momento soube que aquela era a coisa mais linda que eu já havia escutado.

A cantora era Mercedes Sosa e o disco, Mercedes Sosa Interpreta Atahualpa Yupanqui. Esta foi uma das maiores descobertas musicais que fiz nos últimos tempos e por este motivo devo agradecer a uma pessoa muito especial para mim, que foi quem me passou o disco, ou melhor, ela não passou, eu apenas o peguei. [Kelly, você sabe que é você].

Até então, a música Argentina havia passado em branco pelos meus ouvidos, sem me despertar interesse. Nunca gostei de tango, nem Carlos Gardel, nem de nada daquilo. Mas Mercedes Sosa era diferente, havia um sentimento sincero, uma tristeza e um consolo poético naquelas doze canções de Atahualpa Yupanqui. Hoje, posso dizer que, se tiver de escolher apenas um disco como favorito, com certeza será esse disco de Mercedes Sosa, lançado em 1977. Ele “fala a minha alma” como nenhum outro.

Mercedes também me abriu portas para conhecer outros grandes que cantavam em espanhol. Logo conheceria Violeta Parra (chilena, compositora de Gracias a La Vida) e o já citado Atahualpa Yupanqui, também argentino. Devo muito a essa cantora que perdemos recentemente e não poderia deixar passar sem escrever nada. Sem deixar a minha homenagem à La Negra.

Desta forma, quero re-postar aqui uma tradução que eu mesmo fiz, postada originalmente no meu outro blog no dia 15-08-2009, da música Piedra y Camino de Atahualpa Yupanqui, a primeira música daquele disco que me ajudou a chorar naquela noite tão difícil de minha vida.

“da colina venho descendo

caminho e pedra

trago enredada na alma, vida,

uma tristeza.

me acusas de não te querer,

não digas isso

talvez não compreendas nunca, vida,

porque me afasto.

é meu destino

pedra e caminho

de um sonho distante e belo, vida,

sou peregrino.

por mais que eu busque a sorte

vivo penando

e quando devo ficar, vida,

eu vou andando.

às vezes sou como o rio

chego cantando

e sem que ninguém saiba, vida,

vou embora chorando.

é meu destino

pedra e caminho

de um sonho distante e belo, vida,

sou peregrino”.

(Para uma moça da qual o rosto eu ainda não conheço)

Postado em Cartas em Outubro 9, 2009 por Fernando Albuquerque

Porque você está envolta por uma bruma de pala- vras ternas, contudo sem um rosto, me ofereço como sacrifício à esta esperança. E não sei se desejo mais despi-la deste vestido de cor imaginada ou mantê-la eternamente no conforto do meu sonho. Nos sonhos é minha carta premiada, no entanto fora deles, nas feições que desconheço, sei que esconde uma espécie de felicidade clandestina que é capaz de atiçar os meus sentidos até que eu atinja o desatino ou a plena loucura de viver por viver. Não sei como quero, só sei que lhe quero assim como lhe amo sem saber se amo. Não quero dar-lhe vida pois sei que na existência já existe e me espera quase calada, impaciente, na solidão dessa madrugada insensata, porque sabe: eu a desenho, a invento e a materializo em delírio e desejo dar vida e corpo a essa alma da qual só conheço as palavras. Agora que as sei, quero decorar seu silêncio, sentir suas sensações e proporcioná-las. Permita-me abrir suas cortinas para que eu possa aplaudi-la de pé e magnetizar nossos anseios, visto que meu desejo entende o seu desejo. Uma imagem, um sorriso, um toque. E um silêncio que fala mais do que mil cartas.

 

09 de Outubro — 2009

Pra que cérebro? [um recadinho aos seres que mais amo: as mulheres]

Postado em Artigos, Charles Bukowski: poemas e textos., Citações em Outubro 7, 2009 por Fernando Albuquerque

“as mulheres geralmente se entregam ao mais imbecil que elas conse- guem encontrar; é por isso que a raça humana está na posição que ela se encontra hoje: nós criamos os espertos e duradouros Casanovas, completamente ocos por dentro, como coelhinhos de Páscoa de chocolate que nós empurramos boca abaixo das nossas pobres crianças” — Charles Bukowski em Notes of a Dirty Old Man.

um problema que merece atenção são os métodos que as mulheres usam para escolher seus parceiros. é engraçado e trágico saber que, dentre tantas opções, a garota ainda se esforce para escolher o mais imbecil de todos. vezes demais presenciei e/ou vivenciei cenas que no mínimo me causaram enjôo. é sempre a mesma história: o cara legal, inteligente (e na maioria da vezes um pouco tímido) chega para conversar com a garota descolada e ela logo dá um chega pra lá no rapaz simplesmente porque ele não perdeu tempo falando mentiras e fazendo piadinhas sem graça para agradar a molóide. pouco depois aparece o sujeito mais boçal da cidade, peitinho depilado, sem nem uma sombra de barba no rosto (parece bunda de bebê o rosto desses caras), nenhum cérebro dentro da cabeça, cabelinho espetado parecendo um integrante remanescente do Vilage People ou algum membro do JACKASS, e assim faz meia dúzia de piadas estúpidas e conta meia dúzia de mentiras e logo a garota já está caidinha pelo cara.

é bem verdade que nunca comi ninguém pela minha inteligência; se quero agradar uma garota tenho que me fazer de idiota para chamar sua atenção e isso me incomoda bastante. outro dia mesmo vi uma chinesinha num show e resolvi ir falar com a moça (nota: eu estava de barba, coisa rara no homem moderno) e quando fiz um inocente elogio dizendo que ela era bonita ela me mandou tomar no cu na maior falta de educação, por isso fui obrigado a lhe dar a resposta: “pelo menos eu sou original de fábrica, brasileiro legitimo, pior é você que é made in China” (não sou racista e não quero parecer racista, tanto que tive interesse na garota, mas ela havia me mandado tomar no cu 5 segundos antes só por que a elogiei e uso barba).

a que ponto estamos chegando? o que vocês querem: um mundo lésbico? um mundo onde todo homem é metro e acéfalo? uma dúvida que tenho e que só vocês, meus amores, minhas lindinhas, podem responder: vocês acreditam mesmo no que os boçais dizem ou realmente gostam de imbecis?

devo dizer que amo as mulheres, e amo de verdade, não só as suas bocetas como os boçais para quem elas costumam dar; amo todo o ser, suas manias, seus jeitos, seus mistérios, etc. para mim mulheres são seres interessantíssimos e é por elas que eu vivo, contudo têm coisas que elas fazem que às vezes me tiram do sério. pô! será que não dá para começarem a pensar um pouco, ver que mulheres para esses caras são só pontinhos em suas estatísticas de bocetas comidas? gostam de serem vistas apenas como bocetas ambulantes e sem cérebro? infelizmente, por causa de comportamentos desse tipo, por se permitirem entregar a esses filhos da puta, começo a acreditar que vocês realmente não têm cérebro.

acho que se as mulheres passassem a escolher seus parceiros pelo intelecto e não pela capacidade de fazer piadas sem graça os homens se esforçariam mais para adquirir conhecimento e, conseqüentemente, o mundo melhoria um bocado. o homem faz tudo pela mulher, trabalha pela mulher, enriquece pela mulher, vive apenas pela mulher e dessa forma também é capaz de criar caráter em razão da mulher. por isso, meninas, o mundo está nas mãos de vocês. chega dessa bobagem que vocês inventaram de achar que tudo é feminismo. sejam feministas sim, contudo tomem consciência de que abrir as pernas para qualquer idiota que aparece mostrando interesse em tudo o que você faz não é feminismo, é ESTUPIDEZ. procurem primeiro saber se ele é sincero, se diz a verdade, que não tem apenas minhocas na cabeça.

(e se disser que estou sendo romântico, vou apenas dizer que você está no blog errado lendo o artigo errado e pedir para que saia pelo mesmo lugar por onde entrou antes que eu lhe mande pra puta que lhe pariu. não é hora de arrumar rótulos para o escritor, é hora de tomarem vergonha na cara, pois as mais prejudicadas nessa história são vocês mesmas que acabam num relacionamento ruim sofrendo e por quê? por que não souberam escolher direito.)

saibam que eu quero o melhor para vocês, mas não posso ficar agradando o tempo todo, passando a mão em suas cabeças enquanto continuam fazendo burradas. eu não sou um boçal, não sou mauricinho e nem quero parecer astro do Big Brother. sou o que sou e não vou enriquecer meu vocabulário com mentiras e piadinhas só para vocês pensarem que sou legal (eu sei que sou legal, não preciso provar nada), muito embora quando eu usar um elogio, quando disser que gosto do seu jeito, da sua voz, do seu rosto, podem ter certeza absoluta que o que estou dizendo é verdade e não o faço apenas para agradar, faço porque gosto e quero que saiba disso e se sorrir para mim isso já terá muito valor. eu sou assim e sei que existem, são mais raros mas existem, outros caras assim por aí.

e então, o que vão fazer: continuar a encher o ego dos imbecis ou procurar conhecer os homens com caráter e inteligência? qualquer coisa, meu e-mail é disritmia@ymail.com [o autor ri].

 

23-09-2009

Mercedes Sosa (9 de julho de 1935 – 4 de outubro de 2009)

Postado em Uncategorized com as tags , , em Outubro 7, 2009 por Fernando Albuquerque

Um dos discos que mais gosto é dela.

***

Postado em Frases em Outubro 5, 2009 por Fernando Albuquerque

cachorro que apanhou não volta
para pegar o osso na casa
de quem bateu

uma noite dessas

Postado em Poemas em Outubro 2, 2009 por Fernando Albuquerque

eu disse: não

e ela disse: SIM!

tentei reverter a situação

mas ela queria o inverso

então eu disse: está tudo certo

                            chegue mais perto

                            fique nua

e ela disse que eu nunca a venço

                    que eu sou seu pupilo.

e lá se foi a roupa

e vieram nuvens    vento    chuva

depois arfando & suando

tudo desapareceu,

eu disse: esta noite quem ganhou fui eu.

não seja tão gentil, ela disse.

por mais que eu perca, eu disse,

sempre saio ganhando

e ela: é por isso que te amo.

eu: é por isso que sempre me engano.

 

01 de outubro — 2009

Adão e Eva (outra história envolvendo bebedeira, sexo e uma garota estranha)

Postado em Contos com as tags , , , , em Setembro 22, 2009 por Fernando Albuquerque

[Desaconselhável para menores de 18 anos. Restrições: descrição de sexo (pouco atenuado), linguagem chula e obscena]vermelho-calcinha

De alguma forma acordei de ressaca na casa dessa garota e não há mais que fragmentos disformes da noite passada em minha cabeça. Só me lembro de estar longe da minha casa e ela me oferecer a sua para encostar minha embriaguez. Marina é mais uma dessas garotas estranhas, coisa normal para uma pessoa como eu que jamais conheceu uma garota que fosse inteiramente normal. Mas não ela, Marina não, não parecia. É que no pouco contato que com ela tive antes desse episódio, eu realmente achava que ela fosse normal, do tipo não é pra mim. Marina é a melhor amiga de uma ex-namorada minha, a Sarah, esta completamente anormal com seus discos de rock e seu temperamento e humor oscilantes. Mas Marina não era assim, ela era mais calma, sempre sorridente e simpática, alguns anos mais velha que eu fazia o tipo responsável, moça de família.

Quando acordei já estava no meio da tarde e não sabia sequer onde me encontrava. Me vi em um colchão aos pés de uma cama de casal com lençol impecavelmente branco em um quarto que eu não conhecia. Me sentei, olhei ao redor. Não vi ninguém, a cama estava arrumada e vazia. Onde me meti dessa vez, me perguntei antes que a porta se abrisse e Marina aparecesse dizendo: “Acordou dorminhoco?” e só então me dei conta que aquele quarto provavelmente era dela e que por algum milagre eu fora arrastado para lá. E eu não tinha nenhuma forma de intimidade com essa garota, só a conhecia de ois e tudo bens, contudo agora eu tinha uma prova de que bêbados são sempre amigos de outros bêbados.

—                 Vem comer alguma coisa, você deve estar com fome — chamou ela.

Eu não estava com fome, mas acabei indo mesmo assim. Em volta da mesa da cozinha, encontrei seus pais, um irmão e a empregada. Marina ficou sentada ao meu lado o tempo todo enquanto eu comia, como se para me proteger das pessoas que eu jamais havia visto. Seus pais eram simpáticos e calados, o velho muito magro de cabeça cor de zinco e a mãe, baixinha com os cabelos ainda coloridos, parecia uma galinha bem alimentada. O irmão tinha cara de irmão mais velho, mas na verdade era mais moço que Marina, só que mais velho que eu. Já Marina, o anjo da família, sustentava um cabelo cacheado castanho-chocolate muito bem tratado, olhos de um brilho bem humorado que a fazia parecer estar sempre pronta para fazer uma piada maldosa e rir na minha cara, maças do rosto um pouco salientes assim como o par de seios. Bonita, sem dúvidas, bonita. Só não tinha reparado antes porque amiga de namorada — e também de ex-namorada — é um território proibido; é melhor ignorar o máximo que der para não arranjar confusão. Agora o estrago já estava feito, será que minha ex sabia que eu estava lá?

—                      Ela sabe que estou aqui? — perguntei.

—                      Ela quem?

—                      A Sarah.

—                      Claro que sabe, ela tava com a gente ontem, não lembra? Foi ela que ficou com pena de você e sugeriu que eu te levasse pra sua casa. Bem, eu preferi te trazer pra cá, você mora do outro lado da cidade, não ia me arriscar dirigindo até lá depois de ter bebido. Se a policia pega…

—                      Lei seca, um saco isso. Ainda bem que não tenho carro e nem sei dirigir, mas daqui uns dias vão querer proibir outras coisas: o cigarro, a carne, o sexo…

—                      O cigarro eles já estão quase proibindo, e o sexo, bem, a gente já faz escondido mesmo.

Sua mãe nos lançou um olhar desconfiado; fiquei constrangido. Devia estar pensando que eu estava comendo sua filha, mas não, eu não estava. Ou estava?

—                      Não, você não tinha forças pra tanto — respondeu ela antes de soltar uma gargalhada.

Depois que acabei de comer, ela disse que precisava sair, mas insistiu para que eu ficasse e sei-lá-por-que acabei ficando. Passei o resto da tarde na sala, com a tevê sendo ignorada enquanto conversava sobre futebol com Marcelo, o irmão botafoguense dela.

Quando ela voltou já era noite e o que eu ainda estava fazendo ali? Às vezes me esqueço que não sou de casa em alguns lugares. Mas é melhor eu ir, já fiquei mais do que devia, estou abusando da hospitalidade.

—                      Deixa de ser chato. — disse ela — Fica aí que agora é a nossa vez, você e eu.

Não sei por que, mas quando ela disse isso tive a impressão que ela queria me estudar, botar à prova certas coisas que minha ex devia ter contado a meu respeito — provavelmente coisas ruins, é claro. Paranóia talvez, mas foi o que passou pela minha cabeça. Mesmo assim, como não havia nada para fazer sozinho em casa e como eu não tinha nada para perder, decidi ficar.

Como eu não tinha levado nenhuma roupa, o irmão de Marina me emprestou umas dele que até que não ficaram tão grandes, levando em consideração que ele é bem mais largo do que eu. Confesso que é estranho me ver usando a cueca de outro homem, mas era melhor que usar a mesma de ontem. Tomei um bom banho e me senti renovado.

Até então Marina me parecia apenas uma garota legal que mostrava um estranho interesse em não me deixar ir embora. Estava um pouco calada, mas era divertida quando falava, sempre bem humorada. Seus pais quase não falavam, o que era bom para mim que detesto interrogatórios de papai e mamãe, e Marcelo, o irmão, era um porra-louca que fazia piadas sem graça sobre tudo.

Por volta das 9:30, Marina pegou umas cervejas e me chamou para o seu quarto. Um pouco cedo, mas estava ótimo pois para mim mais de uma pessoa me fazendo companhia já é tumulto. Gosto do número dois; sempre me satisfiz com esse número, não preciso de mais.

No quarto, Marina abriu uma lata de cerveja, acendeu um cigarro e eu notei que o meu colchão já não estava mais lá. “A cama é grande, tem espaço de sobra pra você e eu, algum problema?”, não, problema algum, moça, a casa é sua, você é quem decide. Abri uma cerveja e também acendi um cigarro; apesar da estranheza, eu estava rindo por dentro.

Mas ela não estava rindo muito. Estava cada vez mais calada enquanto eu falava sem parar para evitar o constrangido silêncio.

—                      Estou falando demais? — perguntei, começando a ficar embaraçado — E olha que a Sarah reclamava que eu era quase mudo.

—                      Não, você não tá falando demais, eu é que tô calada mesmo. Não vamos mais falar na Sarah hoje, tudo bem?

—                      Tudo bem.

Ela deu um sorriso estranho, meio debochado, e foi então que comecei a me sentir idiota. Estava demorando, posto que isso sempre acontece quando estou com uma garota e não tenho o controle da situação. Garotas mais velhas são mais difíceis de agradar, penso eu. Pois bem, quando não há mais nada de interessante para dizer, o que resta são os elogios. Não gosto muito de elogios já que sempre parecem estar sendo ditos apenas para agradar e, na verdade, é mesmo para agradar, mas jamais eu diria um elogio falso da boca pra fora.

—                      Você é linda, sabia? — falei, meio tímido.

—                      Obrigada. Vai começar a arrastar asinha pro meu lado agora? Me respeita, eu sou mais velha, comportada e melhor amiga da sua ex, se lembra?

—                      Tá bom, então você é feia, mas a sua feiúra me agrada deveras.

Ela riu. Fiz a piadinha boba apenas para disfarçar que fiquei sem graça com o que ela disse. Marina é daquele tipo de garota que a gente nunca sabe se está falando sério ou não, mesmo numa situação obvia como aquela, assim como não se sabe se ela é santa ou diabinha. Por isso, melhor é manter um certo respeito para evitar ofender. Mas eu estava louco para descobri-la, ela estava me intrigando desde que me vi acordar em sua casa. Por que tinha uma cama de casal no quarto? Por que estava tão tímida e por que me trouxe para sua casa na noite passada e insistiu tanto para que eu não fosse embora hoje? Quer saber, melhor arriscar.

Aproximei-me dela, a segurei pelo braço e a beijei. Primeiro de leve, apenas tocando meus lábios com os dela, depois um pouco de língua, um pouco mais, mais um pouco até melar tudo.

Uau! Que boca! Ela beijava do jeito que eu gosto; até mordeu meu lábio inferior e mais uma vez pude sentir que minha língua era pequena demais — com algumas garotas eu sinto isso quando a língua delas está quase adentrando minha garganta.

—                      Gostei disso — eu disse.

—                      Disso o que?

—                      Do beijo, oras!

—                      Ah sim, foi bom.

A cerveja acabou e ela disse que deveríamos dormir. Concordei, já pensando em besteira. Ela acertou a cama e quando se abaixou para me entregar um travesseiro eu a puxei pela cintura fazendo-a cair no meu colo — opa! — e então eu a beijei de novo. Em seguida ela se levantou, meio como se fugisse, dizendo que ia ao banheiro.

—                      Pode dormir, você deve estar com sono. Eu vou demorar um pouco lá: vou tomar um banho. Adoro tomar banho antes de dormir.

Achei e estranho e por um segundo quase perdi a esperança, parecia um corte aquele “dormir” e essa coisa de sono sabendo que acordei às duas da tarde. Mas eu não era de desistir assim, de graça; quem sabe não era só um teste. Agora que eu queria transar com ela eu esperaria o tempo que fosse até ela voltar — pro tesão não existe relógio.

Voltou uns 15 minutos depois, de pijama, mas não parecia ter tomado banho.

—                      Ué, ainda não dormiu? — perguntou ela meio surpresa meio decepcionada.

—                      Acha mesmo que ia dormir? O que a Sarah andou te falando?

—                      Ela não falou nada, já não falei pra não falar nela?

—                      Ok, então deita aqui comigo.

Ela deitou e eu comecei a beijá-la. primeiro a boca, depois o pescoço enquanto minha mão fazia seu trabalho com meu toque suave massageando seu corpo, costas, barriga, seios e pronto: estava ligada, começou a gemer. Tirei primeiro o baby doll, não estava de sutiã por baixo e seus seios eram divinamente lindos, do tamanho perfeito com mamilos de um tom rosa meio dourado — uma cor que nunca encontrei nas caixas de lápis-de-cor da Faber-Castell. Depois a deixei só de calcinha (era vermelha) e comecei a beijar seus seios ao passo que minha mão perscrutava os segredos de seu corpo. Ela tirou minha camiseta e também me beijava — e o fazia muito bem —, sua mão a essas alturas já tinha aberto meu zíper e libertado o periquito. Pus a mão dentro de sua calcinha, alcançando a fenda mágica: estava molhada, com certeza estava molhada! É hora de tirar, vamos ver o que você esconde aí em baixo.

Tirei a calcinha e, para minha surpresa, ela era depilada, careca, pata de camelo. Só então pude ter certeza que o tipo moça de família era só charme. Nem a Sarah era depilada e a Sarah já era um fogaréu. Depois de ver que era diabinha acabei de me soltar, fui descendo, a chupei por um tempo e ela ficou a ponto de bala. Era hora de entrar. Só estranhei o fato de ela não ter me chupado, só ficou segurando e mulher que não chupa é o fim, mas nem precisava: eu já estava ligado havia horas.

Era o momento e quando ela me viu levantar para pegar a camisinha na carteira ela disse debochando:

—                      É a primeira vez que vejo alguém levantar correndo pra pegar uma camisinha.

—                      É porque você não está acostumada comigo, sempre esqueço de deixar perto.

E era verdade, gosto tanto daquela borracha filha da puta que nem me lembro que ela existe.

Pus o silenciador na pistola e finalmente entrei. Era quente, apertada, e ela sabia fazer os movimentos certos. Fiquei de joelhos, sentado entre meus pés e, com as mãos em torno do dorso dela, a levantei e fiquei controlando os movimentos. Para cima, para baixo, lento, lento, rápido, rápido até que…

Sem nenhum aviso prévio, Marina me empurrou, tirou meu pau pra fora de sua boceta e se arrastou correndo para a cabeceira da cama onde abraçou os próprios joelhos. E até então ela parecia estar gostando. Que é que eu fiz de errado dessa vez?, me perguntei.

—                      Me desculpa. — pediu ela — Eu não tô muito legal hoje.

Decepcionado, respondi que estava tudo bem e ela me chamou para dormir abraçado com ela. Fizemos isso.

Na manhã seguinte a porta do quarto se escancarou acordando nós dois. A família toda adentrava o quarto falando em voz alta. Foram até o armário, a mãe pegou alguma coisa e saíram quase sem dar atenção para o peladão de pau duro abraçado à despida filha deles. Só Marcelo, o irmão, tirou uma casquinha — puxou meu dedão do pé e disse rindo: “Tarado! Comedor de irmãzinha”.

Achei aquilo surreal demais, mas Marina disse para não ligar que ali todo mundo era louco assim mesmo. Só não entendi por que é que ela não havia trancado a porta na noite anterior. Quando fomos tomar café na mesa da cozinha, eu sequer tive coragem de encarar os pais dela depois de terem me visto naquela situação.

Mais tarde, Marina e eu saímos, eu tinha de passar na minha casa para ver como andavam as coisas por lá; ela me deu uma carona. No caminho perguntei o que tinha acontecido na noite passada para ela correr daquele jeito. Ela, como que para me assustar, respondeu:

—                      Para mim existe a Eva e existe o Adão, ela fica na frente e ele atrás. Você é do tipo que se interessa mais pela Eva, até deu uns beijinhos nela ontem a noite, mas nem todo cara é assim. Na noite passada, quando te levei pra minha casa, o cara com quem eu estava antes gostava mais do Adão e eu estava toda dolorida quando trepei contigo. Cada movimento que você fazia e quando minha bunda batia em sua coxa eu quase morria.

—                      Ahn?

Não gostei nem um pouco da piada. Notava-se que ela queria me assustar, eu só não entendia o porquê. Ela me deixou em casa e tomou outro rumo, me dizendo que a gente se via depois.

Se aquilo era um fora, eu não havia engolido. Ainda mais com aquela meia transa buzinando na minha cabeça. Não pode ser, eu fiz tudo certo, tem alguma coisa errada e eu vou descobrir o que é.

Duas horas depois eu peguei um ônibus e fui para a casa dela. Eu a encontrei sentada em um canto da varanda, de costas para a rua. Entrei sem que ela percebesse e pude notar que ela chorava. Me senti mal, ela realmente estava com problemas e eu pensando que ela estava apenas me dispensando. Pus a mão em seu ombro e disse, com voz doce e preocupada, que me contasse o que realmente estava acontecendo.

—                      Não veio atrás do Adão, veio? — perguntou ela ainda soluçando.

—                      Não, só quero que me conte o que está acontecendo.

—                      São meus pais, cara. Sabe quando você nasce numa família de irresponsáveis? Meu irmão é um idiota e meus pais irresponsáveis.

—                      Mas o que houve?

—                      Meus pais fizeram uma divida aí e podem perder a casa se não pagarem. Eles não têm dinheiro e adivinha pra quem sobrou pagar a divida? Pra mim, é claro. Vou ter que tirar dinheiro da minha poupança, dinheiro que ganhei com meu trabalho, pra livrar a cara deles. Tem vez que tenho vontade de mandar eles pro inferno, mas eu não consigo, sou muito boa.

—                      E eles não têm como conseguir um empréstimo ou algo assim?

—                      Isso já é um empréstimo, se pegarem outro pra pagar esse vai acabar dando no mesmo: vou acabar tendo de pagar mais tarde e com juros. Melhor pagar agora e me livrar disso, mas juro que é a ultima coisa que faço por eles nessa vida. Queria ter um filho, fazer uma família que não seja essa, só assim tomaria coragem de sair da casa deles.

—                      Que chato isso. Queria poder fazer alguma coisa, mas… Tenta não pensar nisso, pára de chorar.

—                      Então me abraça.

Eu a abracei e ela ficou pedindo desculpas pela noite anterior. Eu apenas dizia: esquece, esquece, esquece, não tem problema. E por fim ela disse: “Obrigada!”.

Acabei ficando na casa de Marina mais aquele dia. Mais tarde ela foi tomar um banho e dentro do banheiro pode-se ouvir ela gritar.

—                      Mãe, esqueci a toalha.

Eu estava na cozinha e sua mãe me entregou a toalha dizendo para que eu levasse para ela.

—                      Eu? — me surpreendi.

—                      É, você. ou o senhor está ocupado? Vai lá, ela deixa a porta aberta, entrega pra ela.

Assim eu fui, ainda meio ressabiado. Abri a porta, entrei e ela me olhou de dentro do Box com aquele famoso olhar de contador de piada que tanto me intrigava.

—                      Tarado! — disse ela antes de dar uma gargalhada.

—                      Sua mãe que me mandou vir te dar a toalha.

—                      Não a-cre-di-to! Minha mãe ainda é cúmplice? Ah, então aproveite a viagem, entra aqui, a água tá booooa.

E eu, que não me faço de rogado, tirei a roupa e entrei. Começamos a nos beijar e nos tocar. Desta vez foi ela quem desceu e antes de pôr o menino na boca, disse:

—                      Liga não, ontem eu `tava pouco inspirada.

—                      Tá bom, te perdôo.

Eu ri e ela pagou o que ficou devendo na noite de ontem. Antes de penetrá-la lembrei de uma coisa: A CAMISINHA!

—                      Não, você não vai sair daqui todo molhado pra buscar camisinha. Relaxa, se eu ficar grávida vai ser legal, papai.

E como não gosto da borracha, nem perdi tempo insistindo — fui logo entrando naquela carequinha maravilhosa e melada ao natural, pele com pele. Transamos ali, encostados na parede do Box do banheiro.

No meio do vai e vem ela começou a gemer cada vez mais forte até que… Me empurrou, igualzinho fez na noite passada. De novo não, pensei. E então vi que ela ria e disse:

—                      Te assustei? É que eu gozei.

E ao dizer isso, ela puxou minha mão direita e apertou entre suas pernas.

—                      Consegue sentir? Eu dou choque! Agora é a sua vez. Vem, põe dentro de mim de novo.

Entrei nela de novo e continuei meu ritmo: lento, lento, rápido, rápido até perceber que era a hora. Pensei em bebês e fraudas e sem perceber deixei escapar um “dentro não”. Ela entendeu, tirou ele para fora e me fez lembrar o final dos filmes pornôs.

À noite, quando fomos dormir, trepamos outra vez e foi tão bom quanto à chuveirada. Depois disso, por volta da meia-noite, o celular dela tocaria quando ela escovava os dentes. Disse com a voz embargada pela escova para que eu atendesse. Era Sarah.

—                      Quem é? — perguntou Sarah estranhando a voz que não era da amiga.

—                      Fernando.

—                      Filho da puta!!! — berrou e desligou na minha cara.

Eu ri. Marina perguntou quem era.

—                      Era a Sarah.

—                      E o que ela disse?

—                      Me chamou de filho da puta e desligou.

—                      Hahahaha! Quando eu encontrar ela, a filha da puta vai ser eu.

—                      Ei, me responde uma coisa: se o dito cujo é o Adão e a menina é a Eva, quem é o meu menino?

—                      Você não acreditou naquela história de Adão e Eva, acreditou?

—                      Em parte não.

—                      Pois é, em parte era mentira, sobre a noite em que veio pra cá, o cara e tal. Não havia cara nenhum, não sou tão vagabunda assim.

—                      Mas você usa esses nomes, né?

—                      Uso sim.

—                      Então, me responde, quem é o menino.

—                      Como você é bobinho, poxa! Não sabe mesmo quem é o menino?

—                      Não mesmo.

—                      Ora, é a cobra.

   

21-Set-2009

 

créditos da fotografia: modelo Vika G. fotografada por Oleg Morenko para © MET-ART.COM

tele-sexo

Postado em Contos em Setembro 20, 2009 por Fernando Albuquerque

corri como um desgraçado para fugir da chuva e acabei entrando num bar do qual sequer consegui ler o nome. a jukebox tocava Leviana, do Reginaldo Rossi. um sujeitinho com cara de boa praça atrás do balcão foi perguntando “o que deseja?” assim que me viu. “me vê uma Brahma”, falei.

“dez reais”

“dez reais o que?”

“a cerveja”

só então notei que a clientela era constituída apenas por homens enquanto mulheres de decotes enormes falavam com eles com sorrisos enormes no rosto. dei-lhe a nota só para não ter que bancar o desentendido — qualquer coisa já entrei sabendo em que ninho estava me metendo —, mesmo assim o fiz com dor no coração. nunca pagara dez paus numa cerveja, menos ainda numa Brahma made in Brasil. pelo menos estava gelada.

não demorou muito para uma loira baixinha se aproximar e pedir que lhe pagasse uma bebida. pensei, que merda!, que é que eu estou fazendo aqui, e loira nem é a minha preferência. mas eu sou um pamonha, como eu negaria a bebida pra moça? mas se ela pedisse uísque? se a cerveja era dez, uísque deveria ser cinqüenta. o jeito é bancar o mala.

“não estou interessado”, falei.

“mas é só uma bebida, só quero beber contigo”

“também não estou interessado em te pagar uma bebida’

“se é viado, o que veio cheirar aqui?”

“não sou viado, sou pobre e vim cheirar o teto. lá fora está chovendo”

“ah, fala sério, vai te catar”

“as damas primeiro”

e assim ela foi embora, rebolando sua bunda de tanajura pelo salão. concentrei-me na cerveja, gelada, como estava gelada, dez pratas, filha da puta. quanto será que a loirinha cobrava? se fosse seguir o preço da loira no meu copo prefiro ser castrado. ao mesmo tempo, penso, se eu estivesse no lugar dela, quanto cobraria de mim? bem, para mim eu dava de graça, mas dos outros não cobraria menos de mil.

daí veio a morena, um pouco mais alta, sotaque nordestino.

“me paga uma bebida, moço?”, perguntou ela.

“pode ser cerveja?’

“oxe! pode sim”

só paguei porque adoro gente do nordeste, o sotaque é maravilhoso e já estava me dando no saco beber sozinho. ela atendia pelo nome de Liz.

“e então, gato, o que tu faz?”, falou ela.

“sou escritor”

“achei que escritores não freqüentavam esse tipo de lugar”

“tá querendo dizer que achava que todo escritor é gay, é isso?”

“não, mas é que vocês são gente tão culta”

“é só tipo, tudo fingimento”

“não é não, vocês falam tão bem e têm conhecimento de tanta coisa”

“falar eu falo sobre um monte de coisas, puxe um assunto que terei para você um ponto de vista, mas pensar não, pensar a gente só pensa naquilo que todo mundo pensa”

“em sexo?”

“na maior parte do tempo sim”

“e o que fica fazendo quando não está pensando em sexo?”

“fazendo ou então dormindo”

“você é tão sincero, difícil ver isso em homem”

“sou sim”

“oxe! e eu pensando que ainda existiam santos”

“e existem, mas até eles pensam em sexo. mas me diz, já leu algum livro?”

“li sim. quando criança eu lia muito cordel, é que eu sou lá do Rio Grande do Norte e lá a gente lê muito essas coisas”

“e sem ser cordel?”

“li também, um livro que me marcou foi O Pequeno Príncipe

“humm, bom. e como caiu na vida?”

“moço, você deve saber como é: a gente vem lá de riba esperando encontrar o paraíso aqui em baixo, mas quando chega passa é fome”

“sei sim, é por isso que acredito que em vez de vocês descerem, a gente é que deveria subir”

Liz riu. a cerveja acabou, pedi outra, menos dez moedas no porquinho, mais uma nota de dez na caixa registradora do estabelecimento.

“a cerveja aqui é cara”, falei para Liz.

“é sim”, concordou ela, “mas não é só aqui”

“eu sei, não é só aqui mas em lugares assim”

“mas você não veio aqui a toa, veio?”

“entrei para me esconder da chuva”

ela riu.

“mas já que veio, vai aproveitar né? quer ir pro quarto comigo?”, convidou Liz.

“não, é sério, eu estava fugindo da chuva. não vou pra cama contigo, não me sentiria bem usando alguém que já leu O Pequeno Príncipe

(e também não me sentiria bem pagando sei-lá-que-fortuna ela fosse me cobrar)

“oxe! mas você não disse que todo escritor é tarado?”

“eu disse?”

“disse sim, mas você é legal, eu vejo isso nos seus olhos. mas já que está aqui…”

“você quer ir pra cama comigo?”

“oxe! claro que quero”

“não estou falando por causa do meu dinheiro, estou perguntando se quer mesmo ir para a cama comigo pelo que eu sou, por eu ser legal como você disse”

“eu preciso ganhar a vida”

“eu não perguntei isso”

“quero. você é um cara legal e a maioria dos caras que aparecem por aqui não é. seria ótimo estar com alguém que valha alguma coisa”

“então me passa seu telefone”

“pra quê?”

“eu te ligo durante a semana e a gente sai, conversa e se rolar a gente vai pra cama como pessoas normais”

“não posso, norma da casa, nada de programas fora do estabelecimento”

“não estou falando de programa, quero um encontro”

“mas… comigo?”

“e por que não?”

“não posso mesmo, é sério”

“então eu vou embora. você mentiu quando disse que queria ir para a cama comigo. você quer é meu dinheiro”

“eu quero, mas… você vai mesmo me ligar?”

“quer apostar?”

“tudo bem, vou escrever no guardanapo, não deixa meu patrão ver, tá bem?”

“tá legal”

“você não é um cara para transar, é um cara para fazer amor”

depois disso, bebemos mais uma cerveja e eu fui embora. a chuva havia parado e eu estava quarenta paus mais pobre e com o telefone de uma garota de programa anotado em um guardanapo enfiado em meu bolso esquerdo.

liguei para ela quatro dias depois e marcamos para aquela noite, já que aquele dia ela não trabalhava. era uma quarta-feira e Liz estava linda num vestido preto e sandálias de salto alto, nada refletindo o decote vulgar da primeira noite. naquela quarta-feira, Liz foi a minha garota. bebemos, comemos juntos e, mais tarde, fomos para cama. ela estava certa, sou um cara para fazer amor. posso ir para cama com uma garota que nunca vi antes e apenas uma vez, mas naquele instante mágico ela será minha e eu a amarei como se fosse a mulher da minha vida.

 além disso, fazendo amor, eu economizei uma boa grana.

 

07 de Setembro — 2009

política

Postado em Charles Bukowski: poemas e textos., Citações, Frases em Setembro 15, 2009 por Fernando Albuquerque

“alguns homens anseiam pela revolução, mas quando você se revolta e constitui seu novo governo você descobre que o seu novo governo é ainda o velho papai de sempre, tendo colocado apenas uma nova máscara de papelão”. — Charles Bukowski Notes of a Dirty Old Man.