UM POUCO DE BLUES

shadow

Toquei um pouco de blues num violão desafinado pra me aliviar dos espinhos afiados demais dentro da carne. Toquei um pouco de blues, o violão estava desafinado e eu imaginei que fosse 11hs da noite quando o sol me arrancava o couro como se fosse uma lua linda daquela que só os poetas chineses sabiam descrever sem que soassem como xaropes. Toquei – e como toquei! – um belo blues naquele velho violão desafinado, tanto tanto que senti vontade de aprender a nadar numa banheira cheia de gelo com um copo de gim do lado e a sombra de uma mulher pelada me oferecendo um quarto conjugado com uma pia e um travesseiro de penas na rua dentro das suas entranhas. Ela me deu um cigarro, eu toquei um pouco de blues num violão violentado, a caixa oca, as cordas tortas como a vida e eu disse a ela, baby, a vida é como morar na praia e você sabe que na praia às vezes chove e todo dia tem uma noite e a água fica fria demais como a morte ou seus olhos frios a me observar enquanto seu corpo sua nos lenções da sua cama. Toquei um blues até o violão ganir um pranto negro de uma geração de escravos antepassados sob o jugo da ventura, toquei seu corpo até o violão ficar desafinado e cantei com a voz de mil gatos solitários vagando dentro da madrugada fria, mil homens desesperados no minuto que antecede o fim da guerra, mil anos à espera de um milagre. Toquei um blues até que a morte nos separe, desafinado e sentido quanto a dor de um parto ou uma perda, um gozo estranho e uma solidão de pescador que sonha o peixe de Hemingway, mas teme e teme e sempre teme que os tubarões venham nadando nos ventos da aurora feito um fado.

Andrew Clímaco, 01 de Fevereiro de 2014.

THE SADDEST LETTER

pésAdmitir que o destino errou seria como dizer que Deus errou,
que você errou e sobretudo eu errei quando não fui capaz de prender você,
de controlar Deus.
Admitido o fato eu diria que poderia ter te amado mais
se quando começamos você não tivesse cometido o erro de deixar pra depois –
como todas as coisas importantes na vida que você deixa pra depois
(como se fossem banalidades)
num se-é-pra-ser-será, chavão barato usado como desculpa pra quem tem medo.
Fato é que você sempre deixou todas as coisas grandes & pequeninas pra depois;
todas elas, inclusive eu,
e Deus ouviu as suas preces e não as minhas
(porque às vezes até Deus tem que escolher e quem sou eu pra dizer que Ele escolheu mal?)
e no fim das contas eu acabei perdendo você e a mim mesmo,
porque eu mesmo há tempos já não sei quem ou o que sou
vagando nessas incertezas sem ter norte,
cheio de sombras e segredos que eu mesmo desconheço e engulo como se fosse vida,
quando nem te procurar eu procuro , quando finjo que está tudo bem ou te ignoro,
quando eu preferiria estar morto só de pensar que não tem volta,
que o começo é passado, que estamos cansados e eu não consegui ainda acertar as minhas contas com Deus
que não quis me escutar naquela hora mais absurda
só porque desisti de amá-Lo por um instante para amar uma mulher impura.
Ouso dizer ainda que talvez tivesse te amado mais se não tivesse te conhecido,
nem tocado seu cabelo, nem beijado seus pés como se fossem os de uma rainha –
essa rainha estúpida que jamais soube encontrar seu lugar
no trono que eu construí com as minhas próprias mãos – estas mãos
hoje ensanguentadas de recolher cacos que na tristeza servem-me de alimento –,
nem sonhado ter com você o seu filho indesejado, eu teria amado mais
porque não existiriam lembranças de expectativas a perturbar meu sonho,
nem essa sede de Saara de olhar para os momentos que não vivemos
só porque você estava preocupada demais com coisas mais importantes do que eu
(e você fez questão de colocar um mundo inteiro nesse grau de importância)
e Deus, ciente apenas dos meus pecados de morte e não dos seus, ouviu todas
as suas preces e não as minhas, e Ele te deu uma vida que você não tinha
e que por mérito era pra ser minha, porque somente eu olhei pra você como se fosse
mais do que uma mulher comum.
E é nessas lembranças, que, por ironia, admito que te amo ainda mais,
numa espécie de sonho perfeito ou catatonia, esse lugar dentro de mim que diz
que se as coisas fossem de outro jeito e eu fosse menos humano e mais esse ente
superior que você sempre esperou que eu fosse, se eu pudesse ter dado uma de Deus
e feito uma meia-dúzia de milagres pra modificar a insignificância do meu ser,
e tivesse tirado de você alguns anos, trazido você pra mais perto antes, sem dúvida
nós teríamos formado um casal perfeito e eu não teria me perdido assim
nessa estranha forma de viver, olhando pro passado, assombrado por fantasmas,
imerso em pesadelos sem nunca amanhecer.

Andrew Clímaco; 14/12/2013

explícita

nuaO berço do meu desejo é o teu corpo desenhado em giz na lousa de uma cama. Nu, imagino teu hálito de gim, tua cara de inocente (quase de puta), o atrito das tuas coxas no meu corpo e o suor escorrendo pela lousa como lágrimas de uma pedra. Imagino tudo, as partes mais belas e limpas do teu corpo como pétalas que o acúmulo dos anos é incapaz de murchar. Imagino também a sujeira mais bela, os fluídos dos lábios vaginais que quase esboçam um sorriso safado quando me aproximo, teu cu cheio de pudores, tuas dores, teus pés no meu rosto como se eu fosse um capacho. Imagino o cheiro de cigarro misturado com perfume, a tua voz no escuro a implorar por qualquer raio de luz que parta de mim, te imagino num parto de mim, parte de mim, sem receio, sem roteiro, sem rastro para que a solidão do ser jamais venha a nos encontrar, e no teu sorriso de satisfação o meu corpo esvaído de mim escorrendo para dentro e fora de ti só para que num instante me faças sentir o homem mais feliz. Todavia, é apenas um desenho mal traçado e eu permaneço aqui coberto de cal enquanto a escuridão da lousa pouco me diz, apenas o giz e o meu desejo estrangulado na forca da minha imaginação.

Andrew Clímaco; São Paulo, 12/10/2013

entre trevas

solitude

quem seria louco de encontrar-se com a solidão no meio da noite?
embora seja inevitável desta que nos persegue e é nossa fugir
quem então, posto que já somos todos loucos na própria solidão,
ousaria ir além e no meio de uma noite escura procurar encontrar-se
com a solidão de outro e desta compartilhar uma silenciosa lamúria?
um canto, um acalanto, uma palavra qualquer de ternura e encanto,
um tato que baste a fome de tato, um hálito quente ao pé do ouvido,
um encontro suave de pés e mãos e um diálogo de silêncio sob sombras frias,
quem ousaria? A morte, talvez, ou dela o inimigo maior chamado amor,
mas por onde anda o amor enquanto a morte me chama nos sonhos?

Andrew Clímaco; São Paulo; 09/10/2013

THE LAST TIME I SAW MARY

abandoned railway station

Eu estava sentado ao lado daquela velha ferrovia ao sul de lugar nenhum, as mãos sujas de carvão e graxa, bebericando uma cerveja morna na hora do descanso, enrolando um cigarro com fumo dos índios em palha de milho e o sol deitava calidamente a sua mão fulgurosa sobre a minha testa como se faz com um filho. Eu estive assistindo chegadas e partidas a metade da minha vida, o café-com-pão das locomotivas que chegavam do norte e para o norte partiam levando um a um até que não sobrou quase ninguém, e era eu o responsável por manter os grandes pássaros voando sobre ferro quente pelo país afora – e era de mim que o corretor de imóveis falava justificando o quão pacata a cidade se tornou nos últimos anos. Eu era o que tinha ficado, o responsável por manter os trilhos em ordem para que os que desejassem partir partissem. E eu já estava acostumado com a rotina de ver as pessoas entrando no trem e nunca saindo dele. Então um dia, Mary, minha esposa, a última pessoa que havia ficado naquela cidade junto comigo também partiu. Eu bebia o último gole da cerveja morna quando a velha locomotiva apitou na curva e desapareceu para nunca mais. Dei um trago no pito de palha e pensei com meus botões que havia chegado a minha hora. Voltei para casa naquele fim de tarde, lavei-me no banheiro, a água turva correndo das minhas mãos para o ralo, e em seguida pus-me a fazer as malas – não havia tempo, queria pegar o primeiro trem logo pela manhã. Passei a madrugada em claro, ansioso, engasgando tragos de uísque do Tennessee e pensando em Mary. Quando amanheceu, corri até a velha estação onde por longos anos eu havia trabalhado, pus as malas no chão e esperei – uma hora, duas, três, dez horas, não sei ao certo quanto tempo – e enfim me dirigi aos guichês de passagens para perguntar sobre o trem atrasado e o que encontrei foram teias e aranha, o piso de tábuas carcomido pelo tempo & cupins, poeira por todo lado, nem uma mosca para fazer zumbido, nada que fizesse pensar que algum dia houve vida por ali e uma placa enferrujada com os dizeres “LINHA FÉRREA INTERDITADA. ANO DE 1934”.

 

Andrew Clímaco; 14 de junho de 2013.

CONJECTURAS

Se nós tivéssemos nos encontrado
Se nós tivéssemos nos conhecido
Se desse conhecer algo fosse aproveitado
Se um sorriso tímido você tivesse me dado
Se de mim não tivesse você desconfiado
Se por acaso eu sentasse do seu lado
Se suas histórias você tivesse me contado
Se por lembrança sentido o peito apertado
Se por pedido eu tivesse te abraçado
Se no teu ouvido baixinho eu tivesse cantado
Se teu coração então tivesse palpitado
Se com lágrima no olho tivesse você sussurrado
Se de repente eu tivesse te beijado
Se nesse instante você tivesse me amado
E de mim tivesse se enamorado

Este pretérito imperfeito mal conjugado
uma relação conjugal teria se tornado
e um futuro a gente teria se dado.

 

Andrew Clímaco; 23 de Maio de 2013

* Inspirado no poema “Ai! Se sêsse!” do poeta Zé da Luz.